Análise: Ashton Kutcher convence, mas roteiro fraco prejudica filme 'jOBS'

Por Rafael Romer

As primeiras fotos que apareceram na internet do ator Ashton Kutcher caracterizado como Steve Jobs, no filme independente 'jOBS', impressionaram pela semelhança física entre ambos. Mas seis meses depois das primeiras imagens, o que sobra agora, no contexto do filme, é pouco mais do que um personagem parecido com Jobs, perdido no meio de um roteiro cansativo e repleto de cenas piegas.

'jOBS' é o primeiro filme biográfico a ser lançado após a morte do co-fundador da Apple, em outubro de 2011, e estreia nos cinemas brasileiros no próximo dia 06/09. O resultado de toda a expectativa criada, de maneira geral, causou foi decepção. Com sequências forçadas da vida profissional e pessoal de Jobs, o filme percorre desde a sua juventude, como um ex-aluno do Reed College, até seu retorno à Apple, em 1996, quando reassume a posição de CEO da empresa em meio a uma conturbada série de fracassos financeiros da marca nos anos 90. E, na tentativa de balancear o lado da "lenda" Steve Jobs com seus conflitos pessoais, o filme acaba se perdendo em ambos, com um personagem que não cativa a audiência.

Ashton Kutcher Steve Jobs

Ashton Kutcher caracterizado como Steve Jobs (foto: divulgação)

Guiado pelas mãos de Joshua Michael Stern, que teve em Jobs apenas sua terceira direção de cinema, e do roteirista Matt Whiteley, também um novato nas telonas, a impressão é que o tema escolhido acabou por engolir a dupla completamente, que não foi capaz de atender ao hype criado ao redor do filme ou de retratar uma figura que, por si só, já é um gigante.

Cheio de buracos, o roteiro entrega muitos momentos forçados e repletos de falas e trechos desnecessários para tentar equilibrar os dois Jobs mostrados em tela, o que acaba estragando a imersão dos espectadores. Apelando para uma espécie de roteiro didático, que pontua cada episódio da Apple com sequências de falas pouco naturais, a história acaba muito insossa, deixando pouco espaço para o espectador tirar suas próprias conclusões ou dar um pouco de trabalho à própria imaginação. O filme, por exemplo, é cheio de discursos inflamados de Jobs a seus funcionários e colegas sobre empreendedorismo e sobre o espírito da Apple, geralmente em cenas de tensão, o que acaba soando mais como filme de auto-ajuda para executivos.

No lado pessoal de Jobs, o que poderia mostrar um personagem mais fragilizado e desconhecido pelo público geral, acabou virando uma série de diálogos e cenas clichês. Frases de efeito transbordam nas cenas e algumas até passam a sensação de que o que está sendo visto na telona é pouco mais que uma novela mexicana. Um grande exemplo disso são as cenas que retratam a conturbada relação de Jobs com Chrisann Brennan, a mãe de sua filha Lisa. Apesar de vastas, as imagens não mostram um impacto efetivo no personagem, deixando de lado uma "evolução" que seria natural a qualquer pessoa com o percorrer dos anos.

Jobs

Wozniak de Josh Gad acaba como um "nerd bonzinho", ofuscado por Jobs no filme (foto: Divulgação)

Resta também a crítica a alguns episódios da história de Jobs que ficaram ausentes no resultado final do filme, apesar de suas duas horas de duração. Claramente é impossível resumir toda a vida de um dos nomes mais importantes da indústria da tecnologia, mas acontecimentos como a passagem de Jobs pela Pixar, o seu envolvimento com a NExT (resumido a pouco mais de uma cena), a rivalidade com Bill Gates (que ficou reduzido a uma cena de discussão pelo telefone), não são bem exploradas. Alguns episódios também acabam mal amarrados dentro do filme, como a história de um dos amigos mais antigos de Jobs e um dos primeiros empregados da Apple, Daniel Kottke (Lukas Haas), que simplesmente desaparece do filme em determinada cena, sem um desfecho próprio para a relação entre os dois.

É preciso ressaltar que Ashton Kutcher, conhecido tanto por papéis em filmes e séries de comédia, mas também por participações mais sólidas em longas como O Efeito Borboleta, apesar de prejudicado em parte pelo roteiro, consegue realmente entregar um Jobs crível e pode ser considerado o ponto mais forte do filme. A maneira com que o ator fala, gesticula e até anda, de maneira recurvada, é muito semelhante àquilo que todos nós lembramos de Jobs. Kutcher consegue, por várias vezes, transmitir a sensação de "distância" por qual Jobs era conhecido, em um personagem que parece sempre perdido nos seus próprios pensamentos, sem muita conexão com o que está ao seu redor.

Aliás, de modo geral, a caracterização física dos principais personagens que compuseram a história da Apple, como Steve Wozniak na pele do físicamente parecido Josh Gad, e Mike Markkula, o anjo visionário que permitiu a Jobs e sua equipe darem o Start na Apple, vivido por Dermot Mulroney, é algo a ser apreciar. O clima da Califórnia dos anos 70, 80 e 90 está realmente bem representado no filme e, apesar de um pouco prejudicado por uma trilha sonora por vezes desnecessária, ajuda o espectador a entender um pouco como era o ambiente da tecnologia no começo da revolução dos computadores pessoais.

Jobs

Filme narra a tragetória de Jobs desde o começo da Apple, ainda na garagem da casa de seus pais (Foto: Divulgação)

Mas se a caracterização é boa, alguns dos coadjuvantes deixam a desejar na representação de seus personagens. É o caso do ator que vive Wozniak, criticado até pelo próprio inspirador. O Wozniak real afirmou que "se sentiu mal por várias pessoas que conheço muito bem e foram caracterizadas de forma errada nas suas interações com Jobs e com a empresa". Não é que Woz não tenha sido bem interpretado, mas ele aparece o tempo todo como um "nerd bonzinho" que só quer ajudar a Apple, e parece sempre esmagado pela personalidade perfeccionista de Jobs. É o caso também dos fracos Arthur Rock (J.K.Simmons) e John Sculley (Matthew Modine), que protagonizam cenas que tentam contrapor a personalidade empreendedora e criativa de Jobs ao engessamento do mercado, mas que, no fim, acabam arrastadas e, também, cansativas.

A impressão final que fica é que o filme deve mais chatear do que empolgar os grandes fãs de Steve Jobs. Com o roteiro cansativo, se algo pode garantir o sucesso da produção é a caracterização física e a interpretação do protagonista por Ashton Kutcher.

Pelo menos, este não será o único filme a retratar o gênio da Apple nas telonas. Com produção da Sony, direção de Aaron Sorkin ("A Rede Social") e baseado na biografia autorizada de Walter Isaacson, um segundo filme, ainda sem nome, deve chegar às telonas. Este, sim, contou com a consultoria de pessoas como o próprio Wozniak. Aguardamos ansiosamente.