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Crítica Glass Onion |Engraçado e divertido, mas sem mistério algum

Por| Editado por Jones Oliveira | 23 de Dezembro de 2022 às 18h58

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O novo Glass Onion: Um Mistério Knives Out se apoia quase que inteiramente em torno de um conceito que não tem tradução para o nosso idioma. A expressão que dá título ao filme é essa figura de linguagem para algo que se apresenta como uma cebola de vidro — algo que parece complexo e rebuscado, cheio de camadas, mas que não é capaz de esconder segredo algum. Uma imagem que ilustra muito bem o que é essa continuação.

Quando o primeiro Entre Facas e Segredos chegou aos cinemas, em 2019, foi uma grata surpresa. O diretor Rian Johnson retomou um tipo de história que andava meio esquecido e deu uma nova roupagem ao trazer o clássico mistério de assassinato — o whodunnit — com uma boa dose de humor, ótimos personagens e um roteiro afiado e delicioso de acompanhar.

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O problema é que essa é uma combinação não tão simples de se reproduzir e que fica perceptível por aqui. Por mais que o novo filme da Netflix se empenhe em recriar aquela experiência que conquistou tanta gente, parece que ele se esforça demais em manter o carisma e o espírito caótico que deu tão certo no longa original que se esquece do básico: apresentar um mistério que seja realmente envolvente.

A investigação que não ocorre

Embora não seja proposital, o terrível nome nacional do filme traduz muito bem o espírito por trás do retorno do detetive Benoit Blanc (Daniel Craig). Glass Onion: Um Mistério Knives Out é um nome que se apresenta com uma pompa que, no fim, não diz coisa nenhuma. E é mais ou menos esse o clima do grande “mistério” que deve ser desvendado.

A sinopse vende um enigma intrigante e chamativo: um excêntrico bilionário convida um grupo de notáveis amigos (e também o detetive Blanc) para um fim de semana em sua ilha particular na Grécia para participar de um pequeno jogo — uma investigação sobre o seu próprio assassinato.

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Assim, temos todas as peças para um whodunnit clássico, com personagens bem diferentes enclausurados em um único lugar e todos com motivações suficientes para serem suspeitos. É a fórmula que eternizou a escrita de Agatha Christie e em que se baseia boa parte dos romances de Sherlock Holmes.

E, nesse sentido, Glass Onion acerta muito bem. Toda essa construção do mistério é muito boa e segue perfeitamente a cartilha do gênero, com o adicional de que tanto o seu protagonista quanto os próprios personagens que fazem parte desse jogo são ótimos de se acompanhar. O problema é que o longa simplesmente se perde naquilo que há de mais divertido nessas histórias: a investigação e a resolução.

Um bom whodunnit também transforma o espectador em detetive. É aquela narrativa que brinca com as nossas percepções e nos faz acreditar que o culpado ora é o Coronel Mostarda, ora é a Senhorita Rosa. Tão interessante quanto colocar as peças no tabuleiro é deixar com que façamos parte das jogadas que levam ao xeque-mate.

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E é aí que a continuação de Entre Facas e Segredos tropeça. Enquanto a primeira metade do filme é dedicada a construir o suspense e apresentar cada um dos suspeitos e suas possíveis motivações, a segunda parte é inteiramente focada em mostrar como tudo aconteceu, sem deixar espaço para que a gente participe dessa investigação.

Tão logo o crime acontece, o roteiro já começa a jogar as respostas na tela. Por mais de uma hora, o longa se torna uma grande exposição de tudo o que aconteceu e deixa de fora o público dessa sensação de ser um pouco Benoit. Em momento algum você se sente enganado por seguir pistas falsas, pois mal há tempo para isso.

Na verdade, a coisa toda é tão apressada que o próprio protagonista deixa de ser o detetive genial que nos é prometido e se torna apenas o narrador daquilo que o filme escondeu da gente. Tudo é mostrado de forma tão apressada que mal há tempo para que vejamos a perspicácia do personagem que nos conquistou no filme anterior. No fim, falta o charme do primeiro filme.

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Ainda assim, divertido

Ao mesmo tempo, não há como dizer que Glass Onion é um filme ruim. Apesar de não se equiparar a Entre Facas e Segredos, ele segue muito divertido e diverte com um mistério que não é brilhante, mas ainda entretém. Como essa cebola de vidro, ele vale muito mais pelos adereços de suas camadas do que pelo segredo que finge guardar.

No caso, o grande acerto do longa são seus personagens. Daniel Craig volta a interpretar essa detetive que é genial, mas não é infalível e perfeito como um Hercule Poirot ou Sherlock Holmes. E é nas suas manias e no próprio desconforto de estar entre figuras tão particulares que ele brilha.

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Da mesma forma, cada um dos convidados para essa festa esquisita é um achado e tanto. Principalmente porque todos eles são caricaturas de figuras do nosso mundo, seja com o youtuber ativista do machismo que mora com a mãe ou a influencer que vive de polêmicas e que reclama que não se pode falar mais nada hoje em dia.

Nesse sentido, Entre Facas e Segredos 2 entrega um roteiro tão bom quanto o do primeiro filme, acertando a mão no humor ao apresentar essas sátiras com ótimos diálogos e situações que são belas alfinetadas. O filme brinca muito bem com os políticos que se escondem em festas durante a pandemia, as teorias conspiratórias, o negacionismo e até como os grandes bilionários se aproveitam de tudo isso para alavancar seus negócios.

Só que nenhum desses cutucões aparece em forma de discurso pedante ou sob bandeiras moralizantes. Pelo contrário, são alfinetadas sutis que apenas dão mais humanidade a esses personagens e torna tudo muito mais interessante. Por isso mesmo, a primeira metade da trama é a mais interessante, pois usa tudo isso para construir cada uma dessas personalidades ao mesmo tempo em que apresenta o dito mistério.

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A autêntica cebola de vidro

Assim, no fim das contas, o que temos é justamente esse filme que se apresenta com muitas camadas e elementos para você observar, mas que não tem segredo algum. Não que ele seja óbvio, mas parece se empolgar demais com a embalagem desse intrincado mistério a ponto de não conseguir desvendá-lo de outra forma que não seja sendo expositivo.

Isso faz com que Glass Onion: Um Mistério Knives Out seja muito divertido pelo seu bom roteiro e atuações, mas termina com aquela sensação de que algo está faltando — e está. Apesar de todas as voltas que ele dá, acaba não conseguindo ser a investigação que prometia.

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No fim das contas, o mistério era só uma desculpa para reunir esses personagens em um só lugar. Como a tal cebola de vidro, algo que se apresenta como algo muito mais complexo do que realmente é.

Glass Onion: Um Mistério Knives Out é uma das principais estreias de dezembro e pode ser assistido na Netflix.