Nikola Tesla, gênio futurista e de coração benevolente, nascia há 162 anos

Por Ares Saturno | 10 de Julho de 2018 às 18h57

Há 162 anos, nascia Nikola Tesla, inventor que teve sua imensa importância subestimada nos campos da engenharia elétrica. Com um gosto especial pelo futurismo, Tesla previu tecnologias que utilizamos cotidianamente, como Wi-Fi, drones e até mesmo o acesso das mulheres ao ensino das ciências. Apaixonado pela ideia de tornar a ciência disponível a todos, abriu mão de lucro e comprou brigas com investidores estadunidenses durante toda sua vida em prol da popularização de seu trabalho.

A vida de Tesla

Reza a lenda que o gênio nasceu durante uma forte tempestade de raios, seu primeiro contato com a força da natureza que se tornaria o centro de seus inventos, no final do império Austro-Húngaro, onde hoje fica o território da Croácia. Seu pai, presbítero da Igreja Ortodoxa, Milutin Tesla, costumava incentivar o intelecto do filho desde pequeno, apresentando-lhe questões de lógica. Sua mãe, Đuka Mandici, que nunca aprendera a ler, memorizou muitos poemas épicos e possuia talento para as invenções, tendo contruído ela própria uma máquina de costura durante os primeiros anos da infância de Nikola.

Após a família se mudar para Gospić, em 1862, o pequeno Tesla frequentou escolas em Karlovac e, ao concluir os estudos básicos, seguiu para o curso de engenharia elétrica no Politécnico Austríaco, em Graz, no ano de 1875, quando tinha 19 anos. Foi durante sua formação em Graz que Nikola Tesla começou a defender uma hipótese que não apenas definiria a importância de seu trabalho como também seria a grande responsável pelo seu desentendimento com Thomas Edison: que as correntes alternadas permitiam maior controle da eletricidade que o uso das correntes contínuas, defendidas pelo cientista estadunidense.

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Nikola Tesla em seus anos de formação (Imagem: Reprodução / Getty Images)

Entretanto, Nikola Tesla era acometido por uma série de limitações psicoemocionais desde seus primeiros anos de vida. Visto como um gênio excêntrico por uns e como uma mente acometida por patologias por outros, não há dúvidas que a personalidade peculiar de Tesla é parte importante do método de trabalho por ele desenvolvido. Enfermiço, desde pequeno Tesla sofria perdas de consciência e desmaios frequentes.

Alguns historiadores defendem que Tesla se formou na Universidade de Graz. Entretanto, a instituição informa que durante o quinto semestre do curso, Tesla deixou de assistir às aulas e abandonou os estudos. Em dezembro de 1878, ele rompeu o contato com sua família e amigos e foi embora de Graz em direção a Maribor, atual território da Eslovênia, deixando seus conhecidos acreditarem que estava morto. Em Maribor, Tesla foi empregado como engenheiro assistente por um ano, mas sofreu um esgotamento nervoso e também abandonou o emprego. Anos mais tarde, foi persuadido por seu pai a retomar os estudos, o que o levou a entrar na Universidade Carolina, em Praga, no verão de 1880. Mas esse curso também não rendeu um diploma, pois Tesla abandonou a formação após a morte de seu pai, tendo concluido apenas um terço do curso.

Em sua autobiografia, Tesla explicou que, desde criança, sofria apagões de consciência semelhantes a desmaios e, nesses episódios, via clarões de luz que o cegavam, momentos que eram acompanhados de alucinações quase sempre voltadas para seus objetos de interesse nos estudos. Essa condição que poderia facilmente ser diminuída ao patológico foi de extrema importância para o trabalho por Tesla desenvolvido, permitindo que o gênio pudesse visualizar suas invenções completas antes mesmo de sequer iniciar qualquer tipo protótipo, aumentando a eficiência de seu método científico devido a sua capacidade fora da curva da normalidade de pensamento visual.

Nikola Tesla em seu laboratório em East Houston St., NY (Imagem: Reprodução / WOSU Radio)

Entretanto, a vida acadêmica de Tesla só bombou quando, em 1880, foi morar em Budapeste e trabalhar na Companhia Nacional de Telefones, quando conheceu Nebojša Petrović, um inventor sérvio que vivia na Áustria. Logo os dois fizeram uma breve parceria para estudar turbinas gêmeas para criar energia de forma contínua. Tornando-se eletricista-chefe na Companhia e, tão logo começaram as comunicações telefônicas em Budapeste, em 1881, Tesla se tornou o principal engenheiro do primeiro sistema telefônico do país. Foi aí que um dos primeiros inventos de Tesla veio a tona: um repetidor ou amplificador de telefone, que segundo alguns historiadores pode ser considerado também o primeiro alto-falante do mundo.

Injustiça, exploração e correntes alternadas

Inquieto, em 1882 foi trabalhar como engenheiro na Continental Edison Company, em Paris, projetando melhorias para equipamentos elétricos. Em 1884, mudou-se para Nova Iorque, onde foi contratado para trabalhar com Thomas Edison, em Manhattan. No início, a contribuição de Tesla consistia em simples reparos elétricos, mas rapidamente o talento do gênio foi notado e ele progressivamente foi encarregado de tarefas mais complexas, como reparar geradores de corrente contínua. Por fim, Tesla desenvolveu o projeto de vinte e quatro diferentes máquinas de trabalho, que logo se tornaram o padrão da empresa. Em 1885, Tesla se ofereceu para reprojetar os motores e geradores da Edison Company, que ele acreditava serem ineficientes e pouco econômicos. Segundo o próprio Tesla, a resposta de Edison foi: "Você terá 50 mil dólares caso consiga", mesmo que a companhia sequer tivesse essa quantidade de dinheiro em caixa. Se feitas as devidas conversões, o valor equivaleria, hoje, a cerca de US$ 1 milhão. Depois de meses de esforço, Tesla cumpriu sua parte do acordo. Na hora de receber o pagamento que Edison havia prometido, o chefe respondeu: "Tesla, você não entende nosso humor americano". Ao invés dos US$ 50 mil, foi ofertado a Tesla um aumento de dez dólares semanais ao salário de US$ 18 que Edison pagava a ele. Revoltado com razão, Tesla demitiu-se.

Algum tempo depois, Tesla arrumou um bico cavando as valas onde os cabos de conexão da Western Union Telegraph Company seriam instalados. Seu supervisor, Alfred S. Brown, percebeu o talento de Tesla e o apresentou a alguns homens importantes da época que estavam ávidos para investir em tecnologias de comunicação. Em abril de 1887, com o financiamento de muitos senhores novaiorquinos, inaugurou a Tesla Eletric Company, onde demonstrou ao mundo as primeiras correntes alternadas polifásicas. Embora a tecnologia fosse impressionante, não havia grande aplicabilidade na distribuição de energia, o que fez com que o entusiasmo dos investidores esfriasse.

Tesla não obteve nenhum lucro financeiro com a iniciativa, entretanto, ali começava a chamada Guerra das Correntes. Por mais que Tesla tivesse demonstrado que a corrente alternada era mais eficiente, a ganância dos empresários da época mantinha o uso da corrente contínua como principal método de trabalho. Do outro lado do ringue, apoiando o uso da corrente contínua — e os milhões de royalties que ela gerava aos investidores — estava Thomas Edison, que nunca evitou jogar baixo para derrotar Tesla. Edison tentava garantir que o mundo visse Tesla não apenas como um louco que deveria ser desacreditado, mas também se esforçava para que a sociedade da época enxergasse a corrente alternada que Tesla defendia como uma tecnologia perigosa. Para tal, Edison pagava 25 centavos de dólar a qualquer pessoa que levasse cães e gatos a ele. Até mesmo cavalos e elefantes foram entregues a Edison que, em uma exibição pública, eletrocutou centenas de animais utilizando a corrente alternada para convencer a população da periculosidade das ideias de Tesla. A crueldade em nome do lucro criou uma propaganda negativa do método de distribuição elétrica de Tesla e impactou tanto a sociedade da época que o estado de Nova Iorque adotou a eletrocussão por corrente alternada como método de execução dos condenados à morte pela Justiça.

Motor elétrico de Tesla na hidrelétrica das Cataratas do Niágara (Imagem: Reprodução / Getty Images)

Entretanto, ainda em 1887, Tesla conseguiu atrair a atenção de um grande investidor, George Westinghouse, vendendo-lhe a sua patente de corrente alternada. O influente figurão convenceu o governo estadunidense a adotá-la como modelo-padrão para a distribuição de energia elétrica, satisfazendo os desejos de Tesla e derrotando as ideias de seu antigo empregador, Thomas Edison. O contrato de royalties, que hoje valeria trilhões de dólares, foi rasgado pelo próprio Tesla após Westinghouse tomar uma série de más decisões nos negócios e quase entrar em falência. arriscando não apenas que centenas de pessoas ficassem sem seus empregos, mas colocando em risco os planos de distribuição elétrica nos EUA. Tesla, que sempre teve como prioridade popularizar seus inventos ao invés de gerar lucro financeiro para si, abriu mão de seus direitos de royalties para assegurar que suas ideias fossem implementadas.

Os anos que se seguiram foram produtivos para Tesla. Cerca de 40 patentes foram registradas por ele nos EUA e mais de 700 no resto do mundo. Entre as invenções devidamente patenteadas por Tesla estão a lâmpada fluorescente, o motor de indução, o controle remoto, os comutadores elétricos, a Bobina Tesla, os motores assíncronos giratórios, as transmissões via rádio, o sistema de ignição utilizado nas partidas de carros, além da corrente alternada que hoje utilizamos largamente. Abaixo, podemos ver uma de suas bobinas sendo utilizada para tocar o tema de Doctor Who, durante o evento Chattacon, em 2009, performada por ArcAttack:

Um fim solitário

Em 1985, o laboratório de Tesla misteriosamente pegou fogo e, o pouco que sobrou de suas pesquisas foi atropelado por tratores. Alguns acreditam que tudo não passou de um acidente extremamente inconveniente, mas outros afirmam que o ocorrido foi ação de alguma empresa gananciosa que queria interromper os planos do gênio para a distribuição gratuita de energia para toda a população, o que colocaria em risco os ganhos de muitos figurões da época. Mas, embora seja sérvio, Tesla não desistia nunca: desenvolveu um projeto para fornecer energia elétrica para todo o mundo por meio de uma torre que seria contruída nos arredores de Nova Iorque. Com o financiamento de um dos maiores investidores da época, J. P. Morgan, o projeto chegou a sair do papel e ter a estrutura da torre erguida. Entretanto, ao descobrir que a intenção de Tesla era desenvolver um método de distribuição de energia de forma impossível de se regular — e, consequentemente, de se cobrar pelo uso do recurso distribuído —, Morgan retirou o financiamento e o projeto foi abandonado por falta de verbas.

A torre de distribuição e sua triste degradação ao longo do tempo (Imagem: Reprodução / Getty Images)

A retirada de financiamento de J. P. Morgan veio em um péssimo momento, quando a maior parte das patentes de Tesla estava prestes a expirar. Com dificuldades financeiras, a condição emocional de Tesla foi se agravando aos poucos, enquanto morava no New Yorker Hotel e dividia seu tempo entre os estudos e na criação de pombos. Apaixonado pelas aves, Tesla gastava o pouco que tinha encomendando sementes especiais para alimentar os animais, que foram seus únicos companheiros em seus últimos anos de vida. Após uma década de solidão, incertezas quanto à conclusão de seus trabalhos, loucura e enclausuramento, Nikola Tesla faleceu em seu quarto de hotel em 7 de janeiro de 1943.

Nota de falecimento de Nikola Tesla (Imagem: Reprodução / The New York Times)

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