Atualizações por muitos anos realmente aumentam valor de revenda do celular?
Por Renato Moura Jr. • Editado por Léo Müller |

Recentemente, a Samsung declarou que a extensão do tempo de suporte aos seus celulares tem aumentado seu valor de revenda no mercado de usados. Paralelamente a isso, Apple e Motorola estão seguindo o mesmo caminho, visando garantir mais tempo de atualizações aos seus smartphones.
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A ampliação do suporte de software para até sete anos em smartphones reacendeu um debate importante: isso poderia aumentar o valor de revenda dos aparelhos? A resposta curta é que ajuda, mas não é o principal fator. Segundo especialistas consultados pelo Canaltech, o impacto existe mais na percepção do consumidor do que no preço em si.
A mudança acompanha um cenário em que o ritmo de troca de celulares diminuiu e o mercado de segunda mão se consolidou no Brasil. Conversamos com Flávio Peres, CEO do Trocafone, para entender melhor as perspectivas desse cenário.
Valor de revenda depende mais do físico que do software
Apesar da importância das atualizações, o valor de um smartphone usado ainda está muito mais ligado a aspectos práticos.
“O software é um dos elementos que o consumidor vai validar, mas antes disso ele vai se preocupar se a bateria está funcionando, se o aparelho faz ligação, tira foto, se conecta à internet etc.”, explica Peres.
Fatores como estado de conservação, funcionamento geral e custo de manutenção continuam sendo decisivos. A troca da bateria, por exemplo, é comum em aparelhos mais antigos e pode prolongar significativamente a vida útil, independentemente do suporte de software.
Isso ajuda a explicar por que modelos antigos ainda têm boa demanda. Dispositivos com quatro ou cinco anos de uso seguem sendo procurados, especialmente quando entregam o básico com confiabilidade.
Mais atualizações aumentam interesse, mas não o preço
Para Peres, o aumento no tempo de suporte tende a influenciar o comportamento do consumidor, mas não de forma direta no preço.
“Eu vejo com bons olhos esse movimento das fabricantes, mas não acredito que isso vai encarecer os aparelhos usados”, afirma o especialista.
Na prática, o suporte prolongado funciona mais como um fator de confiança. Saber que o aparelho continuará recebendo atualizações por mais tempo pode incentivar a compra no mercado de usados, especialmente entre consumidores mais atentos.
“Se ele tiver uma declaração dos fabricantes de que o software vai ser suportado por mais tempo, ele com certeza vai dar mais valor. Então a gente pode esperar um interesse maior”, complementa.
Consumidor brasileiro ainda prioriza custo-benefício
Outro ponto relevante é que nem todos os consumidores têm a mesma percepção sobre longevidade de software. O mercado brasileiro é diverso, com diferentes perfis de uso.
“Muitas pessoas têm mais de um smartphone. Um para uso principal e outro para tarefas específicas”, explica. Isso faz com que aparelhos mais antigos continuem tendo espaço, mesmo sem atualizações recentes.
Ainda assim, existe uma tendência clara: a maior demanda está concentrada em modelos com dois a três anos de uso. “Eles ainda têm valor e atendem à maioria dos casos de uso”, afirma Peres.
Atualizações podem influenciar o ritmo de troca
Se por um lado o suporte prolongado aumenta a confiança, por outro ele pode impactar o ciclo de troca — mas não sozinho. A desaceleração já vem acontecendo há anos, impulsionada pela falta de grandes saltos tecnológicos.
“Hoje você troca um aparelho de um ano para o outro e não muda a forma como você usa. Isso diminui o ritmo de compra”, explica Peres.
Nesse cenário, o mercado de usados ganha ainda mais relevância. Ele reduz a “barreira de troca”, permitindo que o consumidor recupere parte do investimento ao vender o aparelho antigo.
“Se o smartphone não tivesse valor de revenda, as pessoas demorariam ainda mais para trocar”
O papel estratégico do mercado de usados
Curiosamente, a valorização do usado pode até incentivar a compra de novos aparelhos, pois reduz o custo efetivo da troca.
“Conforme o usado ganha valor, ele ajuda a motivar a troca. É assim que fabricantes e varejistas enxergam o mercado”, diz o especialista, citando programas de recompra como exemplo dessa estratégia.
No fim, atualizações por muitos anos não são o principal fator que define o valor de revenda de um celular — mas ajudam a reforçar sua atratividade. Elas aumentam a confiança do consumidor e podem impulsionar a demanda, mas o preço ainda depende mais de fatores físicos e do próprio mercado.
A tendência é que, com o tempo, essa longevidade passe a ser mais considerada na decisão de compra. Ainda assim, o impacto será gradual e sempre combinado com outros elementos que determinam o verdadeiro valor de um smartphone usado.