Crítica | Star Trek: Picard revive o autêntico espírito de Jornada nas Estrelas

Por Patrícia Gnipper | 23 de Janeiro de 2020 às 11h00

Star Trek: Picard, a nova série de Jornada nas Estrelas que traz de volta às telinhas o icônico capitão de The Next Generation (TNG), Jean-Luc Picard (interpretado novamente por Patrick Stewart!), estreia nesta sexta-feira (24) no Prime Video, o serviço de streaming da Amazon que está trazendo a produção da CBS ao Brasil.

E o Canaltech pôde conferir em primeira mão o primeiro episódio desta série que promete ser um deleite tanto a fãs "das antigas", quanto a novos trekkers que conheceram a franquia mais recentemente — mas que já compartilham o mesmo amor pelas histórias inicialmente criadas por Gene Roddenberry nos anos 1960.

Será que a série de Picard atende às expectativas dos fãs, mesmo os mais exigentes? É isso o que você descobre nesta crítica!

CUIDADO! A partir daqui, esta crítica acaba trazendo spoilers de Star Trek: Picard!

Fortes emoções e demônios internos vindo à tona

Logo nos primeiros segundos de Star Trek: Picard, a emoção toma conta. Sim, estamos falando de pessoas como a autora desta crítica, trekkers de coração que sentirão arrepios diversos enquanto a nova história do lendário capitão começa a desenrolar. Ok, pode ser que haja um "que" de fangirl aqui, mas, se a nova série não continuasse a história de Jean-Luc respeitando o autêntico espírito de Jornada nas Estrelas, este texto começaria com um tom bem diferente — e certamente decepcionado, para não dizer possivelmente ofendido.

Mas, felizmente, não é o que acontece: a produção nos leva de volta ao dia a dia (e às aventuras) deste que é um dos personagens mais memóraveis de todo o universo Star Trek, bem como nos presenteia com alguns de seus colegas igualmente icônicos, como o androide Data — que, apesar de já não estar mais entre nós, permanece "vivo" em lembranças e tem papel fundamental no desenrolar deste início de temporada. Por sinal, a maneira como a nova produção traz Data de volta, sem cair naquele clássico de "morreu, mas passa bem" após alguma ressuscitação clichê, é outro ponto a ser elogiado — e abordaremos melhor essa história mais além nesta crítica.

Brent Spiner vive novamente o papel de Data, desta vez para ilustrar memórias de Jean-Luc Picard, já que o personagem morreu em Star Trek: Nemesis, filme de 2002 (Foto: Reprodução/CBS)

Jean-Luc, já aposentado da Frota Estelar, agora vive no Chateau Picard, onde estão os vinhedos de sua família na França. Quase 20 anos depois de ter sido visto em ação pela última vez na franquia (em Star Trek: Nemesis, filme de 2002), Picard está um tanto envelhecido, é verdade, mas a idade não parece ter diminuído sua determinação — ele ainda defende os mesmos ideais que pregava tão ferrenhamente em TNG, ainda que sua vida esteja muito mais pacata (para não dizer tediosa) e, hoje, não atue mais como o corajoso explorador espacial que um dia não somente desvendou mistérios do universo, como também garantiu a proteção da humanidade (e outras espécies por aí).

Ainda profundamente afetado pela morte de Data, e também não tendo superado a destruição do planeta Romulus (retratada em Star Trek, de 2009) e as consequências que enfrentou após essa tragédia, Picard reaparece com uma aura mais sombria e introspectiva, cheio de demônios internos a serem enfrentados enquanto vive uma nova aventura — e agora sim vamos trazer Data de volta (ou melhor, sua prole).

Data ainda vive, mas não como você imaginou

Dizem por aí que "você atrai o que deseja", e essa máxima pode ser aplicada em Star Trek: Picard. O ex-capitão não está contente com sua vida de aposentado e vive remoendo sentimentos de culpa esse tempo todo. Lembram dos demônios internos mencionados há pouco nesta crítica? Esses sentimentos negativos mostram que Picard, lá no fundo, gostaria mesmo era de viver novas aventuras, sentindo-se útil e, quem sabe, fazendo as pazes consigo ao, de repente, salvar outro indivíduo da forma que não pôde fazer com seu antigo oficial de ciências (e grande amigo). E, bem, é exatamente isso o que Picard acaba tentando fazer, mesmo sem ter intencionalmente buscado por essa nova jornada.

Mas, antes, um pouco de contexto. Em Star Trek: Nemesis, Data se sacrifica pelo capitão, dando sua vida de maneira honrosa como poucos humanos fariam uns pelos outros. Picard tenta parar a ativação de uma arma de destruição em massa na nave Cimitarra, comandada por Shinzon (um clone "do mal" de Jean-Luc), mas, ao perceber que isso seria impossível, acaba matando o inimigo mesmo que isso determinasse sua própria morte, já que ele não conseguiria sair dali. É aí que o heroico androide decide intervir, chegando à nave com um transportador portátil de uso único que acaba sendo utilizado para levar o capitão de volta à sua nave, em segurança, enquanto Data escolhe morrer se isso proporcionasse a destruição da nave vilã e sua arma de radiação — garantindo ainda a integridade de seu capitão.

Também vemos nesse filme o androide B-4 (de "before", que significa "antes" em português), que acaba se revelando uma versão anterior de Data. Após a morte de seu parceiro, o capitão descobre que Data havia conseguido copiar sua rede neural para seu "irmão" mais velho e, com isso, seu "espírito" permanece vivo de alguma forma.

Data segura a cabeça de B-4 em Star Trek: Nemesis (Foto: Reprodução/Paramount Pictures)

Pois bem, agora voltemos a Star Trek: Picard e ao que a morte de Data, bem como sua "permanência" em B-4, tem a ver com a nova trama. Acontece que essa sensação de culpa de Jean-Luc coloca "lenha na fogueira" em sua determinação para ajudar uma misteriosa jovem, que viveu até então acreditando ser uma humana normal, mas Picard, astuto, acaba percebendo que havia algo de androide ali. Lembrando que Data havia conseguido replicar sua rede neural em B-4, Jean-Luc desconfia que a moça pode ser uma espécie de descendente de seu antigo amigo — e ele estava certo. A "filha" de Data está correndo perigo, então Picard vê a oportunidade de ouro de ajudá-la, o que, de certa forma, poderia apaziguar o tormento emocional de não ter conseguido fazer o mesmo pelo "pai".

Ou seja: Data "vive", mas não como você pode ter imaginado. Sua essência permanece por aí, aguardando ser encontrada justamente por aquele que seria capaz de enxergá-la e protegê-la. Saída poética e digna de Star Trek para trazer um personagem falecido de volta, sem apelar para explicações fantasiosas na tentativa de justificar uma ressurreição — afinal, Jornada nas Estrelas é ficção científica, e não fantasia espacial.

O espírito de Star Trek continua vivo, ainda que mais sombrio

A "vibe" mais sombria em Star Trek: Picard não se restringe ao capitão, estando presente na trama inicial como um todo, incluindo outros personagens que vão aparecendo pouco a pouco. E isso não é ruim, tampouco estraga a essência de Jornada nas Estrelas, que, desde a série clássica dos anos 1960, tem como "moral da história" a ideia de que podemos evoluir rumo a um futuro melhor — o contrário do que mostram roteiros de distopias, pessimistas em sua essência.

Star Trek sempre usou a ficção científica com maestria para vislumbrar uma sociedade em que gostaríamos de viver, contando com a evolução da ciência e da tecnologia para atingir esse objetivo, e a nova série de Picard mantém esse espírito com inteligência, mostrando, contudo, que mesmo nesse futuro tão incrível ainda há muito a melhorarmos. E, claro, é uma delícia enfim descobrir o que acontece com Jean-Luc Picard depois de tanto tempo sem dar as caras na franquia — e ele já chega mostrando que está mais do que na hora de voltar à ativa.

Star Trek: Picard estreia nesta sexta-feira (24) no Prime Video com o primeiro episódio, Remembrance. Novos episódios serão liberados semanalmente às sextas-feiras. A primeira temporada da série contará com 10 episódios — e uma segunda já está garantida para o ano que vem!

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