Crítica | Privacidade Hackeada põe em dúvida qualquer esperança sobre o futuro

Por Rafael Rodrigues da Silva | 31 de Julho de 2019 às 09h57

Um conselho que recebemos desde muito jovens é de que se gostamos de salsicha, nunca devemos pesquisar sobre como elas são feitas. Isso porque esses produtos costumam ser recheados com os restos processados daqueles pedaços de carne que o frigorífico não achou literalmente nenhum outro uso, e não é raro nesse processamento a carne ser misturada com outras coisas que nem podem ser consideradas alimentos, como ossos, caixas de papelão e até mesmo jornais velhos.

A ideia deste conselho é a mesma por trás de frases como “o que os olhos não veem o coração não sente” ou “a ignorância é uma benção”: uma ideia nascida do conformismo de que nada irá mudar e que é muito melhor se manter na ignorância e viver a vida comendo salsicha — um alimento relativamente barato e com um bom custo-benefício entre sabor, praticidade e preço — do que descobrir como elas são feitas, se sentir enojado pelo processo e ficar se esforçando para ir atrás de outros alimentos quando, no fim, todos sabemos que o tio do dogão na saída da balada às 4h da manhã oferece um verdadeiro Manjar dos Deuses para matar a larica da madrugada.

Isso porque, mais do que com nossa própria saúde no longo termo, na maioria das vezes nossa maior preocupação é com a praticidade de algo que nos oferece conforto imediato, o que faz com que muitas vezes optemos conscientemente por ignorar algo que sabemos ser ruim para nós mesmos se isso significar que teremos um prazer imediato com o mínimo de esforço necessário. E, se estivermos falando de redes sociais, Privacidade Hackeada (disponível na Netflix) é a melhor explicação de como funciona a fábrica de salsichas.

Participe do nosso Grupo de Cupons e Descontos no Whatsapp e garanta sempre o menor preço em suas compras de produtos de tecnologia.

Vidas à venda

Professor universitário David Carroll foi um dos primeiros a desconfiar do poder da Cambridge Analytica (Imagem: Netflix)

Você em algum momento já ouviu aquela famosa frase em relação ao Facebook/Instagram/Twitter ou qualquer outra rede social: “se você não está pagando para usar, é porque você é o produto”. E ela é totalmente verdadeira. Ao aceitar os termos de uso durante o cadastro em uma rede social, o que se está aceitando é um termo que diz que a rede social não apenas pode coletar todos os seus dados — não apenas os pessoais (como nome, telefone, endereço, grau de escolaridade, local de trabalho, etc), mas também todas as informações suas que atravessam a plataforma. Os computadores da rede social vasculham suas curtidas, suas postagens públicas e até mesmo suas mensagens particulares para não apenas criar um perfil de quem você é, mas também prever as coisas que você poderá ter interesse no futuro baseado nessas informações.

Além de permitir a coleta de todos esses dados pela rede social, ao aceitar os termos de uso para participar dela você garante a elas o direito de vender esses dado para anunciantes — que irão criar propagandas especialmente para você. Ou, algo ainda mais perigoso: o direito de permitir que outras empresas façam a coleta desses dados através da plataforma para fins diversos.

E é nesse último caso que se encontra a Cambridge Analytica, empresa que é o foco do documentário Privacidade Hackeada. A empresa ganhou holofotes em 2018 após ser pivô de um escândalo de manipulação a partir de dados colhidos no Facebook, manipulação essa que teria sido a responsável por ajudar a eleger Donald Trump como presidente dos Estados Unidos em 2016. Ao falar isso, muita gente já deve estar torcendo o nariz e pensando “Argh! Mimimi de política. Aceitem logo isso seus esquerdistas, isso é uma democracia, as pessoas têm liberdade para escolher quem quiser que as governe!”, mas, antes que você abandone o texto, deixe-me terminar o pensamento: a manipulação de dados na eleição dos Estados Unidos é apenas o pano de fundo, o motivo que serviu de inspiração para o início das investigações sobre o papel da Cambridge Analytica e que culminaram no documentário da Netflix. Quem se tornou presidente ou não é algo superficial, de pouca importância, e está longe do cerne da questão, que é muito mais complexa: será que nós realmente temos liberdade de escolha?

Paranóia justificada

Carole Cadwalladr é uma jornalista investigativa que encabeçou toda a revelação do real poder da Cambridge Analytica (Imagem: Netflix)

Uma das concepções mais estranhas da nossa vida ocidental é a ideia do livre-arbítrio, a de que somos livres para pensar e agir do modo que quisermos, e por isso devemos ser responsabilizados pelos nossos atos. Ao mesmo tempo, essa concepção do livre-arbítrio é paradoxal à doutrina e moral cristã que rege nossa sociedade, e que prega que há um Deus onisciente e onipresente que tudo sabe, tudo vê e tudo controla.

E há um paradoxo muito claro nessa ideia: ao mesmo tempo que a fé cristã prega que somos livres para cometermos erros — os pecados — e que podemos nos redimir deles pedindo perdão, ela também afirma que uma árvore não perde uma única folha se assim não for a vontade de Deus. Assim, somos livres para viver nossas vidas do jeito que quisermos e até nos afastarmos das regras que Deus criou para seguirmos, mas se fizermos isso é porque isso foi a vontade Dele — e este é o paradoxo clássico da experiência cristã e que tem há séculos feito filósofos ateus e pensadores do fazer religioso discutir sobre como duas ideias tão contrastantes e que anulam uma à outra podem estar na base de toda uma sociedade.

Essa ideia de um Deus que tudo sabe e tudo controla também serviu de base para algumas das teorias da conspiração mais famosas dos últimos séculos. Illuminatis, New World Order, Cultos Satânicos... Não importa o nome, todas elas possuem a mesma base: a de que nossas democracias são ilusões criadas para tornar a população dormente e mansa, e somos governados por meros fantoches que, por trás dos panos, são controlados por uma única pessoa ou organização secreta que é quem realmente define os rumos do mundo.

E, incrivelmente, ambos os exemplos — o paradoxismo e a paranóia — estão muito próximos da realidade que nos é apresentada por Privacidade Hackeada.

Julian Wheatland é ex-COO e CFO da Cambridge Analytica e um dos responsáveis por dizer a verdade sobre as operações da empresa (Imagem: Netflix)

Isso porque, através de um simples questionário de personalidade, a Cambridge Analytica se aproveitou de uma permissão especial do Facebook que permitia a um app coletar não apenas os dados das pessoas que participavam do quiz, mas também todos os dados de todos os amigos dela. Então, se um usuário desse o consentimento para a coleta de seus dados para participar da brincadeira do teste de personalidade e ele tivesse 500 amigos, o app iria coletar os dados completos do perfil (incluindo mensagens privadas) de todas essas 501 pessoas, e nenhum dos 500 amigos ficaria sabendo que seus dados foram coletados, pois apenas o usuário que participou do teste de personalidade seria perguntado se aceitava a coleta dos dados.

A partir desses dados, a Cambridge Analytica faria uma análise completa de todas as informações e criaria perfis individuais para cada pessoa. Esses perfis eram incrivelmente completos, baseados em 5 mil pontos de análise que conseguiam definir exatamente não apenas do que uma pessoa gostava ou se interessava por comprar, mas também qual era sua visão de mundo, quais eram seus maiores medos e o quanto essas pessoas seriam manipuláveis.

E é justamente a partir do medo que essa manipulação ocorreu. Com base nesses dados, a Cambridge Analytica vendeu seu conhecimento para diversos partidos políticos ao redor do mundo e encabeçou uma enorme campanha de propaganda em que a verdade não era importante, e a única coisa que importava era criar realidades individuais para cada pessoa, onde o maior medo delas estava prestes a se concretizar, e havia sempre uma solução muito simples para evitar que isso acontecesse.

Alexander Nix, ex-CEO e fundador da Cambridge Analytica (Imagem: Netflix)

E essa solução nem sempre era simples pedindo para se votar em alguém específico. Um dos casos apresentados é o de Trinidade e Tobago, onde a empresa foi contratada pelo partido da comunidade indiana para eleger um número maior de indianos para a Câmara dos Representantes (algo equivalente à nossa Câmara dos Deputados). Ao estudar o perfil do país, a empresa percebeu que a maioria dos jovens sentiam-se excluídos pela política, que não possuíam voz nas decisões do país. Assim, a empresa definiu que a melhor estratégia era exacerbar esse sentimento e criou a campanha “Do So”, que era basicamente uma campanha de repúdio ao fazer político e que vendia o ato de não votar como uma forma de rebeldia contra o estado do país.

A partir de perfis falsos na internet, a Cambridge Analytica começou a espalhar a ideia entre a juventude negra do país e a campanha viralizou: de forma natural, surgiram líderes, comícios e dancinhas que celebravam a rebeldia de não participar do processo eleitoral. E, chegando na época da votação, o resultado foi exatamente o esperado: a abstenção dos jovens negros que fizeram parte do “Do So” diminuiu em 6% o número de eleitores da comunidade negra que compareceram nas cabines de votação, enquanto a população jovem indiana foi votar de forma massiva, a mando de seus pais. O resultado foi uma eleição histórica para o partido indiano, que conseguiu eleger seis representantes a mais para a Câmara, conseguindo pela primeira vez a maioria das cadeiras.

Brittanny Kaiser, ex-funcionária da Cambridge Analytica, comandou a maior parte das campanhas de manipulação da empresa (IMagem: Netflix)

Claro, todos os líderes reais que surgiram no movimento “Do So” em Trinidade e Tobago é gente de verdade, que realmente acreditava que não votar era um ato de rebeldia contra o governo. Mas é aí que entra a dúvida: o quanto disso era uma vontade real e o quanto foi algo incutido pela campanha de manipulação e propaganda encabeçada pela Cambridge Analytica? Ou, ainda, se essa insatisfação era real, o quanto da vontade de transformar essa insatisfação em um movimento político — como protestos, marchas e comícios — partiu da real vontade dessas pessoas, e o quanto foi uma manipulação de dados que as convenceram de que transformar essa insatisfação em movimento político era o melhor para o país?

Essa mesma dúvida paira sobre diversos outros processos democráticos no mundo que foram influenciados pelos dados da Cambridge Analytica: a campanha do Brexit que votou pela saída do Reino Unido da União Europeia, a eleição de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos, a eleição do candidato do partido BJP na Índia, além de processos democráticas na Austrália, no Quênia, no México e em Malta. Privacidade Hackeada não critica os resultados de nenhum desses processos democráticos, mas nos faz questionar o processo em si. E, assim como o paradoxo no cerne do cristianismo ou a paranóia de um órgão fantasma que controla o mundo, nos faz perguntar se há como identificar até onde nossas decisões são livres ou foram manipuladas, e até onde nossa democracia é real ou controlada por forças superiores que se escondem nas sombras.

Black Mirror da vida real

Christopher Wylie, ex-funcionário da Cambridge Analytica e um dos primeiros a delatar contra a empresa (Imagem: Netflix)

E talvez a faceta mais assustadora de Privacidade Hackeada é de onde saem todas as denúncias sobre o poder do sistema de manipulação criado pela Cambridge Analytica. As denúncias não são de funcionários anônimos, que escondem suas caras com medo de expor a corporação. Elas vêm das próprias cabeças da corporação. Mais precisamente, de um dos fundadores e da pessoa responsável por ter encabeçado todas essas campanhas de manipulação através de propaganda e fake news e que sentem remorso pelo monstro que ajudaram a criar.

E o monstro aqui não são as pessoas e políticas que eles ajudaram a eleger e implantar, mas a própria ideia de manipulação pessoal através do Big Data que a Cambridge Analytica ajudou a criar. Segundo Brittany Kaiser, que gerenciou todas as campanhas políticas da Cambridge Analytica durante anos — incluindo a do Brexit e a de Trump —, a ferramenta que a empresa tinha em mãos não era apenas um facilitador de marketing em massa, mas uma verdadeira arma de manipulação de mentes, que pode ser usada para mudar os rumos de uma nação manipulando cada um de seus cidadãos a partir do medo, e continuar manipulando-os para que continuem acreditando no que quer que devem acreditar. Ainda que a empresa tenha se tornado o avatar deste tipo de abordagem, ela não é a única a se utilizar desta arma, que só deverá se tornar cada vez mais comum.

Assim, Privacidade Hackeada nos confronta com uma realidade que deveria assustar a todos, independentemente de suas posições políticas: a de que nossas democracias não estão prontas para esse novo mundo. E isso não é um exagero: nenhum processo eleitoral de nenhum país possui armas para combater esse tipo de manipulação e evitar que ela possa interferir na escolha de seus representantes eleitos. E nem adianta mais falar “eu vou sair do Facebook”. Esse tipo de manipulação é muito maior e mais complexo do que apenas uma única rede social, e o único modo de não se tornar uma vítima potencial dela é renunciar totalmente à convivência em sociedade.

A tecnologia mudou nosso mundo de maneira mais rápida do que poderíamos imaginar e nos colocou em uma encruzilhada onde não há mais como evitar o problema. Tudo que nos resta é tentar conviver com o caos gerado por ele. Há anos assistimos à série Black Mirror e ficamos “nossa, como a tecnologia pode nos levar para um cenário assustador”, mas a realidade é que já estamos vivendo em um cenário digno dos episódios mais apavorantes da série britânica há alguns anos, e somente agora estamos nos dando conta disso. A questão principal não é mais tentar evitar o pior, mas nos perguntarmos: será que já é tarde demais?

Gostou dessa matéria?

Inscreva seu email no Canaltech para receber atualizações diárias com as últimas notícias do mundo da tecnologia.