O que são data brokers e como eles funcionam?

Por Ramon de Souza | 15 de Fevereiro de 2021 às 19h00
Canaltech

Qual imagem vem à sua cabeça quando você pensa na profissão de “corretor”? Talvez você imagine um corretor de imóveis, que lhe auxiliará a encontrar aquela casa dos sonhos; ou ainda um corretor de seguros, responsável por encontrar a melhor seguradora para proteger seu tão estimado automóvel. É provável até mesmo que as corretoras de valores invadam sua mente, intermediando a compra e a venda de títulos (ações) nas bolsas de valores.

O que você provavelmente não imagina é que existem os corretores de informações — ou data brokers, como são mais conhecidos pelo termo em inglês. Sim, estamos falando de entidades dedicadas a compilar informações diversas, organizá-las, classificá-las e comercializá-las para terceiros, que passarão a usar todo esse banco de dados qualificado para suas próprias finalidades (sejam elas benignas ou malignas).

Embora o conceito ainda seja desconhecido por muitos e possa causar certo espanto, a corretagem de dados não é exatamente uma novidade — as primeiras empresas a atuar no segmento surgiram nos anos 1990, aproveitando a entrada da Era da Informação. Visionários perceberam que informações iriam se tornar, logo mais, um ativo valiosíssimo para as organizações, e decidiram trabalhar na venda das próprias.

Imagem: Reprodução/MayoFi (Unsplash)

Hoje, estima-se que existam pouco mais do que 4 mil corretoras de dados ao redor do mundo. Se você já ficou surpreso até aqui, prepare-se para se chocar ainda mais ao descobrir que a corretagem de informações é uma atividade comercial regularizada e permitida — embora, como veremos a seguir, esteja permeada de críticas e de polêmicas, especialmente após o nascimento das regulamentações de privacidade digital.

Afinal, para que existe a corretagem de dados?

O mercado de publicidade online é um dos mais lucrativos que existem. Porém, ele funciona de uma maneira um pouco distinta de, por exemplo, um outdoor: de nada adianta você fazer propaganda de uma cerveja nesse tipo de veículo se apenas 60% das pessoas que o enxergarão gostam desse tipo de bebida alcoólica. Você estará, a grosso modo, jogando 40% de seu investimento no lixo.

Não seria muito mais legal caso você anunciasse sua cerveja apenas para quem realmente é apaixonado pela bebida, garantindo que o dinheiro gasto com aquela propaganda atinja somente quem pode se interessar, de fato, pelo produto? A internet passou a permitir isso com aquilo que chamamos de publicidade direcionada.

Que atire a primeira pedra quem nunca pesquisou um item (por exemplo, um sunga de praia) e passou dias sendo bombardeado por anúncios de vestimentas similares? Isso acontece porque somos rastreados ao longo da web. Há uma entidade observando os seus interesses, aprendendo seus gostos pessoais e compilando tudo o que ela conseguir sobre você. Essa entidade é uma corretora de dados.

Uma vez que essa compilação estiver concluída, o data broker poderá vender as informações obtidas para as redes de publicidade e até mesmo redes sociais como Facebook e Google. A partir daí, quando um cliente (outra empresa) quiser veicular anúncios na web para vender sungas de praia, tais redes de publicidade e tais plataformas sociais saberão exatamente para quem exibir o banner publicitário, garantindo uma campanha de marketing com um ótimo retorno sobre investimento (ROI).

Imagem: Reprodução/Agence Olloweb (Unsplash)

“O mercado de compra e venda de dados pessoais tem papel de destaque na economia informacional. Diante do alto volume de informações pessoais, ferramentas de segmentação despertam cada vez mais interesse das organizações, já que por meio de tecnologias de big data, constroem perfis apurados da população”, afirmou a pesquisadora Laudelina L. Pereira no artigo “Classificação Geodemográfica e a Assimetria na Dataficação de Crédito”.

Mas como eles coletam meus dados?

Aqui é onde mora a polêmica. Cada data broker coleta dados de uma maneira diferente, sendo que alguns tentam ser o mais éticos que conseguirem, enquanto outros acabam infringindo a privacidade do internauta no processo.

Alguns deles simplesmente usam cookies (aqueles pequenos trechos de códigos que te identificam como visitante em um website) para saber dos seus interesses. Outros vendem SDKs (bibliotecas de códigos) para desenvolvedores embutirem rastreadores em aplicativos — quando você abre o app, o script identifica o dispositivo que você está usando e o sistema operacional, tal como os sites que você visita e outros softwares instalados.

Recentemente, um data broker se envolveu em uma polêmica gigantesca por trabalhar dessa maneira. Tanto o Google quanto a Apple anunciaram que vão remover da Play Store e da App Store qualquer aplicativo que use o SDK da X-Mode, uma corretora que afirma estar “construindo o maior painel de dados de localização original e com foco em privacidade do mundo”.

Imagem: Captura de Tela/Canaltech

O problema é que o modus operandi da X-Mode não está agradando os gigantes da tecnologia, especialmente porque — coincidentemente ou não — a maioria dos aplicativos que contém seus scripts são focados no povo muçulmano. Isso abre precedentes para que os dados coletados, no fim das contas, não sejam usados para fins publicitários, mas sim para uma finalidade bem mais obscura, que é…

Coleta para vigilância

Mais cedo, falamos que os principais clientes dos data brokers são as redes de publicidade — isso é um fato, mas as corretoras também negociam em grande volume com órgãos governamentais e agências de segurança estatal. Isso significa, para um cidadão americano, por exemplo, que seus dados pessoais podem estar em posse do FBI a qualquer minuto, caso a entidade considere relevante investigá-lo.

Claro, podemos citar aqui a máxima de “quem não deve, não teme”, mas tal prática não deixa de ser uma violação ao direito da privacidade. Ademais, governos sabidamente autoritários podem usar os data brokers para espionar e controlar minorias étnicas, como é justamente o caso da coleta focada nos muçulmanos praticada pela X-Mode.

Quem são os corretores e como me livrar deles

Como dissemos anteriormente, existem milhares de data brokers no mercado, sendo que os nomes mais famosos são Acxiom, Experian, Epsilon, CoreLogic, Datalogix, Intelius, PeekYou, Exactis e Recorded Future. É difícil saber qual empresa processa e armazena dados seus, mas, de qualquer forma, por conta das legislações de proteção de dados pessoais (como a brasileira LGDP, a europeia GDPR e a californiana CCPA), você tem todo o direito de solicitar que tais companhias não vendam suas informações.

Imagem: Reprodução/Adam Nowakowski (Unsplash)

Por conta de sua rígida Lei de Privacidade do Consumidor da Califórnia, tal estado dos EUA mantém uma extensa lista atualizada de data brokers, tal como o e-mail de contato e instruções para você requisitar o opt-out — como é conhecido o processo de requerer a exclusão de seus dados do database de um corretor. A página está em inglês, mas, para quem domina tal idioma, trata-se de um ótimo diretório para você se proteger online.

Outras dicas básicas para evitar que suas informações caiam nas mãos de um data broker são:

  • Tome cuidado com apps: antes de instalar um aplicativo no celular, preste muita atenção às permissões que ele requisita para funcionar. Não há motivos para uma calculadora lhe pedir autorização para acessar suas fotos, seus arquivos e outros detalhes do aparelho. Possivelmente é um app feito apenas para lhe rastrear;
  • Não aceite cookies de terceiros: novamente, por conta de regulamentações rígidas de privacidade do internauta, sites e serviços online precisam pedir sua autorização para colocar um cookie em seu navegador. Só aceite se for realmente necessário, pois, junto, você receberá cookies de terceiros que te rastrearão ao longo da web.
  • Leia as políticas de privacidade: sabemos que elas podem ser chatas e maçantes, mas são valiosas para garantir que você esteja usando um serviço ou software que respeite sua privacidade. Muitos internautas se espantam ao descobrir que vários sites deixam bem claro em tal documento que seus dados serão compartilhados com terceiros!

Felizmente, por mais que a corretagem de dados seja preocupante, a tendência é que tal prática diminua (ou pelo menos se torne mais ética) ao longo dos próximos anos. O Google planeja acabar com os cookies em breve; a Apple anunciou esforços para que o consumidor tenha maior poder sobre suas informações e legislações estão sendo criadas para apertar o cerco contra os data brokers que agem “pelas sombras”.

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