O que são as Fintechs e por que elas estão ganhando tanto espaço?

Por Rafael Romer | 06.05.2016 às 18:56

Globalmente, o setor financeiro tem passado por profundas transformações nos últimos anos: a internet e a mobilidade tornaram agências bancárias quase obsoletas, novas ameaças de ataques e de fraude obrigaram instituições a renovar sua segurança digital e tendências como nuvem e Big Data têm modificado a forma como serviços são entregues.

Mas agora, uma nova onda de empresas nascidas já na era destas transformações digitais promete trazer ainda mais mudanças e exigir mais agilidade das instituições financeiras tradicionais que quiserem se manter fortes no mercado. São as Fintechs.

De acordo com um estudo apresentado em abril pela consultoria de mercado Accenture, o investimento global na área de tecnologia financeira registrou um salto de 67% no primeiro trimestre deste ano em relação ao mesmo período do ano passado, atingindo a casa de US$ 5,3 bilhões. Em regiões como Europa e Ásia-Pacífico, o investimento em Fintechs chegou a dobrar no mesmo período.

"Empresas de Fintech são tipicamente aquelas que usam tecnologia de forma intensiva para oferecer produtos na área de serviços financeiros de uma forma inovadora", comentou ao Canaltech o Diretor Executivo e Líder de Inovação da Accenture, Guilherme Horn. "A inovação pode vir da tecnologia ou do modelo de negócios, e invariavelmente elas oferecem uma experiência diferenciada para o usuário, com processos simples e fáceis".

De acordo com Horn, a companhia ainda está desenvolvendo um estudo que analisará o crescimento destas empresas no Brasil, mas não é preciso ir muito longe para ver que a tendência também está se expandindo por aqui. Nomes como Nubank e o recém-lançado Banco Original começaram a atuar no Brasil nos últimos meses e já ganham espaço entres os consumidores nacionais baseados, principalmente, nos pilares de bom atendimento e boa experiência de usuário. Algumas estimativas de mercado apontam que hoje já existem mais de 130 fintechs brasileiras, 50% delas com planos de negócio já em atividade.

Mas apesar desse crescimento recente, a verdade é que as Fintechs não são necessariamente uma novidade. Empresas como a Enova, fundada em 2003, nos Estados Unidos, mostram que a preocupação em oferecer serviços financeiros mais ágeis e simples do que os de bancos tradicionais está no mercado há algum tempo.

A "Fintech-avó" entrou no Brasil há dois anos, quando começou a oferecer por aqui sua plataforma de empréstimos rápidos, a Simplic. Segundo Rafael Pereira, CEO da Enova no Brasil, a fintech identificou que consumidores brasileiros tinham apenas duas opções para conseguir empréstimos no por aqui: ou apelavam para bancos, com alto nível tecnológico, mas com experiências de usuário ruins, ou para as financeiras, que em geral não têm capacidade de investimentos em tecnologia.

Para preencher esse vácuo de oferta, a empresa implementou sua plataforma, que é entregue completamente online e oferece valores de empréstimo entre R$ 500 e R$ 2,5 mil utilizando mais de 200 fontes diferentes para fazer a avaliação de crédito com cliente – que vai desde cadastros tradicionais, como SPC e Serasa, até as redes sociais do usuário. Atualmente, a empresa tem cerca de 330 mil clientes no país e analisa 5 mil solicitações de crédito diariamente, com a expectativa de triplicar o valor até o final deste ano e atingir a marca de 1 milhão de clientes.

"Os bancos enxergaram a internet como uma plataforma de redução de custo, não de melhorar a experiência do cliente. As fintechs têm uma outra óptica: elas não têm custo para reduzir, então a gente olha como dar uma melhor experiência do cliente usando esse canal", explicou o executivo.

E por que estão crescendo?

Diversos motivos são citados por representantes da indústria de por que as fintechs têm ganhado tanta força nos últimos meses. No Brasil, uma das razões apontadas é o amadurecimento do ecossistema de inovação e investimento nos últimos anos, que agora sustenta a chegada de startups do sistema financeiro – afinal, o produto das fintechs é dinheiro.

Outro motivo é a própria regulamentação de arranjos de pagamento pela Banco Central, que teve início em 2013 e facilitou pagamentos através de celular e serviços como cartões pré-pago, tudo sem a intermediação de instituições financeiras.

Em dezembro do ano passado, a CelCoin foi uma das empresas que se aproveitaram da regulamentação e começou suas operações no país em fase beta, oferecendo uma "conta mobile" pré-paga para usuários não bancarizados realizarem pagamento de contas, recarga de celulares, compra de créditos para jogos ou até saque em caixas eletrônicos parcerios. A empresa, que tem um mercado forte no Nordeste do país, já registrou 30 mil clientes fazendo transações na plataforma e espera atingir 300 mil até o final do ano.

"A lei de meios de pagamentos deu uma segurança maior e acelerou novas fintechs", afirmou o CEO e fundador da CelCoin, Marcelo França. "A tendência é uma desintermediação dos serviços financeiros, com as fintechs atuando de formas cada vez mais especializadas – com cartões e pagamentos – e cada vez menos intermediadas, como no segmento de crédito, onde você não precisa mais de burocracia para viabilizar uma proposta".

Todos esses fatores, no entanto, não iriam muito longe se o mercado brasileiro não tivesse crescendo na penetração das principais ferramentas para habilitar esses novos serviços financeiros: os smartphones e a o acesso à internet. Para muitas das Fintechs, os dispositivos e a internet móvel são as principais plataformas de conexão com seus clientes, essenciais para a boa experiência de cliente que diferencia as fintechs de instituições financeiras tradicionais.

"A gente introduziu um modelo em que para o cliente entrar em contato com a gente ele não tem a necessidade de ir até um lugar físico", afirmou a CEO e fundadora do serviço de pagamentos através de maquininhas do tipo Chip&Senha Payleven, Adriana Barbosa. "A gente está presente em mais de 2,7 mil cidades, jamais teríamos uma capacidade de penetração assim se nosso modelo fosse tradicional. Isso garante que a gente tenha uma qualidade de serviço superior a um custo mais baixo".

A Payleven, que chegou ao Brasil em 2012 e agora se prepara para uma fusão com a alemã SumUp, é um dos exemplos do potencial de crescimento que a Fintechs possuem por terem nascido online e mobile. A empresa fechou o ano de 2015 com crescimento de 167% no número de clientes em 2014 e um aumento de 357% do volume transacionado em todo país. Com a fusão, a empresa agora se torna a terceira maior do setor no país, quatro anos após a fundação – com a expectativa de fechar o ano com 380 mil clientes no país.

Mercado financeiro está de olho

Por serem mais ágeis, simples e não precisarem lidar com tecnologias legadas, as fintechs, é claro, já chamam a atenção das instituições financeiras tradicionais por dois motivos principais: por um lado, há a preocupação de que elas podem comer parte de suas participações no mercado; por outro, há uma oportunidade para os bancos: trazer essas empresas para perto significa também agregar serviços mais ágeis e simples, avançando seus negócios. "Os bancos têm um papel importante e são a plataforma dominante do setor, não existe uma guerra entre Fintechs e bancos", avalia Rafael Pereira, da Enova.

E apesar do avanço das Fintechs, o clima realmente parece ser de colaboração, com fintechs fechando parcerias com instituições financeiras para ganhar experiência e receber investimentos mais rapidamente. Um exemplo foi o programa InovaBra, do Bradesco, que desde 2014 já interage com startups do setor. Mais recentemente, em setembro no ano passado, o Itaú lançou o espaço de co-work Cubo, que é capaz de abrigar até 50 startups e tem a ambição de se tornar um centro de discussão de tecnologia e de inovação em São Paulo.