Crítica | A Casa usa protagonista para brincar com a empatia do espectador

Por Laísa Trojaike | 30 de Março de 2020 às 11h47
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Atenção! A crítica pode conter spoilers!

Em 2002, o filme espanhol Segunda-Feira ao Sol, de Fernando León de Aranoa, marcou por mostrar as dificuldades do trabalhador espanhol, especialmente dos mais velhos, que enfrentam dificuldades para encontrar emprego diante das gerações mais novas e supostamente mais preparadas para as exigências do mundo contemporâneo. A Casa (disponível na Netflix) retoma esse tema no personagem de Javier Gutiérrez, Javier Muñoz, que, apesar do currículo, se vê dispensado por pessoas mais jovens.

A Casa, inclusive, enquadra-se no gênero suspense pela falta do elemento sobrenatural. Com isso gostaria de propor ver o apartamento de Javier pela perspectiva da família que passa a habitar o local após a saída dos Muñoz, quando Javier começa a desempenhar a função que uma maldição teria em uma obra de terror, quando uma família inocentemente se muda para uma nova casa e, a partir disso, tudo desmorona. Suspense, então, porque Javier é um terror da vida real, uma pessoa presa a uma ideia como uma alma sofrida pode se ligar a um espaço.

Imagem: Netflix

O elemento terror ainda pode ser encontrado como uma referência sutil e não essencial na solução encontrada por Javier para se livrar do dilema imposto a ele pelo jardineiro. Após roubar uma roupa íntima para o pedófilo, Javier se vê diante do dilema de ser descoberto ou ter que colocar uma câmera no quarto da criança. Sua solução faz com que o jardineiro pegue fogo, sobretudo na parte superior do corpo: não consegui deixar de ver isso como uma referência a Freddy Krueger, que foi queimado justamente por ser um pedófilo.

Um herói de caráter duvidoso

Ao contrário de Segunda-Feira ao Sol, A Casa não tem um final redentor e, assim como um terror, age pelo medo. Do início ao fim, a publicidade de uma vida perfeita, que deve ser perseguida a qualquer custo, é sustentada pelo personagem principal não somente porque ele trabalha com isso, mas porque diz respeito ao seu desejo: nada, nem mesmo a sua família, é mais importante que a casa que representa todo o status social que ele deseja para si.

Javier é, ao mesmo tempo, a vítima e o vilão. Vítima de um problema social, o envelhecimento demográfico, ele se rende às imposições do capitalismo (assim como um dos personagens de O Poço, também espanhol) disfarçado de ideal de vida através da publicidade. Constantemente filmado em contra-plongée, Javier é engrandecido pela direção, que parece ignorar que, no roteiro, o personagem se tornou um stalker e, posteriormente, um manipulador e assassino.

Imagem: Netflix

Recentemente, Coringa (Todd Phillips, 2019) levantou questionamentos sobre a responsabilidade social de um filme ao tratar um vilão como herói. Este caso, no entanto, tem um personagem com doenças mentais, histórico de abuso físico e psicológico, que luta contra seus demônios internos e tem os problemas sociais como estopim de todo seu ódio. A Casa, por outro lado, parece eleger um problema social apenas como plano de fundo para um personagem que não demonstra ter outros problemas pessoais que não sua obsessão por um estilo de vida.

Contraditório

O roteiro e a direção dos irmãos David e Àlex Pastor não consegue transmitir uma ideia muito estruturada de moral da história através de Javier. Obviamente, nenhum filme é obrigado isso, mas deve ser pensamento de qualquer cineasta a sua responsabilidade com o público e A Casa abre espaço não somente para múltiplas interpretações (que é uma qualidade excelente para obras de arte), mas também para interpretações conflitantes.

A apresentação de Javier é excelente: a dificuldade para conseguir um emprego, a forma como é tratado pelos possíveis empregadores, o modo como ele parece começar a perder a sanidade quando sua silhueta é centralizada em alguns enquadramentos e um ruído toma conta da trilha sonora, contribuem tremendamente para que desenvolvamos empatia por ele. Outra referência que é possível encontrar aqui é o lava-jato azul, que lembra muito um dos momentos rotineiros da família de O Sétimo Continente (Michael Haneke, 1989).

Imagem: Netflix

O problema surge quando Javier, já tendo cativado o expectador, começa a ter atitudes moralmente questionáveis. A princípio, apenas invadir a casa ainda causa empatia pelo sofrimento de uma pessoa que não consegue aceitar a mudança de classe social, mas, aos poucos, a trama ganha proporções em que passamos a questionar nosso apego ao personagem e a compreensão de suas atitudes.

Ao final, fica difícil distinguir entre crítica ou apologia: ele enfim conseguiu a vida digna de comercial de margarina, mas a que custo? O perigo reside justamente na ideia de que, ao mesmo tempo que o filme pode ser interpretado como uma crítica à sociedade de consumo, também pode surtir o efeito de apologia a atitudes descabidas em prol de um conto de fadas que só pode ser vivido por uma parcela mínima da população mundial. A acumulação de riqueza e as propagandas meritocráticas criam a ideia irreal de que existe um mundo de luxo que só é alcançado por aqueles que têm coragem de pegar as oportunidades, mesmo que isso custe o infortúnio de muitos.

Uma obra de arte existe no mundo por si própria, mas é, ao mesmo tempo, o produto de um artista que tem uma intenção e a interpretação de quem a consome, por isso que nunca algo como um filme é uma única e definida coisa. Isso significa que, embora a arte em si não possa ser moral ou imoral, porque ela própria é desprovida de consciência, as intenções de um artista podem ser questionadas e as interpretações que fazemos das obras dizem muito sobre nosso próprio caráter.

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