Crítica | Educação Americana: Fraude e Privilégio explora corrupção e aparências

Por Natalie Rosa | 18 de Março de 2021 às 11h11
Netflix

Em 2019, um escândalo envolvendo admissões em grandes universidades tomou conta dos Estados Unidos. Agora, em 2021, a história ganhou um documentário para a Netflix chamado Educação Americana: Fraude e Privilégio. O filme conta como funcionou um grande esquema de corrupção que envolveu instituições de ensino extremamente requisitadas, como a Universidade de Stanford, na Califórnia.

Com um sistema bastante diferente do Brasil, entrar em uma faculdade nos Estados Unidos não é nada fácil. O primeiro motivo é porque é preciso desembolsar uma alta quantia de dinheiro, com as famílias alimentando poupanças dedicadas a isso desde o nascimento de um filho. O segundo motivo é que, ao contrário das universidades particulares daqui, não é preciso apenas ter dinheiro para poder estudar na faculdade que quiser, mas também passar por um processo de admissão que envolve muito mais do que uma prova de vestibular.

Esses alunos precisam ter acumulado, ao longo da vida escolar, diversas atividades extracurriculares, como trabalhos voluntários, além de ter obtido notas excelentes. Mas existe uma vantagem a mais para aqueles que se envolvem em esportes e criam uma carreira dentro de um deles, sendo exatamente esse o foco do esquema ilegal que cresceu entre a comunidade de milionários.

Imagem: Divulgação/Netflix

Atenção: esta crítica pode conter spoilers do documentário Educação Americana: Fraude e Privilégio!

O assunto se espalhou até a mídia internacional, principalmente, pela participação de Lori Loughlin, atriz famosa pela clássica série Três é Demais, mas ela foi apenas uma das várias pessoas que se aproveitaram de suas vantagens financeiras para garantir o futuro acadêmico dos filhos. O verdadeiro idealizador do esquema é Rick Singer, que é retratado no documentário através da dramatização, escolha que toma conta de grande parte da produção.

O documentário, dirigido por Chris Smith, escolhe deixar a narração de lado para contar a história com muita dramatização, com atores fisicamente parecidos com os envolvidos que reproduziram conversas telefônicas na íntegra. Isso, mesclado a depoimentos reais das pessoas que participaram do caso, da forma já conhecida em documentários, quando deixam o entrevistado em frente a uma câmera. Apesar da dramatização tomar conta de grande parte do filme, o método não chega a confundir o assinante da Netflix que apertou o play sem ver o trailer, e também mostra que a história tem potencial para se tornar um tema de filme.

Imagem: Divulgação/Netflix

Educação Americana: Fraude e Privilégio não cansa de apontar a culpa da ilegalidade para os pais, mostrando um mundo paralelo de ricos e famosos que desejam que seus filhos sejam tão bem sucedidos quanto eles, mas sem precisar de todo o esforço que eles tiveram, conseguindo tudo mais fácil. Essa ideia faz com que a intenção de gastar quantias milionárias de dinheiros para que o filho seja alguém na vida nem fosse pensada duas vezes.

Por outro lado, a produção isenta os filhos da culpa, uma vez que a maioria deles são jovens que apenas aceitam o que os pais querem fazer para o futuro deles sem nenhum questionamento. Porém, o documentário não deixa de destacar que também existem os pais que se preocupavam com a possível descoberta dos filhos em relação ao esquema, e também aqueles adolescentes que simplesmente sabiam, mas não ligavam, como foi o caso da filha de Lori Loughlin, que construiu uma carreira de influenciadora digital e que dizia várias vezes em seus vídeos para o YouTube que odiava estudar.

Imagem: Divulgação/Netflix

A produção documental também se dedica a falar sobre a história de vida de Rick Singer, como foi o seu passado e quais são as suas habilidades, brevemente sugerindo que sua empresa, que mascarava as atividades ilegais, se aproximava das que se apoiam em esquemas de pirâmide. Além disso, a sua confiança em relação ao trabalho que oferecia, através de subornos feitos com técnicos de esportes das universidades, transparecia uma garantia de que não haveria qualquer problema, assim como fazem líderes de seita, por exemplo, que se envolvem em crimes parecidos.

O documentário poderia ter sido conduzido da forma tradicional, apenas com imagens reais e depoimentos dos envolvidos, mas com a dramatização fica nítida uma necessidade moral de questionar esses milionários e suas atitudes, mais do que o próprio organizador do esquema, que se aproveitava dessas questões. Por muitas vezes os privilégios são colocados em prova na produção, nos fazendo questionar até que ponto os pais são capazes de chegar para que a felicidade do filho não dependa de qualquer esforço dele mesmo. Inclusive, tudo é julgado com base nas aparências de estar nas melhores universidades, nas mais renomadas, ainda que existam outras milhares de instituições tão boas quanto.

Educação Americana: Fraude e Privilégio está disponível na Netflix.

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