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A internet acha que humanos viveram com dinossauros graças a esta pintura

Por| Editado por Luciana Zaramela | 19 de Janeiro de 2024 às 19h46

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Pieter Bruegel, o Velho/Domínio Público
Pieter Bruegel, o Velho/Domínio Público

É comum aparecerem na internet supostas provas de “viajantes do tempo”, sejam pessoas com itens que não deveriam ser de sua época ou celulares milenares sendo encontrados em escavações. A mais recente “farsa histórica” é bem mirabolante: trata-se de uma pintura renascentista onde estariam representados dinossauros muito antes da descoberta dos primeiros fósseis.

Segundo uma página de “história alternativa”, há cerca de 500 anos, os gigantes do passado estavam entre nós, como nos Flintstones. A prova? Uma pintura de um tal de “Peter-Bruce Gale” de 1562, feita 300 anos antes do ser humano descobrir qualquer coisa acerca dos dinossauros, ou seja, antes mesmo de termos cunhado esse termo para os bichos. Confira o post original abaixo:

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Na pintura, são vistos humanos montando no que parecem ser braquiossauros, ou o dino pescoçudo de sua escolha, como se fossem cavalos. Não há provas ou evidências além disso. Mas se isso não for prova de que os dinossauros viveram entre nós, então o que seriam as criaturas da imagem?

O que eram os dinossauros renascentistas?

Para começar a desmentir a postagem, primeiro precisamos falar sobre a pintura em si. Não há um pintor com o nome Pete-Bruce Gale — o autor da obra é, na verdade, Pieter Bruegel, o Velho, um pintor flamenco que estava representando eventos bíblicos. O cenário em questão é o suicídio do rei Saulo após ser derrotado pelos filisteus no monte Gilboa.

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A única informação correta é, basicamente, a data. O trabalho é de 1562, e a explicação para os animais bizarros está provavelmente no fato de que Pieter Bruegel nunca havia visto um camelo na vida. O animal está presente na descrição bíblica envolvendo Saulo, e o pintor deve ter tentado representá-los com base em relatos de viajantes ou outras obras pouco precisas.

Também podemos apontar que os soldados estão usando armaduras medievais europeias, armas ocidentais e viajando em um cenário muito mais europeu do que do oriente médio. Esse tipo de anacronismo não era raro em obras da época — Bruegel se inspirou em artistas que fizeram o mesmo, como Albrecht Altdorfer, tanto porque o contratante havia pedido que a obra fosse assim quanto por não se importar com a precisão histórica do fato representado.

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Na época de Bruegel, a Europa se via em constante conflito contra os turcos otomanos, e o fato dos soldados filisteus de Saulo lembrarem europeus e os soldados israelitas lembrarem turcos pode ser um aceno a isso — uma representação anacrônica que diz algo sobre o mundo moderno, um aspecto cíclico da história. Outras obras bíblicas de Bruegel também têm essa característica.

Além disso, em um tempo no qual viagens eram difíceis e as possibilidades de registrar momentos e criaturas eram muito limitadas, relatos orais eram o que havia para tentar representar o mundo — Bruegel não era ignorante, e havia viajado para Roma e Sicília para estudar a arte da pintura, mas, como nunca foi para o Oriente Médio e provavelmente não estudou a fundo os costumes, roupas e animais do local, simplesmente não saberia representá-los. Por outro lado, ele pode nem ter se importado com isso.

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Vale lembrar que os camelos não são os únicos a terem sofrido com a falta de conhecimento de artistas do passado: leões, elefantes, morcegos e muitos outros animais acabam sendo representados de maneiras cômicas e curiosas. Vamos deixar alguns exemplos nesta matéria e lembrar que, em uma ilusão de ótica fofa e vagamente relacionada à confusão da pintura, quatis parecem dinossauros quando você retrocede filmagens deles.

Fonte: IFLScience