Crítica | Enola Holmes mostra que Sherlock não é o único detetive da família

Por Beatriz Vaccari | 25 de Setembro de 2020 às 23h15
Divulgação/Netflix
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Quando anunciado pela Netflix, Enola Holmes já vinha com a premissa de mover o holofote de uma história de época investigativa para a irmã mais nova do detetive mais famoso da literatura, Sherlock Holmes. Embora pareça desafiador, o filme que leva o nome da protagonista chegou à plataforma de streaming na quarta-feira (23) e cumpre muito bem esse papel de forma divertida e prazerosa de se assistir, fazendo o espectador esquecer das mais de duas horas de duração do longa.

A história acompanha Enola Holmes, uma jovem vivida por ninguém menos que um dos rostos mais marcantes da Netflix: Millie Bobby Brown, que mostra enorme versatilidade entre essa e sua personagem Eleven na série Stranger Things. Enola, como a protagonista brinca nos primeiros minutos do filme, é um trocadilho para Alone (sozinha, em inglês), esse termo define a personagem em diversos momentos do filme, em sentidos diferentes. Isso porque sua mãe Eudoria Holmes (Helena Bonham Carter) a criou para ser uma mulher de personalidade forte e independente de qualquer pessoa, inclusive dela mesma.

Atenção! Daqui em diantes esta crítica pode conter spoilers!

Millie Bobby Brown e Henry Cavill dão vida aos irmãos detetives Enola e Sherlock Holmes (Imagem: Divulgação / Netflix)

O pai de Enola morreu quando ela ainda era um bebê, e não demorou muito para Sherlock (Henry Cavill) e Mycroft Holmes (Sam Claflin) também deixarem a casa, fazendo com que a infância e todo o crescimento de Enola fosse acompanhado apenas por uma figura materna. A trama começa quando, aos 16 anos, a protagonista acorda e nota que sua mãe desapareceu. Por conta disso, seus irmãos são chamados para cuidar da caçula e Sherlock, por sua vez, investigar o desaparecimento misterioso de Eudoria Holmes.

O elenco inteiro do filme se encaixa perfeitamente em seus personagens, mas é injusto dizer que não exista um destaque nas cenas. Millie Bobby Brown acaba roubando todas as cenas em que aparece, desde o início em que quebra a quarta parece e contextualiza para o espectador toda a história, entregando carisma, tiradas de humor e um sotaque britânico extremamente carregado. Esse tipo de abordagem pode causar estranheza, mas as interações com a câmera acontecem na medida certa sem cansar ou atrapalhar o foco do público. Ponto para Harry Bradbeer, diretor do filme que comandou também a premiada série Fleabag, atualmente sendo a maior referência desse recurso em produções de entretenimento.

Sam Claflin é Mycroft Holmes, que atua como um antagonista para Enola (Imagem: Divulgação / Netflix)

O papel de Sherlock, que dessa vez é coadjuvante, também caiu como uma luva para Henry Cavill, o que não é uma tarefa fácil considerando os fortes nomes que já interpretaram o personagem em outras produções da cultura pop, como Robert Downey Jr., Benedict Cumberbatch, Johnny Lee Miller entre outros. Porém, Cavill chega a ser ofuscado facilmente pelo Mycroft de Sam Claflin, um personagem ranzinza, controlador e que também pode ser considerado um dos antagonistas de Enola, visto que, por possuir a guarda da irmã mais nova, não perde a oportunidade de enviá-la a um internato feminino para que ela aprenda as regras de etiqueta e se encaixe como uma dama na sociedade da época. Sua vontade de moldá-la e doutriná-la acaba justificando perfeitamente a fuga de Enola e a decisão de procurar a mãe por conta própria, que o filme trabalha muito bem.

Jack Thorne acaba acertando muito bem esse ponto no roteiro, inserindo as críticas à sociedade machista da época de uma forma fluida na narrativa e mais crua nas opiniões e atitudes de Mycroft. Eudoria também acaba sendo uma das maiores figuras feministas do filme, e influenciando Enola diretamente através de sua educação. Além disso, o roteirista faz um ótimo trabalho trazendo uma história de 1880 para a linguagem popular sem extrapolar limites e sem se prender ao vocabulário da época, erro que é visto, por exemplo, no Romeu e Julieta de Baz Luhrmann, em 1996.

Louis Partridge encanta sob o papel do Marquês Tewksbury (Imagem: Divulgação / Netflix)

Além do desaparecimento de Eudoria Holmes, o filme insere uma história paralela que se choca com a de Enola na metade do filme, porém de uma forma que não permite o espectador se perder com as informações retratadas na tela. O Marquês Tewksbury (Louis Partridge) acaba embarcando no mesmo trem que a protagonista para fugir de sua família, cujo primeiro encontro dos dois acaba dando um breve gostinho nostálgico para fãs de Harry Potter. O contraste de criação e educação de ambos gera diálogos diversos e intrigantes de se acompanhar, e quando Enola menos espera, a busca premiada da família pelo marquês acaba tornando-se uma de suas preocupações e atrapalhando a busca pela mãe.

Enquanto Millie Bobby Brown interpreta uma personagem cuja maior força está nos poderes mentais e cenas emotivas em Stranger Things, a atriz acaba servindo diversas cenas de ação e combate corpo a corpo em Enola Holmes, além de brincar mais com o humor tanto em sua fala quanto em expressões faciais.

O filme também promete encantar o espectador nos cenários, figurinos e maquiagem. A figurinista Consolata Boyle acaba tornando as roupas de Enola uma espécie de bússola para a personagem, cuja vestimenta precisa mudar de acordo com sua localidade, status social que deseja apresentar e em muitas cenas, fingir que é alguém do sexo oposto, vestindo roupas masculinas. O figurino também acaba trabalhando diretamente com o roteiro de Jack Thorne e usando essa crítica ao machismo logo nas cenas iniciais, em que Mycroft critica a forma de Enola de se vestir e se portar.

Helena Bonham Carter é Eudoria Holmes, mãe de Enola, Mycroft e Sherlock (Imagem: Divulgação / Netflix)

Por fim, é necessário também falar sobre a personagem de Helena Bonham Carter, que tem poucas aparições, porém muito pontuais. Eudoria Holmes acaba servindo como uma alter ego de Enola em diversas cenas do filme, tanto nas de ação mostrando ao espectador como a protagonista adquiriu suas habilidades de luta quanto nas cenas mais emotivas, que uma rápida aparição da personagem basta. Mas é só no final que Bonham Carter aparece e interage diretamente com Enola, tendo um rápido diálogo e justificando seu desaparecimento com fins políticos e sociais.

Enola Holmes não traz muitas coisas novas ao público, mas, ao mesmo tempo, não é um clichê do gênero e acumula pontos positivos em diversos aspectos da trama, tornando a experiência gostosa e interessante, sem cansar o espectador com sua duração e prometendo conquistar fãs além dos que já conhecem Bobby Brown por seu trabalho em Stranger Things.

O filme é uma produção original Netflix e já está disponível no catálogo.

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