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Urinais para diagnóstico médico do século 16 são encontrados em aterro romano

Por| Editado por Luciana Zaramela | 01 de Maio de 2023 às 19h00

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Vlad Lesnov/CC-BY-S.A-3.0
Vlad Lesnov/CC-BY-S.A-3.0

Arqueólogos encontraram, no interior do Fórum de César na cidade de Roma, um aterro sanitário contendo uma série de artefatos médicos descartados, incluindo garrafas de medicamentos e urinais — ou penicos, recipientes para coleta e análise da urina de pacientes — de 500 anos atrás. A área começou a ser escavada em 2021, e passou por diversos usos ao longo da história, guardando objetos dos mais diversos e com as mais diferentes idades.

O Fórum de César teve sua construção concluída em 46 a.C., e foi dedicada ao homônimo Júlio César. Cerca de 1.500 anos depois, no entanto, a área acabou sendo utilizada pela guilda dos padeiros para construir o Ospedale dei Fornari, ou Hospital dos Padeiros, onde também foi feito um aterro para descartar equipamentos médicos. Um estudo sobre os objetos do século XVI foi publicado na revista científica Antiquity.

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Cisterna renascentista e seus artefatos

Enquanto exploravam o aterro, a equipe de cientistas, que teve a ajuda do Projeto de Escavação do Fórum de César, descobriu uma cisterna cheia de recipientes de cerâmica, contas de rosário, jarros de vidro quebrados e itens pessoais como moedas e uma miniatura de camelo em cerâmica. Grande parte dos itens eram relacionados à rotina do Ospedale dei Fornari, e a sugestão dos pesquisadores é que os pacientes recebessem um “kit de boas-vindas” com um jarro, um copo de vidro, uma tigela e um prato, como medida de higiene.

Mais da metade dos recipientes de vidro recuperados no aterro são, provavelmente, o que os textos medievais em latim chamavam de “matula” — um urinal. Durante a Idade Média e o Renascentismo, a uroscopia era uma dos principais métodos de diagnóstico utilizado pelos médicos. Despejada em um frasco, a urina era analisada pela cor, sedimentação, cheiro e até mesmo gosto, em alguns casos.

Analisar a urina podia revelar condições como icterícia, doenças renais ou diabetes, já que a urina dos diabéticos pode ficar com cheiro ou gosto doce pelo excesso de glucose. O problema é que jarros desse tipo são difíceis de se identificar em análises arqueológicas, já que seu formato é similar ao de lâmpadas a óleo. Urinais são raros em contextos que não sejam aterros de hospital, como o de Ospedale dei Fornari.

Além desses objetos, a cisterna também revelou braçadeiras de chumbo, utilizadas em móveis, junto a madeira carbonizada ou tratada com fogo. Isso pode ser a evidência de uma prática de higiene histórica: atear fogo em objetos ou casas que apresentassem casos da peste bubônica, como publicado pelo médico italiano Quinto Tiberio Angelo, em suas regras para prevenir o espalhamento da doença, publicado em 1588.

Depois de cheia, a cisterna foi selada por uma camada de argila, provavelmente para fins de higiene. Já existiam aterros do lado de fora da cidade de Roma nessa época, mas era comum jogar restos em adegas, pátios e cisternas, embora fosse proibido. No caso estudado, a cisterna deve ter sido selecionada com um local adequado para selar lixo tóxico.

Embora atualmente saibamos que cozinhar ou ferver vidro é o suficiente para esterilizá-lo, as pessoas da época desconheciam essa possibilidade. Eles que o material aguentava calor a esse ponto, mas não aplicavam o fogo com o objetivo de esterilizar. Já haviam sido encontradas evidências de práticas de descarte no Ospedale dei Fornari, mas, nesse caso, a pesquisa focou no contexto médico e hospitalar dos objetos.

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Segundos os cientistas, o estudo deve ampliar nosso entendimento de práticas passadas, ao mesmo tempo que revela a necessidade de estudos mais aprofundados sobre as práticas de higiene e controle de doenças da Europa do início da Idade Moderna.

Fonte: Antiquity