Crítica | Amor no Espectro traz empatia ao romance entre pessoas com autismo

Por Natalie Rosa | 14 de Agosto de 2020 às 08h51
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Na onda dos reality shows de relacionamento, a Netflix acaba de incluir em seu catálogo um programa que fala do tema de uma forma diferente e que, muito possivelmente, poucos já pararam para refletir sobre. Em Amor no Espectro, produção australiana lançada em 2019, conhecemos um pouco mais sobre como é portar o autismo e seus derivados e se relacionar com as pessoas romanticamente.

O autismo é uma condição que afeta o sistema nervoso e que pode se manifestar de diversas formas, que variam de pessoa para pessoa. Extremamente bem dotados de intelecto, em sua maioria, os pacientes acabam não conseguindo desenvolver habilidades sociais, e com isso a comunicação verbal e os comportamentos não se adaptam às regras da sociedade, tornando as interações mais complicadas.

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A série da Netflix busca não só mostrar na prática como os sintomas da condição atuam no dia a dia, desmistificando qualquer conceito pré-definido sem as informações adequadas, como também humaniza essas pessoas, mostrando que elas merecem levar uma vida tão comum quanto a de quem não está dentro do espectro. A produção também parece ser adaptada para que o público que possui o autismo possa assistir e se identificar.

A condição traz muita sensibilidade auditiva nessas pessoas, então a narração de Amor no Espectro é de uma voz suave, com uma ótima pronúncia e que explica muito bem o que está acontecendo. Os participantes do programa são apresentados com suas principais características, como não gostar de barulho, amar dinossauros e odiar surpresas, por exemplo, mostrando que cada um tem as suas peculiaridades e que está tudo bem.

A série, então, acompanha a vida de jovens de idades diferentes na busca por um grande amor. Alguns deles nunca sequer estiveram em um encontro e têm o desejo de criar uma família como o maior objetivo de vida, uma vez que podem ser bem sucedidos em suas habilidades que não envolvam a socialização. Esse fator faz com que essa conquista os aproxime do ciclo de vida estipulado em nossa sociedade, que deve começar a se adaptar às diferenças, porque elas existem.

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Enquanto as histórias são mostradas, a série também usa comentários das famílias de jovens no espectro para falar sobre a personalidade deles e as dificuldades enfrentadas desde o nascimento, até o diagnóstico e a vida adulta. Mas Amor no Espectro não foi criada para gerar pena e em nenhum momento as histórias são contadas com tristeza, muito pelo contrário. As experiências foram adaptadas a uma linguagem que, sim, gera empatia, mas também diverte ao construir personagens bem peculiares. Cada um com seu talento e habilidade, suas preferências e gostos, desafios e desejos, os personagens desse reality show conquistam quem está assistindo, principalmente pela sua sinceridade e observações.

Amor no Espectro também mostra que eles não estão sozinhos nessa missão, contando com a ajuda de pessoas profissionais no assunto que conseguem, de forma didática, ajudar esses jovens a se portarem em encontros, como puxar conversa e como decidir se eles realmente querem estar com aquelas pessoas. Os jovens conseguiram se adaptar à presença de câmeras nestes momentos de tamanha dificuldade, e grande parte disso é mérito da produção. Além de mostrar os encontros sendo formados, conhecemos casos de pessoas que já estão juntos há algum tempo e já dividem a moradia, trazendo inspiração e esperança.

Por mais que reality shows sejam roteirizados e muitas cenas precisam ser armadas para gerar bons conteúdos, os produtores conseguiram fazer com que a presença das câmeras fossem as de um amigo. Quando os encontros em parques ou restaurantes são pausados, eles são questionados sobre como está sendo, o que acaba trazendo alguns momentos divertidos. Eles também não são "obrigados" a continuar se eles não quiserem, basta pedir para parar de gravar ou para alguém ir embora que a ordem é obedecida, afinal são essas características de não se obrigar a estar à vontade que os tornam especiais.

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Amor no Espectro conquista por nos aproximar de mundos que, muitas vezes, não temos contato e acerta na humanização. Como existem casos e casos, entre mais severos e mais leves, cabe às pessoas dentro do espectro carimbarem a produção com suas considerações finais. Talvez não seja muito bem assim, mas simplesmente de poder ter conhecimento sobre o autismo em uma plataforma de streaming popular já é um grande avanço para a desconstrução dos estereótipos.

A série Amor no Espectro está disponível em cinco episódios na Netflix.

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