Estudo sugere que mulheres são melhores programadoras que os homens

Por Patrícia Gnipper | 12 de Julho de 2017 às 09h21

Apesar de o universo da programação ser um ambiente predominantemente masculino nos dias atuais, um estudo realizado por pesquisadores de universidades nos Estados Unidos está dando o que falar: ao analisar informações de softwares open source, descobriu-se que os softwares e aplicativos desenvolvidos por mulheres têm mais chances de serem aprovados do que aqueles criados por homens - porém, desde que o gênero das autoras não seja revelado.

É isso mesmo o que você leu: se uma mulher desenvolver um programa e não explicitar que ele foi criado por alguém do gênero feminino, esse programa deverá ter níveis de aprovação maiores do que se tivesse sido desenvolvido por um homem. Os pesquisadores analisaram milhares de submissões ao GitHub e descobriram que a taxa de aprovação de códigos criados por mulheres é de 78,6%, enquanto os níveis de aprovação das criações masculinas ficam em 74,6%.

A programação começou com mulheres

Você, homem, ficou chocado ao saber o resultado do estudo que mostrou a qualidade do trabalho executado por programadoras mulheres? Pois saiba que a programação começou com pessoas do gênero feminino. Antes que os homens dominassem a indústria e passassem a rejeitar a presença de mulheres como cérebros da programação, este mercado se iniciou graças ao pioneirismo de algumas mulheres.

Tudo começou muito antes de sequer se imaginar existirem computadores e máquinas complexas como essas das quais dependemos atualmente. A primeira programadora da história foi Ada Lovelace, que participou do projeto sobre a Máquina Analítica do cientista Charles Babbage, que foi a primeira máquina que pôde ser programada para executar comandos.

Entre os anos de 1842 e 1843, Ada complementou um estudo italiano sobre motores com um conjunto de observações de sua autoria, sendo que essas notas continham a descrição de um algoritmo criado para ser processado por máquinas, sendo considerado o primeiro programa de computador já criado. Lovelace também desenvolveu uma visão sobre a capacidade de os computadores realizarem muito mais do que meros cálculos, isso tudo em uma época em que somente se focava nesse tipo de ação.

Desenho da Máquina Analítica feito por Ada Lovelace (Reprodução: Divulgação)

Tempos mais tarde, entre as duas grandes Guerras Mundiais, as mulheres “computadoras” faziam cálculos complexos, como a trajetória de foguetes militares, por exemplo. A complexidade desse trabalho era tamanha a ponto de que cada um desses cálculos levava mais de 30 horas para ser completado.

Quando surgiu o ENIAC (o primeiro computador eletrônico de larga escala), esses cálculos passaram a ser feitos muito mais rapidamente do que pelos métodos tradicionais, e foram essas mulheres que desenvolveram os programas que o ENIAC rodava. Diferentemente do mérito que os programadores da atualidade têm por conta de seu trabalho intelectual, racional e meticuloso, naquela época as programadoras não eram valorizadas, pois os homens davam mais importância à criação de hardwares do que de softwares. Desenvolver códigos era um trabalho considerado inferior, que pagava pouco e não tinha prestígio - e, por isso, era deixado para que mulheres fizessem.

Mulheres "computadoras" trabalhando no ENIAC (Reprodução: Divulgação)

Poucos anos depois, Grace Hopper começou a estudar uma maneira mais fácil de programar computadores e acabou criando uma linguagem pela qual seria possível fornecer instruções às máquinas usando palavras em inglês. Foi assim que surgiu o COBOL, linguagem de programação que ainda é usada até os dias de hoje.

Foi mais ou menos nesta época, entre o final da década de 1940 e os anos 1950, que o “clube do bolinha” começou a surgir no universo da programação de softwares. À medida em que a programação começou a ser enxergada por uma outra ótica, que valorizava a atividade intelectual, os salários começaram a aumentar e, com isso, o interesse masculino cresceu.

Tentando combater o sexismo na indústria

Para falar um pouco sobre como o gênero é tratado na indústria da tecnologia, Lisa French, desenvolvedora front-end e cofundadora do Nashville Women Programmers, contou uma história pessoal, na qual ela era a candidata mais qualificada para preencher um cargo de gerência, mas o entrevistador disse que ele precisaria “lutar” por ela, pois as cabeças da companhia esperavam contratar um homem. Além de ser preconceituoso determinar se o profissional é ou não qualificado com base em seu gênero, isso também é ilegal em vários países (incluindo o Brasil).

French acredita que “enquanto mulher, eu sinto que estou em desvantagem por causa do estereótipo das pessoas com relação a mulheres na programação”. A desenvolvedora contou, também, que sempre precisou se esforçar muito mais do que seus colegas homens para ter seu trabalho reconhecido, mesmo que a qualidade do mesmo fosse igual ou superior. “Não sinto que tenho espaço para errar”, disse French, porque erros cometidos por mulheres acabam sendo muito mais malvistos do que os cometidos por profissionais do gênero masculino neste segmento.

“Pode ser um pouco difícil guiar uma mulher novata nessa área de atuação quando você sabe de todos os obstáculos que elas encontrarão somente por conta de seu gênero”, mas a desenvolvedora vem trabalhando para que mais mulheres decidam se tornar programadoras, para, juntas, combaterem o sexismo da indústria.

Com informações de Broadly

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