Novos clássicos | A intimidade de Boyhood: Da Infância à Juventude

Por Sihan Felix | 22 de Janeiro de 2021 às 22h30
IFC Productions

Um filme pode causar muitas reflexões, o que é normal a depender da intenção. Em Boyhood: Da Infância à Juventude, elas (as reflexões) são tão comuns quanto esquecidas. Não há, no trabalho de Richard Linklater, uma tentativa desesperada de fugir de clichês ou de inserir acontecimentos dramáticos chocantes. Tudo é tão simples e, ao mesmo tempo, tão vivo quanto a nossa vida. Dessa maneira, o diretor faz com que seus personagens estejam sempre próximos do público no que diz respeito às sensações.

Do mesmo modo, não existem fronteiras que delimitam a passagem de atos. Não há acontecimentos marcantes que movam o que é apresentado para outra direção. Tudo é natural e, apesar da aparente normalidade, o existencialismo da obra do diretor parece se redefinir e tomar contornos ainda mais profundos do que na sua Trilogia do Antes. Aliás, a animação Acordar para a Vida, lançada em 2001 — antes do início das filmagens de Boyhood (no original) — carrega muitas semelhanças narrativas com o filme em questão.

Atenção! Esta crítica contém spoilers sobre o filme!

As pequenas ações

A condução de Linklater, aqui, está sempre a favor da percepção de que não há algo ou alguém melhor do que nós mesmos para significar as nossas próprias vidas. A escolha por viver da forma mais autêntica e passional, nesse sentido — e mesmo levando em consideração os contratempos que sempre surgem —, são de nossa inteira responsabilidade.

Assim, não são acontecimentos chocantes que definem uma trajetória (mesmo que esses existam). São as pequenas escolhas, os embates mais discretos e as conversas mais íntimas que constroem a personalidade e o caráter de alguém. Obviamente, um trauma pode desviar a atenção e reformular (des)crenças, mas, por outro lado, quem nós já somos é que definirá a reação, o fim. Quando adolescente, escrevi uma quadrinha em versos brancos que dizia:

Prefiro os atos pequenos:
são os mais ponderados
e, apenas para quem os comete,
os mais intensos.

Eu estava errado. As pequenas ações são fundamentais para quem as recebe, enquanto, muitas vezes, tornam-se um passado esquecido para quem as comete.

Toda uma geração... e mais

Linklater parece dialogar constantemente com as atitudes discretas que ganham significado com o passar dos anos. Nada é fim porque tudo é recomeço. E se o futuro for lugar nenhum? E se todos os planos e metas servirem para serem concluídos sem que isso signifique uma conclusão? A vida, por consequência, é uma caminhada através do tempo. De repente, é óbvio, mas nem sempre vemos dessa forma.

Por essa perspectiva, é a passagem do tempo, o maior trunfo de Boyhood: Da Infância à Juventude, assim como o seu diálogo com a cultura pop. Se a primeira cena do filme revela o pequeno Mason (Ellar Coltrane) olhando para o céu, a canção que escutamos é Yellow, que, na época, tocava nas rádios e era o single da banda Coldplay. A questão é que, inicialmente, a letra, em tradução livre, diz:

Olhe as estrelas,
veja como elas brilham para você
e para tudo que você faz.
[...]

O início de tudo... (Imagem: Reprodução/IFC Productions)

Mas é de dia, Mason está olhando para um céu azul onde brilha uma única estrela, o sol, no que é uma metáfora extremamente delicada sobre o futuro daquela criança, sobre otimismo e sobre a ausência de previsibilidade. Poeticamente, as estrelas brilham, todas elas, e é ao encontro delas que se deve ir, mas o caminho é o futuro que, mesmo desconhecido, é natural — claro que para uma criança que não tem obstáculos maiores do que os emocionais.

Logo na sequência, pontuando a utilização da cultura pop, a única e mais velha irmã de Mason, Samantha (Lorelei Linklater, filha do diretor), canta Oops!... I Did It Again, de Britney Spears, também um estouro à época. Mais tarde, todos seguem fantasiados e em êxtase para a estreia de Harry Potter e o Enigma do Príncipe (de David Yates, 2019), sendo Harry um personagem que, seja na literatura ou no cinema, cresceu junto ao elenco, a toda uma geração.

Junto ao elenco... (Imagem: Reprodução/IFC Productions)

A teoria do apego

Não faltam diálogos inspiradores e, ao mesmo tempo, extremamente comuns. A delicadeza com que Ethan Hawke vive o pai é de encher os olhos (de lágrimas inclusive). Seu diálogo sobre a existência de elfos e a comparação a uma grande baleia faz com que se sinta a vontade de ser criança outra vez para escutar algumas histórias fantásticas (como tantas que escutei dos meus pais e, especialmente, do meu falecido avô materno).

Ainda, seu diálogo aberto e carinhoso com a filha sobre sexo e a utilização de preservativo é tão bonito que, instantaneamente, fez-me pensar que eu poderia (poderei) ser aquele tipo de pai, mesmo em um mundo atribulado como não o é nas pequenas cidades onde o tempo passa para os personagens.

Ethan Hawke em diálogo. (Imagem: Reprodução/IFC Productions)

Patricia Arquette, por sua vez, concebe a personalidade de uma mãe forte e, ao mesmo tempo, de extrema vulnerabilidade. Ao passo que jamais deixa de cumprir a sua função de mãe, chegando em certo momento a refletir sobre sua vida como tendo nascido filha, tornado-se esposa e, após, mãe, sem outras passagens tão marcantes quanto, seu trabalho como professora é admirado por alunos (perceba a atenção que uma classe inteira tem para consigo e o elogio de uma aluna ao conversar com Mason) e colegas (tornando-se, um desses, seu terceiro marido).

Ainda, suas lágrimas, ao perceber que esse trajeto filha-esposa-mãe terminou e a sua força, ao secar as lágrimas em um último diálogo, encorajando o filho a seguir em frente, a seguir o caminho que, agora, é só dele (no que me fez lembrar — e muito — a minha mãe), professam o entendimento de parte da obra do autor que, anteriormente, ela sugeriu em sala de aula: John Bowlby. Uma vez que Bowlby foi um psicólogo, psiquiatra e psicanalista que tem, como pesquisa mais notória, a teoria do apego, que trata de toda a dinâmica de relacionamento longo e contínuo entre os seres humanos, a despedida da personagem de Arquette é tão bem pensada e natural (além de metalinguística) que, fatalmente, é um dos pontos mais lindos das quase três horas de filme.

A personagem de Arquette provando da teoria do apego. (Imagem: Reprodução/IFC Productions)

Surgem as estrelas

É o final, aparentemente banal, que guarda uma rima narrativa belíssima. Se, inicialmente, o pequeno Mason olhava para o céu, de dia, ao som de Yellow e, de acordo com a música, à procura de estrelas (sendo regido pela luz da maior que escondia todas as outras), os créditos finais, após uma discreta olhada do carismático Coltrane para a câmera (para o público, quebrando a quarta parede), iniciam-se com a música Deep Blue, da banda Arcade Fire. Em tradução livre, a letra diz:

Aqui, no meu lugar e tempo,
e aqui, na minha própria pele,
eu posso, finalmente, começar.
[…]

Eu era apenas uma criança então,
[...]

O fim de tudo... que é um novo início. (Imagem: Reprodução/IFC Productions)

Mason era uma criança que, agora, pronta para ir ao encontro do seu futuro, sem interferência externa direta (como, em dado momento, reclama à sua ex-namorada), observa o pôr do sol e, enfim, o surgimento das estrelas.

Boyhood: Da Infância à Juventude é uma obra-prima. O título está disponível no Amazon Prime Video.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canaltech.

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