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Crítica Eric | Bom enredo termina em um final digno de Sessão da Tarde

Por| Editado por Durval Ramos | 28 de Maio de 2024 às 13h05

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Depois de escrever As Sufragistas e Dama de Ferro, a dramaturga Abi Morgan lançou Eric, uma série de suspense em seis episódios, que chega à Netflix no dia 30 de maio. Assim como seus outros trabalhos, a série tem uma premissa interessante e um roteiro que conduz o público por um labirinto emocional, só que dessa vez o desfecho é balde de água fria.

Com Benedict Cumberbatch (Doutor Estranho) excelente em cena novamente, a trama conta a história de Vincent, um alcoólatra emocionalmente instável que vive um casamento miserável ao lado de Cassie (Gaby Hoffmann). Os dois são pais de Edgar (Ivan Howe), um menino de nove anos que adora desenhar, mas que não aguenta mais ouvir as discussões acaloradas de ambos.

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Um dia, ao ir para escola, ele simplesmente desaparece, deixando os pais e a polícia em apuros. Some a isso, o fato de estarem em plena Nova York dos anos 1980, quando a cidade sofria com o aumento da criminalidade e era tomada por pessoas em situação de rua tentando achar um lugar para sobreviver.

A partir desse ponto, a série arranca mostrando Vincent tentando construir um fantoche gigante e azul chamado Eric, que foi inspirado no desenho de seu filho. Ele acredita que, se conseguir colocá-lo no programa de TV Good Day Sunshine, o menino irá reconhecê-lo e voltar para casa. Só que, quanto mais o tempo passa, mais ele se afunda em drogas e alucinações.

A atuação de Cumberbatch é, mais uma vez, brilhante e poderia lhe render uma indicação ao Emmy. É ela que segura o arco do personagem que, por vezes, fica cansativo e maçante. Paralelamente a isso, o detetive Michael (McKinley Belcher III) tenta desvendar o caso e achar alguma correlação entre o sumiço de Eric e Marlon Rochelle, um jovem negro de 14 anos que também sumiu.

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As tramas secundárias ganham força à medida que os episódios correm, e se tornam mais interessantes do que o surto de Vincent à procura do filho e sua alucinação com Eric. O problema é que elas parecem ruas paralelas que nunca se cruzam. Apesar dos personagens interagirem entre si, o drama de Michael buscando os desaparecidos, cuidando de seu marido vítima da AIDS, e lutando contra um sistema corrupto, não se encaixa tão bem no desespero de Vincent.

Assim, a série caminha como um filme 2 em 1, ora interessante abordando temas como abuso sexual de menores, homofobia e racismo, ora chato focando na luta de um pai totalmente descompensado procurando por um menino que sumiu sem nenhum motivo aparente.

Outro erro é justamente esse: a motivação que levou Edgar a desaparecer é vazia e fraca, chegando a ser pouco crível no final. Além disso, há erros no desenvolvimento dos personagens. A relação estranha entre Vincent e os pais não é elaborada, tampouco o caso extraconjugal de Cassie que resulta em uma nova gravidez. Também é pouco trabalhado a pedofilia de Lennie (Dan Fogler) e o seu suícido ao final. Com seis capítulos de uma hora, era possível ter diluído esses detalhes e outros ao longo da narrativa, deixado-a mais rica.

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Mas se Ericacertou em algo foi na escalação do time. Apesar de ter ficado de escanteio, Gaby Hoffmann é uma excelente mãe que vive o luto do filho vivo. Seu olhar desesperado comove qualquer um que tenha o mínimo de empatia, assim como Adepero Oduye que dá vida à mãe de Rochelle, o adolescente negro morto. Belcher III (A Cidade é Nossa) entrega uma performance mais contida, mas igualmente poderosa. Seus melhores momentos são quando está cuidando de seu marido.

O fim morno de Eric

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Se a série, apesar dos seus maus momentos, tem um enredo potente, o desfecho desmonta tudo o que foi criado até então. No melhor estilo Sessão da Tarde, entrega um reencontro brega que poderia ser comovente, mas apenas soa ridículo. O pior de tudo é Edgar aparecendo depois de tanto tempo, limpinho, com o cabelo arrumado e muito bem cuidado, como se seu sumiço fosse algo sem peso.

O reencontro de Vincent com seu pai magnata também é banal, e esvazia totalmente a dor dele ter sido massacrado ao longo dos anos. É como se a série tivesse pressa em entregar um final bonitinho para fechar o arco da redenção de seu protagonista. É um capítulo mal aproveitado que encerra uma narrativa boa, mas que poderia ter sido espetacular.

Ainda assim, vale a pena dar uma chance à série e é provável que você queira maratoná-la porque a atuação de Cumberbatch é viciante.