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O Fabricante de Lágrimas | Como filme da Netflix é um sucesso mesmo sendo ruim?

Por| Editado por Durval Ramos | 09 de Abril de 2024 às 15h00

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Divulgação/Netflix
Divulgação/Netflix
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O Fabricante de Lágrimas, romance jovem-adulto que chegou na Netflix na última quinta-feira (4), vem dando o que falar. Filme italiano original do streaming, ele entrou no radar dos assinantes da plataforma e ficou em primeiro no ranking brasileiro de filmes mais vistos do serviço em seu final de semana de estreia, mesmo sendo uma das maiores bombas já feitas pela empresa.

Baseado em um romance homônimo escrito por Erin Doom, pseudônimo de uma autora italiana que começou sua carreira no Wattpad e se tornou a escritora mais vendida da Itália — superando até mesmo o fenômeno editorial Elena Ferrante —, O Fabricante de Lágrimas teve seus diretos de adaptação adquiridos pela Rainbow S.p.A. ainda em 2022. E não demorou para que a Netflix entrase na jogada.

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Só que toda essa expectativa não poderia ser mais frustrada. Ainda que os fãs brasileiros da obra tenham assistido em peso à versão — o livro se tornou um fenômeno mundial após explodir no TikTok — e romances adolescentes quentes, por si só, serem um chamariz nas plataformas de streaming, o novo filme da Netflix não poderia ser mais displicente. Uma bomba, para ser mais precisa.

Com diálogos pavorosos, uma narrativa sem pé nem cabeça e uma montagem que piora tudo — deixando de explicar contextos fundamentais no início da trama e intercalando cenas picotadas, que não parecem ter nenhum tipo de ligação —, o título é uma avalanche de desastres.

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A história de O Fabricante de Lágrimas

Ambientado na Itália e tendo dois adolescentes como protagonistas, O Fabricante de Lágrimas segue os passos de Nica (Caterina Ferioli), uma garota que perde os pais aos oito anos em um acidente de carro e passa a viver em Sunnycreek, um orfanato apelidado de “Grave” (cova, em tradução livre).

Ao completar dezessete anos, a garota é finalmente adotada por uma família amorosa, mas tem de lidar com o fato de que Nigel (Biondo), seu maior desafeto do orfanato, também é adotado com ela.

Os jovens, que vivem uma relação de amor e ódio completamente mal explicada, ora se pegando pelos cantos da casa e ora sendo completamente ofensivos um com o outro, são peças de um “romance proibido”, que não vai para frente, segundo Nica, porque Nigel é o “fabricante de lágrimas” de sua história.

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O título, explicado no filme, diz respeito a uma lenda que a jovem conheceu enquanto morava no orfanato e fala sobre uma figura sombria que mora em um mundo onde todas as pessoas estão vazias de emoções. Diferente dos demais, no entanto, essa figura consegue produzir e doar lágrimas de cristal, gesto que acaba despertando todos os sentimentos sombrios presos no coração das pessoas.

Sofrível do começo ao fim

Partindo, portanto, dessa premissa confusa que mistura um pingo de fantasia com a história dos protagonistas, o longa-metragem tenta vender a ideia de um romance às avessas, que apela única e exclusivamente para cenas quentes para que o público desenvolva algum tipo de simpatia pelo casal.

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Embora, ao longo da história, o filme dê algum contexto sobre os traumas da infância dos personagens — que teoricamente seriam os responsáveis pela forma esquisita com que se tratam —, nada soa como uma justificativa plausível para o relacionamento (tóxico) dos dois. As resoluções são explicadas de forma corrida, há inúmeras pontas soltas na narrativa e tramas paralelas não são dignas nem de nota no final do filme.

Para piorar, fica óbvia a tentativa da Netflix de trazer características de outros sucessos adolescentes, como a saga Crepúsculo, para a história italiana. Ainda que O Fabricante de Lágrimas não tenha absolutamente nada a ver a história de Stephenie Meyer, os personagens têm a mesma aura entediante e misteriosa da franquia de fantasia e são pálidos — absurdamente pálidos — tal qual vampiros. A diferença é que, aqui, nada brilha: nem vampiros, nem atores e muito menos o roteiro.

Isso sem falar nos efeitos visuais do filme, que embora sejam poucos, aparecendo praticamente apenas no começo da história, são tão mal feitos quanto os do romance de fantasia de 2008.

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Base de fãs fez do filme um sucesso

Co-escrito e dirigido por Alessandro Genovesi, famoso na Itália por seus filmes de comédia, o título se tornou um hit na plataforma assim que pingou no streaming. Um sucesso que se beneficia, definitivamente, pela popularidade prévia da história no Brasil e pelo romance “hot” e dark que seu trailer deixa entrever.

A trilha sonora do longa, aliás, é outro ponto que viralizou na internet e que ajudou a chamar atenção do público adolescente. Com sucessos como Vampire de Olivia Rodrigo, I Love You de Billie Eilish (que toca no trailer da produção) e Budapest de George Ezra, o filme ganhou edits nas redes sociais apenas com trechos das canções. E, sendo bem honesta, é melhor você ficar com essas montagens do que com o filme completo.

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Nada disso torna a história ligeiramente sustentável. Mal escrito e editado, O Fabricante de Lágrimas tenta beber da fonte de outros sucessos adolescentes para vender uma trama insossa, corrida, que pode soar mais entendível para quem leu os livros, mas é no mínimo intragável como obra audiovisual.

O Fabricante de Lágrimas está disponível na Netflix com 1h40 que jamais vão retornar para sua vida.