A Huawei não quis participar da rede privada do governo? Não foi bem assim

Por Rui Maciel | 13 de Maio de 2021 às 09h10
Captura da imagem: Rui Maciel

No último dia 09 de março, o ministro das Comunicações, Fábio Faria, declarou que a Huawei não tem os requisitos necessários para participar da construção da rede privativa que será usada pelo governo federal brasileiro - e uma das condições para que as operadoras participem do leilão de frequências da tecnologia móvel, que deve acontecer até julho. As declarações foram dadas em audiência pública do grupo de trabalho (GT) criado pela Câmara dos Deputados para acompanhar a implantação da quinta geração de telefonia celular no Brasil.

Na ocasião, o ministro deixou claro que a fabricante chinesa, atualmente, não está apta a atender as condições exigidas pelo governo brasileiro. Isso porque ela teria de mudar a composição acionária para estar habilitada a vender equipamentos para a construção da rede privativa. Após viagem em fevereiro à China, ele avaliou ainda que a Huawei não tem interesse em participar do projeto.

No entanto, a coisa toda não foi bem assim. O Canaltech conversou com um membro do governo federal que esteve na comitiva que fez um tour nos países onde estão as sedes das fabricantes de equipamentos para a criação da infraestrutura 5G - Finlândia (Nokia), Suécia (Ericsson) e China (Huawei). Sob anonimato, ele relatou os bastidores da visita à companhia chinesa. E falou ainda que a Huawei foi "gentilmente retirada" da participação da rede privativa 5G estatal, ainda que a empresa nunca tenha dito que não tinha interesse em contribuir no desenvolvimento da infraestrutura em questão.

Nem apta e nem inapta

De acordo com a fonte ouvida pela nossa reportagem, o que está escrito no edital para construção desta rede privada não torna a Huawei apta. Mas também não a torna inapta a participar.

"A portaria 2.104 do Ministério das Comunicações, que foi incorporada no leilão, o que explica a obrigatoriedade da rede privativa, é muito vago. Ele tem um parágrafo citando compatibilidade com governança do mercado financeiro brasileiro. Isso é absurdamente vago e você não pode julgar uma empresa apta ou inapta a partir deste único parágrafo. Além disso, o próprio edital do 5G disse que haverá as regras específicas da rede privativa no futuro. Ou seja, é meio cedo para você julgar se uma empresa pode ou não participar de algo que ainda não está nem mesmo definido"

Na questão de que a Huawei não teria interesse em participar desta rede privada, nossa fonte acredita que a fala de Fábio Faria foi para minimizar a "temperatura" em relação ao impedimento da companhia chinesa. Na visita feita pelo ministro à China, a empresa nunca disse que não tinha interesse em participar da rede privada. "Não houve nem interesse, nem desinteresse" afirmou ele. "O ministro quis apenas apaziguar a questão".

Como foi a visita de Fábio Faria à sede da Huawei na China?

O membro da comitiva de Faria ouvido pelo Canaltech detalhou ainda a visita do ministro das Comunicações à sede da Huawei - na cidade de Shenzhen. A primeira reunião foi com o fundador da companhia, Ren Zhengfei, durou em torno de 40 minutos e teve um caráter mais institucional.

Na sequência, Faria visitou um dos principais showrooms da empresa, o EBG, focado em soluções da Huawei para o segmento corporativo, como telemedicina e smart cities. Na sequência, ele foi para um outro showroom, chamado de Galileo Exhibition Hall, que é um espaço focado apenas em 5G. Ele é dividido ao meio, com uma metade exibindo todos os equipamentos da Huawei pertencentes a este padrão (datacenter, antenas, soluções para cobertura rural, etc); e na segunda metade, as aplicações na indústria, como mídia, mineração, energia, entre outros.

Na sequência, a comitiva de Faria fez uma reunião executiva com o board da Huawei e que durou uma hora e meia. Nela foi falado sobre o processo do edital - que ainda não fora aprovado - e as verticais do 5G - agricultura, energia, mineração, entre outras. Nessa última, Faria teve interesse em saber quais ministérios seriam beneficiados com o 5G e também foi discutido sobre a infraestrutura da tecnologia.

Interesse especial do governo em cibersegurança

Após a visita a Shenzhen, Faria foi para o headquarter da Huawei em Dongguan, no sul da China e que é o novo centro de Pesquisa & Desenvolvimento (P&D) da companhia. Lá, a comitiva demonstrou um interesse especial, já que é nesse campus que estão dois dos principais laboratórios de cibersegurança - um dos pontos da empresa mais atacados pelo presidente Jair Bolsonaro na defesa do banimento da Huawei até o ano passado.

Esse setor de cibersegurança recebeu atenção especial do general Ivan Corrêa Filho, Comandante do Comando de Comunicações e Guerra Eletrônica do Exército e que representava o Ministério da Defesa. Nas reuniões em torno do tema, a Huawei mostrou os laboratórios, quais os processos de cibersegurança realizados por ela e discorreu sobre os centros de cibersegurança espalhados pelo mundo.

Segundo a fonte ouvida pelo Canaltech, a Huawei foi aconselhada por um membro do governo para mostrar à comitiva tudo relacionado a cibersegurança e que esse seria um tema central na visita. O governo conheceu o time de resposta a incidentes (PSIRT) e como ele funciona e ainda quis saber se a empresa já enfrentou problemas de segurança ao redor do mundo, inclusive com backdoors - portas de acesso ao sistema, que são criadas a partir de um programa instalado que não foi autorizado pelo proprietário da plataforma e que permitem o acesso ao computador por pessoas não autorizadas.

A Huawei teria mostrado fisicamente que não enfrenta os problemas de segurança que são fonte de preocupação para o governo. "Incidências e vulnerabilidades de segurança todo produto tem, mas backdoor é diferente, já que ele é fruto de um problema de código e a Huawei mostrou para o general Corrêa Filho como são tratados os códigos. A empresa abriu os códigos-fonte de seus produtos 5G na nossa frente para provar que não há backdoor", afirmou o membro da comitiva. "Tanto que na volta, o próprio Faria divulgou que todas as companhias visitadas atenderam aos requisitos de segurança do Ministério da Defesa".

Construção da rede privada pode custar R$ 1 bilhão. E não será 100% 5G 

Durante a audiência feita em março, Faria acrescentou que essa rede privativa seria construída por uma operadora privada e servirá não apenas ao Poder Executivo, como ao Congresso Nacional, ao Supremo Tribunal Federal (STF) e à Procuradoria-Geral da República (PGR).

“É como se todos nós tivéssemos nosso telefone normal, e os servidores de Brasília que trabalham no Congresso, no Executivo, no Supremo teriam um aparelho, e as informações sensíveis, que tenham algum tipo de risco se forem adquiridas por outros países, seriam preservadas”.

O ministro das Comunicações afirmou ainda que o governo não pretende arcar com os gastos de construir e gerir a rede, considerados muito altos pela pasta. De acordo com Faria, o valor estimado da rede será de R$ 780 milhões a R$ 1 bilhão.

“Não quero que o ministério faça isso, é um valor muito alto, é praticamente a quantia anual que temos na pasta”, explicou.

No entanto, a fonte ouvida pela nossa reportagem afirma que a rede privada desejada pelo governo federal não será apenas 5G, mas sim uma estrutura híbrida, o que inclui a rede móvel alocada em Brasília, bem como estrutura fixa dos órgãos estatais espalhados pelo Brasil. Ele declarou também que ainda não se sabe qual empresa será a responsável por gerir esse rede: pode ser a Telebrás, um órgão do governo ou mesmo uma empresa privada, caso haja interesse.

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