Apagão 3G nos Estados Unidos: Qual o impacto na América Latina?

Apagão 3G nos Estados Unidos: Qual o impacto na América Latina?

Por José Otero | 15 de Março de 2022 às 10h00
Jeremy Bezanger/Unsplash

Quando me perguntam como eu classificaria a chegada da 5G nos mercados da América Latina e Caribe, minha resposta é: "vejo como uma ruptura do modelo tradicional de se fazer negócios. A 5G implica em uma mudança de paradigmas". Raramente recebo uma pergunta adicional que busca esclarecer a que me refiro, visando especificar a mudança que essa nova tecnologia sem fio viabilizará.

No entanto, como nada acontece de repente, é sempre importante pensar no contexto atual, no passado próximo e no futuro que você deseja alcançar. 5G é a tecnologia que servirá de plataforma de lançamento para o famoso mundo da Internet das Coisas (IoT, na sigla em inglês). Graças a ela, que permitirá conectar até um milhão de dispositivos por quilômetro quadrado, os custos de utilização de sensores para digitalizar processos serão bastante reduzidos. Modelos de negócios que até agora não eram rentáveis tornam-se extremamente interessantes, não só no nível do usuário final (que pode ser uma empresa), mas também como oportunidade de expansão do portfólio de produtos e serviços de players não tradicionais no mundo das telecomunicações. Estamos nos aproximando de um mundo onde os dispositivos começarão a ser produzidos por empresas que podem não ter, atualmente, uma unidade de negócios dedicada. O mesmo pode ser dito para aplicativos, serviços em nuvem e análises.

O novo mundo prometido há décadas, finalmente possibilitado pela 5G, é o da digitalização do nosso ambiente. A chamada “transformação digital”, tão almejada quanto distante, devido aos altos custos de sua implementação. Sensores que, durante décadas, foram usados ​​de forma limitada, nos próximos anos alcançarão economias de escala que irão acelerar seu uso. A 5G nos coloca às portas de uma onipresença tecnológica até agora vista apenas em filmes ou narrada em obras de ficção.

Por esse motivo, encaro a 5G como uma tecnologia que representa uma ruptura nos modelos de negócios tradicionais das operadoras móveis. O aumento do uso de sensores para ampliar a eficiência dos setores produtivos da economia é um elemento que impacta diretamente na exportação de produtos e serviços. A Costa Rica já nos avisou que o mundo globalizado do qual tanto ouvimos falar está aqui, especialmente para aqueles setores da economia voltados para a exportação e que não conseguem satisfazer sua oferta com a demanda local. Para eles, as demandas de digitalização são definidas mais pelas exigências dos seus clientes internacionais e pelo que seus concorrentes diretos fazem em outros mercados, do que pelo que acontece em seus próprios nichos. É preciso inovar no mesmo ritmo ou se corre o risco de se perder relevância nesse mundo cada vez mais digitalizado.

Da mesma forma, a 5G implicará no domínio de redes sem fio totalmente IP. Aquela qualidade que chegou aos mercados através da 4G, tecnologia LTE que, inicialmente, canalizava serviços como voz através de redes alteradas 2G e 3G, agora será acompanhada por uma nova geração tecnológica que melhora os serviços oferecidos. Testemunhamos, em muitos mercados da região, esse aumento de infraestrutura e cobertura de redes móveis sem fio (que também podem oferecer serviços fixos) totalmente IP, através de 4G — desde o México, com a criação de uma entidade constitucional para este fim, até a Colômbia, onde um segundo leilão 4G impulsionou a expansão da cobertura da população LTE.

5G será a mola propulsora para a Internet das Coisas (IoT) (Imagem: Rawpixel)

Esses esforços para expandir o LTE deram origem a novos modelos de negócios, que no Peru se materializam em áreas historicamente pouco atraentes para as operadoras por meio de uma rede 4G Open RAN, complementada pelo surgimento ainda incipiente de redes 5G na região. No momento, há um grande número de anúncios de lançamentos comerciais dessa nova geração sem fio. Na prática, apenas Chile, Brasil e Porto Rico parecem ser os únicos mercados que, após o anúncio do lançamento comercial da 5G, continuam a se expandir para outras localidades do país. Assim, a cada mês, cresce o número de cidades que possuem essa tecnologia.

O dilema da expansão

A expansão da 4G que ocorre em ritmo acelerado no momento e a entrada nos mercados 5G não são fenômenos isolados. Eles são acompanhados pelo apagão das redes 2G e 3G, conforme permitido pelo modelo de negócios da operadora, que depende das tecnologias usadas por sua base de clientes. O problema que muitas operadoras latino-americanas e caribenhas enfrentam, é que a grande maioria de seus assinantes não possui telefones que possam suportar a telefonia móvel oferecida por seu provedor de serviços. A alternativa é clara: usar aplicativos OTT para essa finalidade.

A solução para esse dilema é chamada de Voice over LTE (VoLTE), que possibilita aos usuários fazer chamadas telefônicas em uma rede IP, mas diferentemente daquelas feitas por meio de aplicativos de terceiros, com melhores níveis de qualidade de serviço. Para conseguir isso, você deve ter um telefone habilitado com essa tecnologia.

Infelizmente, na América Latina e no Caribe, surgiram opiniões equivocadas sobre a relevância do VoLTE nos últimos anos. Era normal ouvir em fóruns especializados do setor que o VoLTE não era necessário ou importante para as operadoras móveis regionais. Talvez no início, quando o custo dos aparelhos era inacessível e o apagão das redes móveis comutadas era algo distante, essas opiniões pudessem ter sido justificadas. Agora a realidade é outra. Devido à escassez de dispositivos VoLTE na massa de usuários móveis na América Latina, juntamente com a adaptação das redes de muitas operadoras para suportar o serviço, os apagões de redes móveis mais antigas (2G e 3G) pode ter que ser adiado em alguns casos. O simples fato das concessões para oferta de serviço móvel incluírem majoritariamente a oferta de telefonia móvel da concessionária torna esta oferta uma obrigação que, em ambiente IP como 4G e 5G, só pode ser cumprida com VoLTE.

Há também o fator externo. Em um mundo onde o mercado local já não é o único determinante da estratégia de implantação de novas tecnologias pelas operadoras de telecomunicações, o que acontece em outras geografias também tem seu impacto. Por exemplo, nos Estados Unidos, as três grandes operadoras móveis nacionais anunciaram o apagão de suas redes 3G em 2022. A primeira delas, AT&T, marcou para 22 de fevereiro, enquanto a T-Mobile anunciou que a extinta rede 3G CDMA da Sprint será encerrada em 31 de março, e a rede 3G UMTS em 30 de junho. A última a desligar sua rede 3G será a Verizon, em 31 de dezembro.

A primeira impressão é que são dinâmicas diferentes que não nos afetam. É justamente esse tipo de miopia que levou as pessoas a minimizarem a importância da VoLTE. Talvez com os problemas nos serviços roaming e itinerantes, que começarão a ser vistos no final de fevereiro de 2022 e que serão exacerbados no final de junho do mesmo ano, essas pessoas percebam que VoLTE é uma necessidade para, pelo menos, atender aos clientes de alta renda que viajam com frequência ao exterior ou visitantes que chegarão ao território latino-americano com telefones que podem não conseguir se conectar à redes já desmontadas em seus mercados de origem.

O maior golpe dessa nova realidade será sofrido pelos mercados da região que, historicamente, têm maior fluxo de turistas ou que o turismo representa um percentual significativo de sua economia. É possível citar Bahamas, Belize, Brasil, Jamaica, México, Peru ou República Dominicana como exemplos.

Felizmente, resta um pouco de tempo para que todos os telefones sem capacidade de se conectar a redes 2G e 3G desapareçam em mercados que já desligaram essas redes. As taxas de reposição que variam de 12 a 24 meses nos mostram um panorama que as operadoras da América Latina e Caribe têm pelo menos alguns anos para continuar conectando visitantes por roaming. O problema é ver como seus usuários de alto patrimônio líquido poderão permanecer conectados quando viajarem para esses mercados. Talvez, então, eles percebam que o VoLTE foi, e é, importante para as operadoras latino-americanas e caribenhas.

Esta coluna é escrita em caráter pessoal.

*Artigo produzido por colunista com exclusividade ao Canaltech. O texto pode conter opiniões e análises que não necessariamente refletem a visão do Canaltech sobre o assunto.

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