A Huawei e o 5G no Brasil teriam vida fácil no governo Biden, certo? Errado

A Huawei e o 5G no Brasil teriam vida fácil no governo Biden, certo? Errado

Por Rui Maciel | 11 de Agosto de 2021 às 09h10
Captura da imagem: Rui Maciel

Se existe uma empresa que penou nos quatro anos do governo de Donald Trump, essa foi a Huawei. Usada como símbolo da guerra comercial entre EUA e China, a companhia perdeu espaço no fornecimento de equipamentos de infraestrutura 5G em diversos países (principalmente na Europa, com destaque para o Reino Unido) graças à pressão norte-americana. Ela teve ainda sua CFO, Meng Wanzhou, presa no Canadá em dezembro de 2018, a pedido do governo Trump sob acusações de, burlar sanções em negociações com Irã. A executiva está detida, e em julgamento, até hoje.

Além disso, a companhia sofreu uma série de sanções junto aos fabricantes de semicondutores, impedindo que ela obtenha componentes sem uma licença especial — e isso inclui chips feitos por empresas estrangeiras, mas que foram desenvolvidos ou produzidos com software, ou qualquer outra tecnologia criada nos Estados Unidos. Resultado: a Huawei despencou no ranking de maiores fabricantes de smartphones do mundo, indo da segunda para quarta colocação, com 8,19% do mercado mundial segundo dados da Statcounter.

Sanções do governo dos EUA derrubaram a Huawei no mercado de smartphones (Imagem: Statcount)

Logo, quando Trump tentou a reeleição e acabou derrotado por Joe Biden, a Huawei, enfim, pode suspirar mais aliviada, certo? Afinal, o democrata é político dez mil vezes mais moderado que o republicano e esfriaria a temperatura entre as duas maiores economias do mundo.

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Bom, era o que quase todo mundo achava. No entanto, a pressão dos EUA em cima da China — incluindo a Huawei — se manteve nos mesmos patamares da era Trump. E isso pode atingir o 5G brasileiro.

A pressão dos EUA sobre o 5G brasileiro continua

Em visita ao Brasil na semana passada, Jake Sullivan, assessor de segurança nacional dos EUA, voltou a pressionar o governo brasileiro a vetar a Huawei na construção de sua rede 5G. Mais uma vez, ele levantou preocupações sobre os equipamentos da fabricante chinesa.

Em teleconferência realizada na última segunda-feira (9), Juan Gonzalez, diretor sênior do Conselho de Segurança Nacional para o Hemisfério Ocidental, disse que a entidade "continua preocupada com o papel potencial da Huawei na infraestrutura de telecomunicações do Brasil". Ele acrescentou ainda que a empresa enfrentava "grandes desafios" em sua cadeia de fornecedores de semicondutores que deixariam os clientes internacionais "confusos".

Durante a visita de Sullivan, o governo norte-americano teria acenado ainda que, caso o Brasil concorde em vetar o uso dos equipamentos da Huawei em seu 5G, os EUA ofereceriam apoio para que o país se torne um sócio global da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Em reunião com o presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Defesa, Walter Braga Netto, feita na última quinta-feira (5), o assessor teria reforçado que o apoio só ocorrerá se a fabricante chinesa for vetada da rede de quinta geração de dados móveis.

Jake Sullivan: assessor de segurança nacional dos EUA pressionou o Brasil para banir Huawei do 5G do país (Imagem: Wikipedia / 
National Security Council)


Atualmente, a Colômbia é o único país sul-americano com o status de sócio-global da Otan. Ter acesso a esse posto possibilitaria às Forças Armadas brasileiras adquirir armamentos das nações que fazem parte da entidade com condições especiais de pagamento.

No entanto, Juan Gonzalez afirmou que o Brasil "não se comprometeu com os EUA" em relação ao veto a Huawei, ou seja, não houve promessas nesse sentido. Ele também negou os relatos de que o governo norte-americano ofereceu apoio para que o Brasil se torne um sócio-global da Otan se a fabricante chinesa parasse de fornecer equipamentos. Segundo ele, os dois problemas não estavam relacionados e que não havia "quid pro quo".

“Apoiamos as aspirações do Brasil como parceiro global da OTAN como uma forma de aprofundar a cooperação em segurança ao longo do tempo entre o Brasil e os países da OTAN”, declarou durante a teleconferência. "No entanto, as autoridades americanas pediram que o Brasil e a Argentina construíssem indústrias nativas [de equipamentos para redes 5G]".

Rede privativa sem a Huawei não é suficiente

A visita de Sullivan não é o primeiro movimento de pressão do governo dos EUA sobre a Huawei no Brasil. Em julho deste ano, autoridades da gestão de Joe Biden já haviam afirmado que não incluir a fabricante chinesa na rede privada de comunicações do governo brasileiro não é o suficiente para que as preocupações com segurança sejam afastadas.

Segundo matéria do jornal Folha de S. Paulo, em junho deste ano, autoridades brasileiras foram aos EUA para conhecer as redes privativas norte-americanas. O líder da missão, o ministro das Comunicações, Fábio Faria, ouviu de representantes do governo Biden de que apenas a construção da rede fechada do governo federal não é o suficiente.

De acordo com especialistas dos órgãos visitados pela comitiva brasileira nos EUA, o problema com a Huawei vai além da mera segurança de comunicações internas do governo federal. Os americanos afirmam que empresas ligadas ao regime chinês são uma ameaça também às redes 5G comerciais, já que esta tecnologia tem o poder de ampliar a conectividade atual nos mais diversos setores.

Além disso, eles afirmaram que equipamentos da Huawei — e outros fornecedores considerados "não confiáveis" — em redes comerciais trariam um backdoor, uma porta de acesso ao sistema criada a partir de um programa instalado que não foi autorizado pelo proprietário da plataforma e que permite o acesso ao computador por pessoas não autorizadas. Com isso haveria riscos de interferências externas em diversos setores da economia, ameaçando inclusive segredos comerciais brasileiros.

A construção da rede privativa do governo federal está estimada em R$ 1 bilhão. No entanto, especialistas do setor de telecom e dos governos americano e brasileiro preveem que ela possa custar muito mais. Além disso, a infraestrutura em questão é um dos principais questionamentos feitos pelos auditores do Tribunal de Contas da União (TCU) para chancelar o edital que permitirá o leilão das frequências para o 5G.

Sem provas

Mesmo sob tantas acusações por parte dos EUA, é importante mencionar: até o momento, não foi comprovada nenhuma tentativa de espionagem ou brecha mais grave de segurança nos equipamentos da Huawei mundo afora. A empresa chinesa afirma contar com mais de 200 certificações de segurança para seus produtos de telecom e que se dispõe a abrir seus códigos-fontes a quem quiser verificar.

Inclusive, o ministro Fábio Faria, em visita à unidade da Huawei em Dongguan, no sul da China, no começo deste ano, conheceu dois dos principais laboratórios de cibersegurança da companhia — um dos pontos da empresa mais atacados pelo presidente Jair Bolsonaro na defesa do banimento da Huawei até o ano passado.

Esse setor de cibersegurança recebeu atenção especial do general Ivan Corrêa Filho, Comandante do Comando de Comunicações e Guerra Eletrônica do Exército e que representava o Ministério da Defesa na ocasião. Nas reuniões em torno do tema, a Huawei mostrou os laboratórios, quais os processos de cibersegurança realizados por ela e discorreu sobre os centros dedicados ao tema espalhados pelo mundo.

Fábio Faria: ministro das Comunicações visitou centros de cibersgurança da Huawei na China (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Segundo a fonte ouvida pelo Canaltech que esteve presente na comitiva pública que visitou a Huawei, a empresa foi aconselhada por um membro do governo a mostrar tudo relacionado a cibersegurança e que esse seria um tema central na visita. O governo conheceu o time de resposta a incidentes (PSIRT), como ele funciona e ainda quis saber se a empresa já enfrentou problemas de segurança ao redor do mundo, inclusive com backdoors.

A Huawei teria mostrado fisicamente que não enfrenta os problemas de segurança que são fonte de preocupação para o governo.

"Incidências e vulnerabilidades de segurança todo produto tem, mas backdoor é diferente, já que ele é fruto de um problema de código e a Huawei mostrou para o general Corrêa Filho como são tratados os códigos. A empresa abriu os códigos-fonte de seus produtos 5G na nossa frente para provar que não há backdoor", afirmou o membro da comitiva ouvido pelo site. "Tanto que na volta, o próprio Faria divulgou que todas as companhias visitadas atenderam aos requisitos de segurança do Ministério da Defesa".


Entre a Huawei e Biden, Bolsonaro vai com a primeira - a contragosto

Alinhado ideologicamente com o agora ex-presidente dos EUA, Donald Trump, o governo Bolsonaro vinha apresentando sérias resistências à participação da Huawei na construção da rede 5G no Brasil. O presidente brasileiro declarou apoio aos princípios do Rede Limpa, uma iniciativa global organizada pelo governo Trump para banir a tecnologia chinesa das redes de telecomunicações, principalmente a 5G e que já conta com a participação de diversos países e operadoras.

No entanto, com a escalada do número de mortos causada pela pandemia da COVID-19 no começo do ano, o governo brasileiro precisou "pegar mais leve" com a Huawei em relação à sua participação na construção da rede 5G. O objetivo era agilizar a importação de insumos para a fabricação das vacinas contra o coronavírus Sars-Cov-2. Na época, havia dificuldade para trazer os chamados IFAs.

Com isso, no final de janeiro, o relatório final com as regras do leilão das frequências 5G foi concluído por Carlos Baigorri, conselheiro da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), e não trazia nenhum impedimento à participação da Huawei.

Para completar, o governo Bolsonaro tem mais três motivos para facilitar a vida da Huawei no nosso 5G, mesmo a contragosto: a China é o principal parceiro comercial do Brasil; trocar os equipamentos da fabricante chinesa presentes na infraestrutura nacional de telecom pelo de outras empresas geraria um custo de dezenas de bilhões de reais, que as operadoras já avisaram que não vão assumir. E, por fim, o mandatário brasileiro, até hoje, não engoliu bem a derrota do republicano Trump para o democrata Biden nas eleições presidenciais dos EUA, e alega que houve fraude no pleito.

Com tudo isso, ficou mais fácil resolver o dilema.


Com informações de Reuters, Statcounter, Folha de São Paulo (1) (2)

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