Crítica Animais Fantásticos: Os Segredos de Dumbledore │ Dois filmes em um

Crítica Animais Fantásticos: Os Segredos de Dumbledore │ Dois filmes em um

Por Durval Ramos | Editado por Jones Oliveira | 14 de Abril de 2022 às 10h00
Divulgação/Warner Bros

É sintomático que o novo Animais Fantásticos: Os Segredos de Dumbledore pareça ter dois filmes dentro de um. O mais recente longa que tenta dar continuidade ao universo mágico de Harry Potter começou de forma tão atrapalhada e sem um rumo certo que, em seu terceiro filme, fica claro o quanto algumas ideias não funcionaram enquanto outras são um verdadeiro acerto. E na tentativa de consertar o carro enquanto ele ainda está em movimento, temos essa quimera um tanto quanto imperfeita.

De um lado, há Animais Fantásticos, que nada mais é do que a continuação da história de um desinteressante Newt Scamander (Eddie Redmayne) que caiu de paraquedas em um conflito muito maior e que ele tem pouco a acrescentar. Do outro, há Os Segredos de Dumbledore, que é a parte que realmente interessa ao público não apenas por desenvolver um personagem tão amado pelo público, mas por ampliar o próprio mundo mágico à sua volta.

E é ao ver esses dois filmes acontecendo em paralelo que a gente percebe como o começo sem propósito dessa saga parece ter contaminado tudo o que veio em seguida. Não que o novo longa seja ruim, mas ele sofre com uma terrível falta de ritmo causada justamente por aquele início que não funciona como começo de saga e que nos força a acompanhar um herói que não é o protagonista da história que está sendo contada.

Olhando pelo retrovisor

Ao longo dessa nova série de filmes, a Warner Bros se dispôs a revisitar o passado de seu mundo mágico para contar uma de suas histórias mais impactantes: a Primeira Guerra Bruxa, que nada mais é do que uma metáfora bem clara à ascensão dos regimes totalitários do início do século XX, como o fascismo e o nazismo. E isso é muito interessante, só que não encaixa em nada na história de Newt.

Toda a saga focada em Newt é desinteressante e não acrescenta nada à história (Imagem: Divulgação/Warner Bros)

Quando o personagem apareceu pela primeira vez, em Animais Fantásticos e Onde Habitam, ele funcionava como esse herói atrapalhado porque, em tese, aquela era uma história contida em torno do próprio bruxo. Todos os bichinhos fofinhos, sua relação com Jake Kowalski (Dan Fogler) e até o romance com Tina Goldstein (Katherine Waterston) funcionam dentro daquele contexto. Contudo, quando a trama parte para algo maior, ele fica completamente deslocado.

E isso é o que vemos em Os Segredos de Dumbledore. Embora ainda apareça na maior parte das cenas, a história não é sobre Scamander. No máximo, ele desempenha um papel de avatar de Dumbledore (Jude Law) na sua luta contra Grindelwald (Mads Mikkelsen), montando um grupo improvável para derrotar o bruxo do mal. Contudo, o magizoologista não é nem de perto o centro da narrativa.

O novo Animais Fantástico apresenta bons novos personagens para um heist movie pouco interessante (Imagem: Divulgação/Warner Bros)

Por mais que sempre seja interessante ver uma história de assalto, com planos mirabolantes e que nem sempre fazem sentido, nada tem peso porque ninguém nessa parte de Animais Fantásticos tem importância real para a história. Ainda que Kowalski esteja ótimo e a nova professora de Feitiços de Hogwarts, Lally (Jessica Williams), seja a melhor adição ao elenco, a história não é sobre eles e isso fica bem perceptível quando você se vê esperando aquela correria acabar para ver o outro filme se desenrolar.

Esse é um problema tão evidente que uma das reviravoltas que a trama tenta emplacar se torna completamente vazia. Você se importa tão pouco com esse grupo irrelevante que quando alguém ameaça trair Dumbledore, ele não faz falta na tela e, mesmo quando reaparece, não impacta em nada o andamento da história.

O outro filme

Por outro lado, Os Segredos de Dumbledore é aquilo que os fãs de Harry Potter queriam ver e é a verdadeira história que os roteiristas pareciam estar interessados em contar — mas que eram a todo momento freados pela existência de um núcleo que não é tão importante assim.

Dumbledore é o verdadeiro protagonista e a história que a gente realmentequer ver (Imagem: Divulgação/Warner Bros)

A partir da tensão e do conflito existente entre Dumbledore e Grindelwald, vemos toda a ascensão desse autoritarismo no mundo bruxo que faz um paralelo assustadoramente realista com o nosso presente. E é algo que é muito bem retratado na trama, pois desenvolve a relação entre os dois personagens ao mesmo tempo em que costura e amplia o próprio universo à sua volta.

Há todo um clima político e conspiratório envolvendo a eleição do próximo líder da comunidade bruxa que prende a atenção do espectador, que fica curioso para saber como aquilo tudo vai se desenrolar. E não só porque isso tudo é o embrião da tal Guerra Bruxa, mas porque a própria construção do clima que leva ao conflito é algo que dialoga muito com a polarização que vemos hoje no nosso mundo trouxa — e esse paralelo é o que há de mais rico por aqui.

Ainda que muitos dos acontecimentos sejam apressados por causa do tempo perdido com as desventuras de Newt e sua trupe, é intrigante ver o crescimento de Grindelwald como essa figura influente. De criminoso procurado a líder dos bruxos do mundo, ele representa muito bem os líderes carismáticos tanto do século XX quanto de agora, trazendo um discurso tão sedutor quanto perigoso.

Mads Mikkelsen vive a melhor versão de Grindelwald: contido, sedutor e assustadoramente real e perigoso (Imagem: Divulgação/Warner Bros)

E parte dessa camada tão rica de Os Segredos de Dumbledore está justamente na ótima atuação de Mads Mikkelsen, que assumiu o papel após a saída de Johnny Depp. Ele apresenta todo um estilo mais contido e menos espalhafatoso para o personagem que funciona muito bem na construção desse líder capaz de conquistar as massas mesmo com suas falas perigosas.

Aliás, é até irônico como a fala inicial do vilão ecoa o discurso da própria autora J. K. Rowling, envolta em uma série de polêmicas por causa de suas falas transfóbicas. Ela assina os roteiros do filme e, mesmo assim, é fácil perceber como as suas falas soam muito parecidas com aquelas que Grindelwald profere em diversos momentos na hora de tratar os trouxas como inferiores.

A questão envolvendo Rowling é algo que normalmente já invadiria o filme por toda a repercussão que suas posturas tiveram, mas que se torna ainda mais relevante quando o discurso acaba sendo repetido pelo vilão da história. Isso talvez tenha sido feito de forma não-intencional, mas ajuda a compor o personagem de Mikkelsen como essa figura cruel e além de qualquer absolvição — o que também acaba dizendo muito sobre a autora.

A parte Os Segredos de Dumbledore da trama faz o filme crescer muito (Imagem: Reprodução/Warner Bros.)

E toda essa construção do vilão como alguém realmente cruel e perverso é fundamental para Os Segredos de Dumbledore por uma série de razões. Primeiro porque o filme precisa de alguém que consiga ir além da sombra de Voldemort como uma ameaça real para o mundo todo. E também porque é apenas diante de um mal tão grande que pode haver um herói de igual peso.

É aí que temos o real protagonista do filme: o próprio Dumbledore. Os longas anteriores já tinham pincelado parte da história do bruxo, mas aqui há um desenvolvimento maior em várias frentes. Embora o personagem ainda seja um mistério em muitas partes — o que é parte de seu charme, vamos combinar —, há uma preocupação em responder o que realmente aconteceu entre ele e Grindelwald, como eles se veem agora e até mesmo pontos relacionados à sua família.

Só que, mais uma vez, o desenvolvimento dessa história é afetada pelo vai e vem da trama, que insiste em enfiar Animais Fantásticos quando a gente quer ver mais de Os Segredos de Dumbledore.

Pontas soltas

Além de todo o problema de ritmo que a existência desses dois filmes acarreta, há também o fato de que estamos diante de uma saga que parece só agora ter encontrado a história que realmente quer contar. O problema é que isso implica em ter que resolver problemas que foram inseridos nos longas anteriores.

O personagem de Ezra Miller está completamente deslocado de todas as tramas do filme (Imagem: Reprodução/Warner Bros)

O caso mais nítido disso por aqui é o arco envolvendo Credence (Ezra Miller). Em Os Crimes de Grindelwald, foi revelado que ele era, na verdade, o irmão perdido de Dumbledore. Só que parece que os roteiristas se arrependeram da decisão e tentam reverter a situação com algumas reviravoltas vazias. O resultado é que ele fica flutuando avulso de um lado para o outro, sem se encaixar em nenhuma das tramas que estão sendo contadas.

Esse não é o único remendo que Animais Fantásticos: Os Segredos de Dumbledore tenta fazer, pois ele se preocupa também em resolver a questão entre Kowalski e Queenie Goldstein (Alison Sudol). A diferença é que, nesse caso, todo o desenvolvimento se encaixa no enredo e serve para dar mais força ao trouxa.

Só que, em ambos os casos, fica claro como o novo longa é um grande remendo de um começo de saga que não sabia que história queria contar e nem para que lado seguir. Assim, apesar de ter vários acertos, o retorno a esse mundo mágico não consegue esconder o quanto ele ainda é desconjuntado — não por acaso, apela a um retorno a Hogwarts para disfarçar esses problemas com nostalgia.

A boa notícia é que, mesmo com esse avançar trôpego, a saga de Harry Potter Sem Harry Potter parece finalmente ter encontrado o norte que precisava, aparando as arestas e abrindo espaço para que a história que importa de verdade seja contada daqui para frente. O futuro pode ser bastante auspicioso — basta desistir de ser Animais Fantásticos.

Animais Fantásticos: Os Segredos de Dumbledore está em cartaz nos cinemas de todo o Brasil. Garanta seu ingresso na Ingresso.com.

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