Crítica | O Poço é um elogio à educação como elemento revolucionário

Por Laísa Trojaike | 26 de Março de 2020 às 12h12
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Nem tudo em O Poço (disponível no catálogo da Netflix) é óbvio, claro, mas a metáfora parece ser: é um filme sobre a questão de classes e o comunismo como solução. É óbvio, como ressalta constantemente Trimagasi (Zorion Eguileor), e ele explica: os de cima são os de cima e os de baixo são os de baixo. A obviedade vai além da tautologia: é cada um por si, quem está em cima usufrui dos seus privilégios, quem está embaixo faz escolhas ligadas à sua sobrevivência.

O primeiro diálogo entre Goreng (Ivan Massagué) e Trimagasi é elucidador não somente para o protagonista, como para o espectador, e esse é justamente um dos pontos fortes do roteiro de David Desola e Pedro Rivero. Há um didatismo que percorre todo o filme, explicando cada ponto, mas tudo ocorre de forma natural entre os personagens que, assim como nós, também tentam entender o mecanismo no qual estão inseridos.

O diretor estreante Galder Gaztelu-Urrutia faz opções estéticas interessantes em um ambiente inóspito, minimalista e cinza, mas o conteúdo ainda se sobrepõe à forma. Somado ao hype que o filme adquiriu, a obra tem tudo para se tornar um clássico cult político e, se isso não acontecer, muito provavelmente se deverá à falta de imagens impactantes que sirvam como símbolo.

Atenção! A partir daqui, a crítica pode conter spoilers.

É óbvio

Os ensinamentos não são mascarados e talvez isso seja um sintoma de que não estamos em tempos de comunicação metafórica (e não posso deixar de citar que foi exatamente esse o movimento que seguiu Elza Soares nos seus três últimos álbuns: as músicas ficaram cada vez mais diretas, abandonando gradualmente as possibilidades de múltipla interpretação). Informação também é uma questão de justiça, como esclarece Goreng ao barganhar conhecimento com Trimagasi. O Poço tem um discurso similar ao de Nós (2019), sobre quando os de baixo resolvem enviar uma mensagem para os de cima, mas se o filme de Jordan Peele é um soco poético no estômago, O Poço é um tapa na cara (e não é de luva).

Imagem: Latido Films / Netflix

O Poço está mais próximo do curta documental brasileiro Ilha das Flores (Jorge Furtado, 1989) e de Expresso do Amanhã (2013), de Joon-ho Bong, que retomou o tema desigualdade social no premiadíssimo Parasita (2019). O Poço é inferior a esses títulos em termos técnicos, mas não fica para trás no que diz respeito à sua história.

A crítica à sociedade de consumo através da publicidade da faca que fica mais afiada na medida em que é utilizada é óbvia. O discurso de que um símbolo de resistência é necessário é óbvio. O ensinamento de que a violência só é autorizada pela revolução quando o diálogo não funciona é óbvio. O sistema é injusto, óbvio. Há, no entanto, uma obviedade que precisamos fazer o esforço de notar a todo instante: o sistema social vigente (que no universo de O Poço é a Administração) não tem personificação. A Administração não é alguém. Ao contrário de Expresso do Amanhã, que tem uma figura responsável pelo sistema de classes instituído, O Poço faz esse excelente trabalho de despersonalização: podemos ou não aderir à ideologia de classes, da mesma forma que é possível chegar ao poço por opção ou por obrigação. O que importa, de fato, é a atitude que teremos diante disso, que é maior do que nós e limita as nossas opções de escolha (e, aqui, o tapa é na cara da meritocracia).

Imagem: Latido Films / Netflix

Instrumentos de revolução

Ao dizer que as configurações daquela realidade são óbvias, as atitudes de Goreng diante do que lhe é imposto surtem o efeito de uma cartilha da revolução para os espectadores. Há, em apenas uma hora e meia de filme, uma gama complexa de possibilidades de ações.

Um dos discursos mais complexos trazidos pelo filme remonta à concepção hegeliana da dialética do senhor e do escravo, em que o desejo de reconhecimento do eu pelo outro tem um papel central. Paulo Freire, aqui, é uma referência ainda mais poderosa: “Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor.” A troca mensal de andares representa justamente isso: todos os confinados têm a consciência de que um dia podem acordar em celas inferiores ou superiores. A solidariedade, no entanto, não é espontânea (óbvio), e Trimagasi (o personagem que é facilmente manipulado pelo capitalismo) vive essa ideia ao se reconhecer como oprimido e aproveitando todas as oportunidades nas quais pode ser opressor.

O roubo da palavra “óbvio” demonstra a importância da linguagem, que é elemento necessário da comunicação (e não apenas a fala é uma linguagem). A inserção de um personagem que leva um livro para o poço, o único a fazer isso, também não é gratuita. Assim como em Nós a revolução é iniciada por alguém que teve acesso à educação no mundo “superior”, em O Poço é Goreng que se atreve a mudar o sistema. Dom Quixote, a obra escolhida, não está ali apenas para dar ao roteiro uma poeticidade que ele próprio se recusa a ter: Miguel de Cervantes tem para a língua espanhola a mesma importância que Machado de Assis tem para a língua portuguesa, com ambos os autores questionando as questões de classe da sua época.

Imagem: Latido Films / Netflix

A literatura não salva Goreng, que inclusive é confrontado por Trimagasi quando este diz que seu interlocutor tem um livro enquanto ele tem uma arma, mas é a educação que conduz o protagonista na sua própria luta contra os moinhos de vento. Paulo Freire é, novamente, uma luz: “Se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda.”

Comida

É óbvio que, se distribuíssemos melhor a comida, não haveria fome no mundo, como demonstra o documentário We Feed the World (Erwin Wagenhofer, 2005). Outras atitudes mostradas no filme também são evidentes no nosso cotidiano, mas são coisas do tipo que nos recusamos a ver e, por vezes, fazemos com uma naturalidade que não deveria vir separada de um grande peso na consciência.

Imagem: Latido Films / Netflix

A ideia de um chef que surta com um fio de cabelo na panacota perfeita contrasta diretamente com as pessoas de níveis inferiores que precisam comer restos ou cometer atos de canibalismo, isso quando não são obrigadas a ficar sem alimentação. Não precisamos ir ao poço para ver isso: enquanto uma classe social chega a ter a figura do sommelier de água gourmet, grande parte da população não tem acesso sequer à água tratada. As distopias já são reais, só não são para todos.

A mensagem

O personagem mais significativo do poço não é Goreng, ainda que ele seja o herói protagonista. As instruções do sábio são ordens para a vida revolucionária, ainda que seja objeto de discussão a liberação do uso da violência. Vale lembrar que, no filme, o uso da força é justificado: há quem entenda o diálogo, há quem não entenda até que veja seu eu ameaçado, seja fisicamente, seja pela possibilidade de receber sua comida suja de fezes (e é uma metáfora incrível a ideia de que não é possível defecar na comida dos andares superiores).

A revolução precisa de um símbolo e a panacota tem a mesma força que o punho fechado tem para as organizações trabalhistas, para o black power ou para o girl power. No entanto, a panacota é o único alimento disponível para a criança do nível 333 (número que tem diversos significados em culturas e crenças distintas e que casam perfeitamente com a trama, sendo ou não a intenção do roteirista).

Imagem: Latido Films / Netflix

Embora o filme pareça acabar do nada, sem sabermos se a revolução funcionou ou não, isso também é uma lição a ser aprendida: nem sempre colhemos os frutos do nosso esforço. A criança é comumente um símbolo (óbvio) do futuro, fazemos a nossa parte, mas somos apenas uma peça do tabuleiro, ou seja, é preciso lutar e ensinar a luta para as próximas gerações (algo que Star Wars transmite muito bem). Sempre haverão opressores ou pessoas que desejam esse poder corrompido de dominação e é importante entender que a revolução não pode ser uma questão individualista ou egoísta.

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