Tão Black Mirror: e se conseguissem hackear seu cérebro?

Por Luciana Zaramela | 07 de Março de 2019 às 11h41

Já vimos isso nos filmes de ficção científica, mas um futuro distópico no qual hackers pudessem invadir o cérebro das pessoas e roubar suas memórias não está tão longe quanto imaginamos. Já pensou? Suas recordações ali, sendo roladas como num carrossel de arquivos, exibidas numa tela para quem quisesse ver?

Segundo a neurotecnologia moderna, esse cenário "tão Black Mirror" pode, um dia, ser real. E estamos falando de uma questão de uma ou duas décadas. Os avanços na área já nos aproximam de upgrades no cérebro, como aumento da capacidade de memória ou mesmo melhoria nos níveis de atenção e cognição. Mais alguns anos de pesquisa e poderemos, um dia, decodificar o cérebro humano ao nível de reescrever nossas memórias.

Hack do cérebro

Alguns neurocirurgiões já se aventuram na exploração da tecnologia para tornar os seres humanos mais biônicos, no sentido de turbinar o cérebro ou entender melhor seu mecanismo. Implantes cerebrais já são realidade, aliás: no tratamento dos tremores do Parkinson, por exemplo, ou mesmo no dos transtornos obsessivos compulsivos, já é possível manipular certas áreas do cérebro com o auxílio de sensores ou estímulos elétricos.

Implantes de memória já existem e podem se popularizar em duas décadas (Imagem ilustrativa/Shutterstock)

E as pesquisas não param por aí: incessantemente, a busca pelo controle (ou cura) da esquizofrenia, da demência, da síndrome de Tourette e até da depressão está na mira da neurotecnologia. Pesquisadores já iniciaram a exploração destas abordagens científicas em busca de tratamento definitivo e alívio dos sintomas sem necessidade de medicação.

Enquanto isso, na DARPA...

No centro da questão está a DARPA — a Agência de Projetos de Pesquisa Avançada de Defesa dos Estados Unidos —, que é dona de um programa de desenvolvimento de uma "interface neural totalmente implantável e sem fios" para recuperação da memória perdida em decorrência de danos cerebrais em veteranos de guerra.

Saiu no Journal of Neural Engineering um artigo recente provando que a técnica de "memória protética" foi bem sucedida em testes. Segundo Robert E. Hampson et al., do Wake Forest Baptist Medical Center, EUA, foi possível chegar mais perto da codificação da memória humana. Foram realizados testes em 15 voluntários com epilepsia, submetidos a implantes intracranianos de eletrodos para monitoramento das crises.

Depois da implantação, alguns testes neurocognifivos foram realizados com os pacientes, incluindo tarefas curtas (cerca de dois minutos) de memorização como um simples jogo da memória virtual. Enquanto os pacientes realizavam os testes, estimulados pelos impulsos elétricos dos implantes, toda a atividade cerebral era gravada em tempo real para análise posterior, o que gerava códigos personalizados de memória para cada um deles.

Tomografia: os cortes axiais, posteriores e anteriores mostram o cérebro antes e depois dos implantes (flechas vermelhas) nos pacientes submetidos ao estudo (Hampson et al., 2019)

Como resultado, o sistema de memória protética conseguiu melhorar em 35% (média) a capacidade de memorização dos indivíduos — o que é altamente significativo, segundo o Dr. Hampson. A amostragem do estudo ainda é relativamente pequena, claro, mas pavimenta o caminho para novas pesquisas. Segundo Hampson, o objetivo agora é replicar os resultados em amostras para tentar decodificá-las e compará-las com os códigos de pessoas que não têm epilepsia. A equipe está otimista, já que, com esses avanços, há grande potencial de controle de doenças como traumas e derrames cerebrais, perda de memória (incluindo Alzheimer) e várias outras doenças psiquiátricas.

Elon Musk entra no jogo

O visionário e excêntrico CEO da Tesla e da SpaceX também já andou explorando a neurotecnologia e prometeu, no ano passado, anunciar sua nova empreitada com a Neuralink — empresa disposta a desenvolver interfaces capazes de transformar pessoas comuns em superumanos. Ele está, com mais oito sócios, planejando lançar no curto prazo um dispositivo que permitiria conectar o cérebro a um computador e tornar seres humanos altamente competitivos com inteligências artificiais avançadas.

O anúncio foi feito no memorável episódio do podcast "Joe Rogan Experience", no qual Musk deu uns tragos em um cigarro de maconha e teve repercussão negativa a perder de vista com a atitude.

No trecho abaixo, Musk fala sobre inteligência artificial, robótica e o tal link neural: "Você já é um ciborgue".

 

Implantes de memória daqui a 10 anos

Segundo Laurie Pycroft, pesquisador do Departamento de Cirurgia da Universidade de Oxford, Inglaterra, a tecnologia está mais próxima do que se imagina. "Eu não me surpreenderia nem um pouco se um implante de memória fosse comercializado nos próximos 10 anos", prevê. Daqui a mais ou menos 20 anos, a tecnologia poderá ter evoluído tanto a ponto de permitir a captura de sinais elétricos do cérebro responsáveis por construir nossa memória, e além do mais, turbiná-la. Como se fosse um SSD externo do cérebro, só que interno.

Mas há consequências, e graves: segundo Pycroft, como em toda tecnologia, há o risco das memórias serem, sim, "hackeáveis".

Hackers de memórias humanas: novo patamar do cibercrime

É incrível a velocidade de evolução de cibercriminosos ao redor do mundo. A cada nova tecnologia, há especialistas ocultos tentando burlá-las e aplicando técnicas de invasão cada vez mais aprimoradas. Se descobrirem o código de um sistema de memórias humanas, será um prato cheio para invadir o cérebro de pessoas e sequestrar suas experiências.

Basta invadir um mecanismo de um neuroestimulardor, revela Pycroft. Dali em diante, o hacker pode, por exemplo, modificar as configurações dos sistemas atuantes em alguém com doença de Parkinson, por exemplo, e influenciar seus pensamentos, atitudes e comportamento. Ou até pior: bloquear seus efeitos e/ou causar paralisia temporária.

Outra ameaça pode envolver algo tão grave quanto deletar ou sobrescrever as memórias de alguém em troca de dinheiro. A Dark Web está aí para isso, não é mesmo?

Não estamos tão longe de Black Mirror (Screenshot do episódio Arkangel - S04E02/Netflix)

São infinitos os cenários para a prática do cibercrime na neurotecnologia, e num futuro nem tão distópico assim, haveria a possibilidade de um grupo de hackers invadir, por exemplo, o hospital de Washington e coletar as memórias valiosíssimas dos veteranos de guerra tratados com implantes cerebrais por lá.

Acha isso muita loucura? Pois saiba que, em um experimento conduzido em 2012, pesquisadores da Universidade de Oxford e da Universidade de Berkeley conseguiram adivinhar senhas de cartões bancários e dados pessoais apenas ao observar as ondas cerebrais de pacientes usando uma espécie de headset de realidade virtual.

Mais trabalho para as empresas de cibersegurança

Como acontece com as tecnologias que já conhecemos, a única maneira imaginável de proteger os dados das memórias dos pacientes seria com criptografia pesada. Para mitigar os riscos, as empresas de cibersegurança terão que pensar em um dispositivo ou sistema capaz de proteger bem os usuários.

Por mais incipiente que a tecnologia esteja, não é exagero pensar em formas de proteção. Updates, firmwares, patches e todos os recursos possíveis podem auxiliar como barreira aos hackers, além, claro, da conscientização tanto de médicos quanto de pacientes envolvidos.

Segundo Dmitry Galov, pesquisador júnior de segurança da Equipe de Pesquisa e Análise Global da Kaspersky Lab, a estimulação cerebral profunda desses dispositivos já está sendo pesquisada. Temos na literatura vários estudos que já nos mostram que esse novo tipo de abordagem neurotecnológica pode influenciar ou mesmo controlar memórias.

"É necessário ser extremamente preciso e cuidadoso com essa técnica", avalia Galov. "Por exemplo, um implante neurológico precisa ser controlado pelos médicos em situações de emergência, inclusive quando o paciente é levado repentinamente a um hospital longe de sua residência. Isso impossibilita o uso de qualquer senha não conhecida amplamente entre os médicos. Isso também quer dizer que, por padrão, esses implantes precisam ter um ‘backdoor’ de software instalado".

Alguns dispositivos, inclusive, contam com programas críticos de software com senhas padrão — as mesmas usadas para navegar na web ou acessar aplicativos adicionais.

Implante cerebral flexível usado em laboratório para tratar paralisia motora em roedores (Via ScienceNews)

Agora a coisa ficou séria

Sim, isso realmente parece ter sído de um roteiro de série de ficção científica. Mas o risco não é iminente; ele já existe e pode causar danos irreparáveis em mera questão de tempo.

"É fundamental resolver essas áreas vulneráveis, pois estimamos que, nas próximas décadas, neuroestimuladores mais avançados e um conhecimento mais profundo de como o cérebro humano forma e armazena memórias vão acelerar o desenvolvimento e a utilização dessa tecnologia, além de criar novas oportunidades para invasores cibernéticos. As novas ameaças decorrentes disso poderiam incluir a manipulação em massa de grupos por meio de memórias implantadas ou apagadas sobre eventos ou conflitos políticos; enquanto ameaças cibernéticas ‘adaptadas’ poderiam visar novas oportunidades de espionagem cibernética ou o roubo, ou até mesmo a exclusão ou o ‘bloqueio’ de memórias (por exemplo, em troca de um resgate)", alerta o pesquisador.

E o processo de segurança vai além do que imaginamos, já que as ameaças podem ser divididas em três partes:

  • As que violam a privacidade;
  • As que compromentem a integridade de dados;
  • As que atacam a disponibilidade de tais dados.

À medida que a tecnologia avança, abre duas vias: a da exploração benéfica em áreas muito complexas, como a da neurociência; e a da criação de novas formas de cibercrime envolvendo os mais recentes avanços, com hackers "especialistas" em burlar sistemas de implantes cerebrais. Mas, assim como sistemas de computadores, se uma porta para o cibercrime se abre, uma muralha de segurança pode e deve ser construída para evitar vazamento de dados.

Qualquer sistema pode conter brechas — e essa máxima envolve a neurotecnologia

Se existirá ameaça, existirá proteção

O que vemos hoje no campo da tecnologia e da medicina é uma base para uma tecnologia naturalmente mais complexa, evoluída e amadurecida que existirá nos próximos 10 a 20 anos. Cabe às empresas de segurança avaliar bem o cenário, com muito trabalho e pesquisa, para mitigar os danos ou até mesmo evitá-los. E isso será feito em conjunto com especialistas de cada área envolvida, dada a rede de possíveis vulnerabilidades.

"Embora não tenham sido observados ataques sobre neuroestimuladores em campo, existem pontos fracos que não serão difíceis de explorar. Precisamos reunir profissionais da área de saúde, do setor da cibersegurança, bem como fabricantes para investigar e atenuar todas as possíveis vulnerabilidades – tanto aquelas que observamos hoje quanto as que surgirão nos próximos anos. Sendo assim, colaborar para entender e resolver os riscos e as vulnerabilidades emergentes, além de fazer isso enquanto a tecnologia ainda é relativamente nova, vai valer a pena no futuro", conclui, otimista, Galov.

Fonte: Live Science, Wired, Kaspersky Lab, ScienceNews

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