Álcool em gel no carro: se exposto ao sol, pode pegar fogo no veículo?

Por Fidel Forato | 01 de Maio de 2020 às 09h40
USA Today

Na pandemia da COVID-19, o álcool em gel 70% é uma das maneiras mais eficientes de se higienizar as mãos e eliminar o novo coronavírus (SARS-CoV-2) de superfícies sólidas, ainda mais quando se está longe de sabão e de uma torneira para uma eficiente lavagem. Por isso mesmo, pessoas têm levado frascos de álcool em gel a todos os lugares e, aparentemente, alguns acidentes estão acontecendo, como a autocombustão espontânea do produto e carros pegando fogo.

Recentemente, relatos de acidentes com o produto, quando mal armazenado, têm viralizado nas redes sociais e são divulgados, em massa, por aplicativos de mensagem, como Telegram e WhatsApp. É como o depoimento de uma pessoa que explica como o carro pegou fogo, após terem esquecido um frasco de álcool em gel exposto na cabine por cerca de 30 minutos.

Alguns dos relatos, citam inclusive possíveis locais onde o álcool em gel teria entrado em combustão e teria levado um carro a pegar fogo, como em um shopping na cidade de Cabo Frio, no estado do Rio de Janeiro. Outro depoimento cita um incidente parecido que aconteceu na cidade de Itatiba, interior de São Paulo.

Relatos compartilhados pelo WhatsApp apontam para risco de explosão com álcool em gel (Captura de tela: Fidel Forato/Canaltech)

Para entender se essas histórias são reais ou fake news, o Canaltech conversou com o químico Cedric Stephan Graebin, que é doutor em Ciências Farmacêuticas pela UFRGS e professor associado da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (Seropédica).

Verdadeiro ou falso?

Os relatos divulgados pelas redes sociais sobre a autocombustão de frascos de álcool em gel 70% se tratam de fake news, segundo o professor Graebin. "Não creio que um frasco de álcool 70 entre em combustão quando exposto ao sol dentro de um carro. O que acontece, sim, é que o frasco pode deformar e o conteúdo do frasco pode vazar dentro do carro. Se houver uma fonte de ignição, como uma faísca, por exemplo, oriunda de uma descarga elétrica dentro do carro, próxima ao vazamento, há a possibilidade de combustão", esclarece o químico.

Na condição da exposição solar, é importante lembrar que "o etanol evaporará — sabemos que um carro fechado exposto ao Sol forte pode atingir tranquilamente temperaturas acima de 50 graus Celsius dentro dele —, mas o carro não é completamente isolado de seu exterior. Uma parte do vapor do álcool 'escapará' do veículo", avisa o professor.

Além disso, Graebin aconselha: "O melhor mesmo é não armazenar álcool gel dentro do carro, não pelo risco de combustão, mas mais porque, ao evaporar, o álcool evapora da mistura e o teor no gel diminui. Lembrando que, com um teor abaixo de 60%, o poder desinfetante do gel diminui significativamente".

Testes de segurança

Para sua resposta, o químico se baseou em uma revisão de segurança para atender a uma proposta de se permitir álcool gel nas viagens feitas pela FAA (Administração Federal de Aviação), dos Estados Unidos, que é uma agência similar à ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil). Nos testes, foi observado que duas condições são necessárias para que ocorra a combustão. Uma é a temperatura, já que todo o solvente inflamável tem uma temperatura na qual, acima dela, ele entra em combustão. A outra é a necessidade de uma faísca que inicie a combustão.

"Chamamos isso [temperatura ideal] de 'ponto de fulgor', em português, ou 'flash point', no inglês. O ponto de fulgor do etanol puro é de cerca de 12 graus Celsius. No teste feito pela FAA, o vapor originado da evaporação do álcool só entra em combustão em temperaturas acima de 37 graus Celsius e, mesmo assim, na presença de uma faísca ou de uma chama e aquecendo o frasco em cima de uma frigideira ou panela", esclarece o professor.

Álcool em combustão

É importante lembrar que sim, o álcool em gel entra em combustão na presença de uma chama, ou de uma faísca elétrica, como a de um acendedor de cigarro. "Aqui é importante ressaltar que, sempre que há algo inflamável na mistura, devemos tomar todo o cuidado para evitar expor este líquido a fontes de chama ou ambientes que possam o inflamar", afirma Graebin.

Mesmo se tratando de uma fake news, o álcool em gel pode entrar em combustão. Por isso, logo após higienizar as mãos com o composto, é muito importante esperar que o produto evapore da pele antes de acender um isqueiro ou riscar um fósforo.

No entanto, sendo o teor do álcool bem mais baixo que os 70%, principalmente quando é menor de 40%, o risco de um acidente é bem reduzido. Nessa condição, é muito mais difícil fazer o produto entrar em combustão e, mesmo quando entra, a chama dura pouco tempo.

Fonte: Com informações: FAA

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