Crítica | Cherry é um capítulo à parte na filmografia dos irmãos Russo

Por Sihan Felix | 17 de Março de 2021 às 21h00
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Dirigido por Anthony e Joe Russo, Cherry — Inocência Perdida parece se destacar como um capítulo à parte entre os trabalhos dos irmãos. Em certa medida, é praticamente o oposto em quase todas as camadas dos filmes do Universo Cinematográfico Marvel (UCM) que estiveram à frente. Seja na questão mais superficial do conteúdo, com os pesados comentários sarcásticos em relação à Guerra do Iraque, seja no tratamento que é dado aos veteranos em seus retornos para casa, há uma preocupação mais ácida com a realidade.

Isso, por outro lado, pouco quer dizer. É verdade que o conteúdo, que ainda traz comentários pertinentes sobre a epidemia catastrófica de opioides empurrados por médicos — algo razoavelmente bem dissolvido na minissérie documental Prescrição Fatal —, talvez esteja alinhado com o livro de Nico Walker no qual é baseado. A questão é que a forma idealizada pela direção pode se tornar compulsivamente repetitiva e estilizada, o que tem alguma força para desconcentrar qualquer espectador.

Cherry em missão na Guerra do Iraque. (Imagem: Divulgação/Apple TV+)

Atenção! Esta crítica pode conter spoilers sobre o filme!

O mesmo peso

Há, em Cherry — Inocência Perdida, uma influência expressiva de Os Bons Companheiros (de Martin Scorsese, 1990). Isso é algo permanente que, a partir da personagem de Tom Holland (o Cherry), pode remeter ainda ao protagonista de outro trabalho de Scorsese: o Travis Bickle (Robert De Niro), de Taxi Driver: Motorista de Taxi (de 1976). Apesar do claro conhecimento dos Russos sobre a utilização de suas referências, em muitos momentos parece haver outro filme lutando para se expressar, sem conseguir respirar sozinho.

É possível que essa sensação fique clara, justamente, no trato para com o conteúdo. Por essa perspectiva, Holland dá o máximo, sem exagerar, para deixar à tona uma espécie de estudo sobre seu personagem. Ele, que acaba se alistando no exército por estar com o coração partido, retorna de uma situação de guerra com os traumas vividos e, sem suporte algum do Estado, recai no complexo e doloroso mundo das drogas.

Acontece que, a partir do retorno dele, Cherry (sem subtítulo no original) começa a se entregar a um ciclo aparentemente interminável de repetições. Se por um lado elas funcionam para reforçar a situação da personagem de Holland e de sua esposa, Emily (Ciara Bravo), por outro podem acabar se tornando um tanto quanto maçantes. É, na prática, como se o roteiro da estreante em longas-metragens Angela Russo-Otstot e de Jessica Goldberg (de Alex of Venice) inserisse mais do mesmo como reforço das ocorrências vividas pelo casal e a direção tratasse cada caso escrito com o mesmo peso, sem influenciar no ritmo e sem levar a história à frente.

Cherry e Emily em meio ao ritmo descompassado do filme. (Imagem: Divulgação/Apple TV+)

Perdido em si mesmo

É interessante como os Russos trabalham esteticamente para fomentar algumas sensações. Se a narração em primeira pessoa (como na obra de origem) pode ser bem perigosa — e até descartável — ao comentar elementos que são visíveis para o espectador (o que não acontece com a literatura), a alta estilização dos diretores tenta contornar isso. Dessa forma, há instantes que são extremamente artificiais (sem mau sentido por enquanto): a direção de fotografia de Newton Thomas Sigel (de Resgate) deixa personagens sob a luz de holofotes; câmeras lentas ao som de Puccini; os intertítulos capitulares com a tela cereja (cherry); os nomes dos bancos alterados, como Shitty Bank e Bank Fucks America...

A artificialidade estética, de todo modo, geralmente funciona melhor em pequenas doses, como detalhes pontuais. Ao conduzir o filme por meio desses artifícios, a direção acaba fazendo a estética funcionar acima da provável relação entre o espectador e o filme. Dessa maneira, a aparência artificial colide, exatamente, com a necessária humanização de um homem destruído. Diferente de toda harmonia entre a aparência e a máfia proposta por Scorsese em Os Bons Companheiros e do foco total em um homem dissolvido pela própria mente em Taxi Driver: Motorista de Taxi, Cherry — Inocência Perdida pode soar um tanto quanto perdido em si mesmo.

Potência sufocada

No final das contas, Holland é o trunfo do filme. Para quem conhece seu trabalho além do Peter Parker do UCM, não chega a ser uma surpresa. Ainda adolescente, ele despontou com um papel difícil e intenso em O Impossível (de J.A. Bayona, 2012). Aqui, ele vaga perdido em um mundo que, aparentemente, esqueceu-o ou, pior, não existe para ele. Resta-lhe criar um novo universo (algo que é central no recente Bliss: Em Busca da Felicidade — de Mike Cahill, 2021), caminhar em direção a um fim trágico e torcer para que seu coração partido que o levou ao alistamento e, posteriormente, ao descarte do Estado, encontre a reconstrução.

"You talkin' to me?!" (Imagem: Divulgação/ Apple TV+)

O fim de Cherry — Inocência Perdida, portanto, pode ser otimista. Infelizmente, se Holland não precisa exagerar para alcançar um desempenho que é, no mínimo, comovente, os Russos vão no sentido oposto, exagerando onde, quem sabe, nem precisassem. O resultado, enfim, é um filme que pode ser interessante, claro, mas que não alcança a potência do seu personagem principal, esta que fica sufocada.

Cherry — Inocência Perdida está disponível no Apple TV+.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canaltech

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