Cuidado com a pesquisa leiga! Saiba como interpretar artigos científicos

Por Patrícia Gnipper | 10 de Setembro de 2020 às 20h00
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"Nós vivemos em uma sociedade primorosamente dependente da ciência e da tecnologia, em que quase ninguém entende nada sobre ciência e tecnologia". Esta declaração brutalmente honesta foi dada por Carl Sagan em um artigo publicado em 1990 na revista Science Education, mas poderia facilmente ter sido proferida agora, em 2020, pois continuaria extremamente válida.

Estamos falando, claro, da população geral, a grande massa que pode ser dividida em, essencialmente, dois grupos: aquele que não se preocupa em checar informações e sai compartilhando tudo o que recebeu de bombástico em grupos de WhatsApp, e aquele que recorre ao Google para fazer sua própria pesquisa em busca de confirmações ou negativas. E ambos os comportamentos podem ser perigosos — em alguns casos, até mesmo mortais, como em questões envolvendo saúde, por exemplo.

Quem levanta essa bola é Ethan Siegel, Ph.D em astrofísica e comunicador científico premiado, que alimenta o blog Starts With A Bang no site da Forbes. Ali, ele diz o seguinte: "você não deve fazer sua própria pesquisa quando o assunto é a ciência". Mas, calma, pois nós não estamos concordando que não se deve pesquisar assuntos científicos se você não for um cientista! Ele inicia sua reflexão explicando que "as técnicas que a maioria usa para reunir informações, avaliá-las com base no que se sabe e escolher um curso de ação podem levar a fracassos espetaculares quando se trata de uma questão científica". Em outras palavras: os critérios que as pessoas usam para validar informações por aí não devem ser os mesmos quando se fala em informações científicas.

É que a maioria das pessoas simplesmente não tem uma expertise científica suficiente para avaliar, adequadamente, os resultados das pesquisas feitas por conta própria, entre tantas informações muitas vezes divergentes e até mesmo sensacionalistas. "Quando leigos defendem opiniões sobre esses assuntos, fica imediatamente claro, para nós, onde estão as lacunas em seu entendimento e onde eles se enganam em seu raciocínio", diz Siegel.

Por que há perigos na pesquisa leiga

(Imagem: Reprodução/Caio/Pexels)

Na visão de Siegel, "a experiência científica necessária para compreender quaisquer descobertas ou afirmações no contexto de conhecimento de um campo científico" é um ativo importante que justamente falta na hora de pessoas leigas avaliarem os resultados de uma busca. E, mesmo que o leigo seja dotado de um pensamento crítico apurado, ainda há riscos aqui, justamente pela falta da experiência científica servindo como a base desse senso crítico.

"Achamos que, apenas aplicando nossa inteligência e nossas habilidades de raciocínio crítico, podemos discernir quais opiniões de especialistas são confiáveis ​​e responsáveis, achamos que podemos ver quem é um charlatão e uma fraude, que podemos diferenciar o que é seguro e eficaz do que é perigoso e ineficaz. Mas, para quase todos nós, não podemos", diz. Por isso, o cientista aponta um caminho mais acertado para que as pessoas façam pesquisas envolvendo assuntos científicos de maneira menos perigosa. Ele aponta o valor do consenso científico, que só existe quando a maioria dos profissionais qualificados em um determinado assunto mantêm a mesma visão sobre aquilo.

Ou seja: vale mais pesquisar sobre o que cientistas de um campo específico estão falando sobre o assunto do qual você tem dúvidas, e se guiar pelo consenso, do que tentar tirar suas próprias conclusões sem considerar o que os experts estão concordando ou discordando entre si. "É absolutamente tolo pensar que você, um não especialista que não tem os conhecimentos científicos necessários para avaliar as afirmações de especialistas, fará um trabalho melhor do que os especialistas reais e genuínos em separar a verdade da ficção ou fraude", acredita.

Um bom exemplo disso é a questão das vacinas. "A ciência indica de forma esmagadora que as vacinas são uma das intervenções de saúde pública mais seguras já realizadas pela humanidade. Mas se você fizer sua própria pesquisa, encontrará uma pequena porcentagem de ativistas online — e até mesmo alguns profissionais da medicina — que protestam contra o consenso da ciência, promovendo alegações desacreditadas, medo e também curas ou suplementos não comprovados", diz.

Outro exemplo que vale a pena ser citado é o das mudanças climáticas. A ciência já tem muito bem compreendidos fatos como: a Terra está esquentando, os padrões climáticos locais estão mudando e a concentração de gases na atmosfera também está sendo alterada — tudo isso impulsionado pela emissão de gases de efeito estufa pelos humanos. "Isso é cientificamente conhecido e aceito pelo consenso de cientistas climáticos há mais de 30 anos, e ainda assim uma campanha de desinformação semeia dúvidas suficientes para qualquer um que esteja determinado a fazer sua própria pesquisa". Ao pesquisarmos sobre o assunto, é fácil encontrar muitos resultados que concordam com a linha de pensamento conspiratória sobre o tema.

A pesquisa leiga em tempos de COVID-19

(Imagem: Reprodução/mohamed Hassan/Pixabay)

2020 é um ano especialmente polêmico quando o assunto é fazer pesquisas científicas enquanto pessoa leiga. Estamos em plena pandemia do novo coronavírus, em um momento extremamente crítico para todo o mundo, que já soma mais de 27 milhões de casos da doença, com mais de 900 mil mortes causadas por ela. E pelo fato de o SARS-CoV-2 ser um vírus novo e desconhecido até o final do ano passado, a ciência também não tem muitos martelos batidos sobre ele, bem como sobre a doença que ele causa — a COVID-19.

Ou seja: a pandemia é um prato cheio para a polarização do assunto. De um lado, cientistas fazendo descobertas e levantando hipóteses a serem verificadas; do outro, a população ansiosa por uma luz no fim do túnel fazendo suas próprias pesquisas sobre o tema. E em meio a esse furacão, a desinformação corre solta, com as pessoas sendo vítimas de pesquisas que, pela falta do conhecimento científico, acabam validando visões perigosas sobre a doença.

Ainda que exista muito a se aprender sobre a COVID-19 e o novo coronavírus, especialistas já chegaram a alguns consensos a respeito. Entre eles, podemos citar coisas como: a transmissão ocorre pelo ar, sendo mais intensa em ambientes fechados; pessoas mais velhas e com problemas respiratórios pré-existentes têm maior probabilidade de ficarem gravemente doentes (e de chegarem a óbito); o uso de máscaras reduz o risco de transmissão do vírus; distanciamento e isolamento social são medidas eficazes para reduzir a transmissão; lavar as mãos com água e sabão, bem como promover a higienização com álcool gel, ajuda a eliminar o vírus de superfícies.

No entanto, mesmo esses fatos citados acima, nos quais não há mais dúvidas científicas, ainda geram controvérsia — e uma pesquisa leiga pode, perigosamente, colocar vidas em risco. Digamos que alguém que não está convencido da eficácia do uso de máscaras pesquise por isso no Google. Essa pessoa vai acabar encontrando publicações que validam suas suspeitas, o que pode se tornar a confirmação que aquela pessoa precisava para andar sem máscara por aí (colocando a si mesmo e aos demais em risco). "Não se engane: você não está fazendo pesquisas. Você está apenas buscando informações para confirmar seus próprios preconceitos e descreditar quaisquer opiniões contrárias", diz Siegel.

Mais uma vez, enquanto não-cientistas, ao fazermos uma pesquisa própria sobre assuntos científicos no Google, devemos, sim, considerar diferentes pontos de vistas apontados por especialistas, mas o mais importante é priorizarmos o que é consenso entre os experts naquele campo do conhecimento. "Os melhores cientistas do mundo — mesmo aqueles que têm suas próprias crenças contrárias —, todos concordam que devemos basear nossas políticas no consenso científico que alcançamos. Quando esse consenso muda, evolui ou avança porque aprendemos mais do que sabíamos anteriormente, devemos corrigir o curso para seguir esse novo caminho", finaliza Siegel.

Por que ler artigos científicos, além de publicações midiáticas sobre ciência?

(Imagem: Reprodução/holdentrils/Pixabay)

Ao pesquisarmos por assuntos científicos no Google, os resultados em destaque costumam ser, claro, as matérias e notícias publicadas na mídia ou em blogs temáticos. Essas publicações se baseiam em estudos e descobertas feitas por cientistas, que as divulgam em artigos científicos — estes publicados em periódicos especializados. Ou seja: ao formular suas visões sobre um determinado assunto apenas com base em publicações feitas por não-especialistas, que usaram como fonte os artigos científicos originais, há o risco de cair em armadilhas sensacionalistas, pseudoinformativas e com opiniões pessoais embutidas ali. Afinal, o autor do texto precisou interpretar o artigo científico original — isto é, quando isso é feito de fato.

É interessante, sim, acompanhar essas publicações; afinal, existem veículos por aí que justamente têm como missão "mastigar" o conhecimento científico às massas — como é o caso do Canaltech, por sinal. Contudo, é importante também verificar o artigo científico original, para descobrir exatamente o que os especialistas publicaram e, assim, identificar possíveis desvios cometidos na publicação "mastigada". Ler um artigo científico é algo bastante diferente de ler uma matéria sobre o mesmo tema, e esses artigos podem parecer verdadeiros hieroglifos para os mais leigos. Então como compreender o que está escrito em artigos científicos, enquanto não-cientistas?

Bom, antes de qualquer coisa, é preciso ter em mente que existem diferentes tipos de artigo científico, incluindo artigos de revisão e artigos de pesquisa primária. Os de revisão são os que fornecem uma visão geral sobre o assunto abordado, resumindo dados e fornecendo conclusões — conclusões essas que podem abranger resultados de outros estudos, de maneira sintetizada. É esse tipo de artigo que pode ser mais facilmente absorvido pelo público não-cientista, pois geralmente trazem informações mais básicas do que os artigos de pesquisa primária.

Por outro lado, os artigos de pesquisa primaria contêm os dados originais da pesquisa e as conclusões dos pesquisadores diretamente envolvidos no experimento, além de trazerem detalhes sobre como tais experimentos foram realizados. Esse tipo de artigo é aquele que deve ser consultado quando se precisa obter mais informações sobre o tema, diretamente na fonte, uma vez que traz os dados originais a serem interpretados.

Vale dizer que artigos científicos oficiais costumam ser revisados por pares, e podem existir várias revisões de diferentes autores, dando uma perspectiva completa daquele assunto. Enquanto isso, muitos outros artigos que acabam caindo na mídia ainda estão em processo de revisão — e esse é um ponto importante quando falamos em artigos científicos; afinal, um artigo que ainda não foi revisado pode acabar sendo completamente refutado após a revisão e, portanto, basear seu conhecimento sobre um assunto apenas em artigos sem a revisão de pares pode ser um tanto quanto arriscado.

Também é importante observar, antes de ler qualquer artigo científico, o nome das instituições às quais os autores são afiliados. Muitas são internacionalmente respeitadas, enquanto outras parecem instituições legítimas, mas apenas parecem, sendo, na verdade, orientadas por interesses escusos (incluindo comerciais). Por fim, o periódico no qual o artigo foi publicado também é relevante: enquanto uns são respeitados em toda a comunidade científica, outros são famosos por não terem lá muita credibilidade.

Estrutura de um artigo científico

Se você estiver lendo um artigo de revisão, a compreensão fica mais simples, já que, como explicamos acima, eles já fornecem uma visão geral sobre o assunto e uma conclusão resumida. Já se tiver se deparado com um artigo de pesquisa primária, é preciso entender melhor sua estrutura antes de tentar interpretar os dados que estão ali.

Artigos de pesquisa primária costumam ser divididos em seis seções principais: resumo, introdução, materiais e métodos, resultados, conclusão/discussão e referências. Cada uma dessas seções tem um propósito específico e deve ser interpretada de uma maneira.

  • Resumo: como o nome já diz, é um resumo do assunto do artigo. Normalmente destaca os pontos principais do artigo e antecipa os resultados mais relevantes dos experimentos, dando uma visão geral das conclusões dos autores;
  • Introdução: aqui, ficam as informações básicas sobre o assunto do artigo, apresentando as questões que serão abordadas pelos autores no decorrer do documento. Uma dica: se a introdução parecer alienígena para você, certamente o restante do artigo também não fará sentido. Caso isso aconteça, é melhor procurar um artigo de revisão sobre o mesmo assunto;
  • Materiais e métodos: esta seção traz os detalhes técnicos de como os experimentos foram realizados para tal estudo, ou seja, é a parte do artigo que permite compreender exatamente como os autores conduziram seu trabalho;
  • Resultados: talvez esta seja a seção mais valiosa, ainda que complicada, quando se fala em artigos de pesquisa primária, pois é aqui que ficam os dados do experimento com textos descritivos — ao menos dos dados mais importantes;
  • Conclusão/Discussão: aqui entram as opiniões dos autores do artigo, e é onde eles tiram conclusões sobre os resultados apresentados na seção anterior. Importante lembrar que as discussões são as interpretações dos autores, não sendo, necessariamente, fatos;
  • Referências: por fim, a seção de referências é onde fica a lista de referências usadas pelos autores em seu artigo, incluindo livros, revistas, outros artigos científicos, etc.

Dicas para interpretar um artigo científico

(Imagem: Reprodução/gagnonm1993/Pixabay)
  • Leia primeiro a introdução, em vez de começar resumo. Apesar de o resumo normalmente vir antes da introdução, e de uma pessoa leiga pensar que seria melhor já ir direto ao "resumão", a introdução vai mostrar que questões são abordadas no artigo e dar explicações que podem servir como uma base para se compreender o resumo de maneira menos tendenciosa;
  • Identifique o problema. Em vez de pensar "sobre o que este artigo fala?", pense "qual o problema que este artigo tenta resolver?". Esse exercício de questionamento ajuda o leitor a guiar sua leitura com o foco mais acertado;
  • Dê atenção à seção de resultados, investindo um tempo a mais para compreender, de fato, o que consta nas figuras, tabelas e gráficos ali presentes. Interpretar dados é uma tarefa que pode ser considerada complicada por muitos, mas é justamente nos dados que estão "escondidos" detalhes importantes;
  • Descubra se os resultados respondem, de fato, as perguntas levantadas na introdução;
  • Não dispense a seção de discussão só porque ali podem ter vieses pessoais dos autores. É importante conhecer diferentes pontos de vista — até porque é analisando esses diferentes pontos de vista que seu entendimento sobre um assunto ficará cada vez mais refinado;
  • Releia o resumo. Quando terminar de ler todas as seções do artigo, vale voltar ao início e dar uma nova atenção ao resumo, para descobrir se o que consta ali realmente condiz com o que os autores exploram no documento;
  • Pesquise a opinião de outros pesquisadores sobre o artigo, e também pesquise o nome dos autores do artigo para descobrir se eles são respeitados por aí.

*Com informações de Starts With a Bang, Science Education, Violent Metaphors e Science Buddies

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