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Por que esses cientistas usam tardígrados como projéteis em armas?

Por  • Editado por  Patricia Gnipper  | 

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NPS/Diane Nelson
NPS/Diane Nelson

Os tardígrados, também conhecidos como ursos d'água, são as criaturas mais resistentes da Terra, encontrados em ecossistemas terrestres e aquáticos. São capazes de sobreviver a condições extremas como baixas temperaturas, falta de oxigênio e até mesmo ao vácuo do espaço e à radiação cósmica. Eles o fazem entrando em uma espécie de modo de repouso, até que as condições do ambiente sejam favoráveis à sua sobrevivência. Em uma nova pesquisa, cientistas usam os tardígrados como se fossem balas de uma arma para avaliar qual o limite da força de impacto que esses pequenos seres podem aguentar. O objetivo era entender onde e como este e outros organismos semelhantes poderiam sobreviver pelo Sistema Solar.

Pode parecer loucura usar um organismo tão minúsculo fazendo as vezes de uma bala de disparo, mas esse experimento tem um fundamento plausível. Em 11 de abril de 2019, a espaçonave israelense Beresheet estava programada para ser a primeira do país a pousar na superfície lunar, mas, por falhas técnicas, a nave se espatifou no chão da Lua ao tentar pousar. Dentro dela, havia uma espécie de backup da humanidade contendo diversos arquivos com conhecimentos e espécies da Terra, incluindo milhares de tardígrados. Diante da grande resistência desses organismos, eles podem muito bem ter sobrevivido ao impacto, mas qual seria o limite dessa força para que eles sobrevivessem?

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Para a astrobiologia, essa informação é muito importante. Por exemplo, segundo a hipótese da panspermia, a vida pode ter sido distribuída pelo universo ao ser transportada por cometas e asteroides, quando eles se chocam contra mundos propícios ao desenvolvimento da vida. Ou seja: algo similar pode ter acontecido com a colisão da Beresheet, levando os tardígrados para a superfície da Lua. Mas falta saber se eles sobreviveram à grande força de impacto. Por isso, a astroquímica Alejandra Traspas e o astrofísico Mark Burchell, os dois da Universidade de Kent, no Reino Unido, criaram uma experiência para testar este limite.

O astrofísico Burchell é especialista em impactos de hipervelocidade e seu departamento tem uma arma de gás leve de dois estágios, usada para acelerar projéteis. Primeiro a pólvora, e depois gás hélio ou hidrogênio pressurizados, são usados para atingir a uma velocidade de 8 km/s. Como projéteis, os pesquisadores usaram cerca de três tardígrados de uma espécie de água doce, mas antes todos eles foram congelados para serem induzidos ao estado de hibernação. Então eles foram disparados contra alvos de areia em uma câmera de vácuo, a uma velocidade entre 0,556 a 1 km/s.

Como controle, a equipe usou 20 tardígrados que também foram congelados, mas não foram disparados. Enquanto isso, os ursos d’água usados como projéteis foram isolados para serem observados e, assim, determinar quanto tempo eles levariam para se sair do estado de hibernação. Os organismos de controle levaram entre 8 e 9 horas para se recuperar do congelamento; já os que sofreram com o impacto, sobreviveram até a velocidade de 0,825 km/s, mas demoraram um pouco mais para saírem do modo de repouso — o que sugere danos internos.

Com isso, os pesquisadores concluíram que os tardígrados podem sobreviver a impactos de até 0,9 km/s, mas velocidades acima disso provocam sérios danos aos organismos. Essa informação estabelece alguns limites quanto à sua capacidade de sobrevivência: apesar de essa pesquisa não ter relação alguma com os tardígrados do acidente com a Beresheet na Lua, seus resultados revelam a velocidade antes do impacto, cerca de 0,1343 km/s na vertical e 0,9467 km/s na horizontal.

Os pesquisadores não ficam surpresos pela capacidade de sobrevivência dos tardígrados em eventos de grande choque, mas, para eles, a peculiaridade aqui pode ser a recuperação e a sobrevivência deles após tais impactos. Em pesquisas futuras, os cientistas esperam fazer observações contínuas desses ursos d’água após serem disparados para determinar o quanto isso afeta seus organismos.

A pesquisa foi integralmente publicada no periódico científico Astrobiology.

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Fonte: ScienceAlert