CEO da Apple defende que privacidade de dados é um direito humano básico

CEO da Apple defende que privacidade de dados é um direito humano básico

Por Rafael Rodrigues da Silva | 03 de Outubro de 2018 às 10h55
Divulgação

Ainda que tenha muitos problemas, ninguém pode acusar a Apple de não seguir seus princípios. Há 42 anos no mercado, a empresa não costuma evitar polêmicas, e sempre defendeu abertamente causas que considera certas.

Assim, não foi nenhuma novidade quando Tim Cook, CEO da companhia, não fugiu do assunto ao ser perguntado sobre temas polêmicos em uma entrevista feita pela VICE News Tonight, programa de jornalismo exibido pela HBO nos Estados Unidos. Sem ficar em cima do muro, Cook respondeu abertamente sobre questões como privacidade das informações dos usuários e o que a levou a banir o polêmico conspiracionista Alex Jones de todas as suas plataformas.

Sobre privacidade

Uma das principais diferenças da Apple para suas maiores concorrentes é o uso que a empresa faz das informações do usuário: enquanto a Google e o Facebook utilizam seus bancos de dados para faturar alto com a venda de anúncios, a Apple simplesmente não se interessa em utilizar com objetivos de lucro nenhuma das informações de seus usuários. Ao contrário das duas primeiras empresas, que fazem upload de todas as informações possíveis do usuário para um servidor central, a Apple costuma manter o máximo possível dessas informações diretamente nos dispositivos dos próprios usuários, diminuindo a chance de grandes vazamentos já que essas informações não estão concentradas em um único servidor.

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Assim, não é difícil entender por que Tim Cook acredita que a privacidade dos dados dos usuários é um dos problemas mais importantes a serem solucionados neste século. E, ainda que normalmente não seja o tipo de pessoa que defende intervenções estatais nas operações de um empresa privada, Cook não vê outra alternativa para uma solução imediata deste problema além de uma regulamentação do modo como as empresas podem armazenar e utilizar informações sobre seus usuários. Apesar de defender algum tipo de regulação, o CEO não entra em detalhes sobre o assunto, não deixando claro qual tipo ele acharia justo de ser aplicado pelo estado.

Mas, quando perguntado sobre se o fato de não utilizar essas informações de seus usuários estar afetando negativamente as operações da empresa, Cook é taxativo ao afirmar que não, e garante que uma das maiores bobagens ditas pelas empresas de tecnologia é a desculpa de que elas precisam acessar as informações de seus usuários para melhorar seus serviços.

Um direito humano básico

Apesar de ser uma ferrenha defensora do direito à privacidade de dados, a Apple possui um enorme mercado na China, país conhecido por ter um governo que gosta de ter o controle total sobre tudo o que seus cidadãos acessam. Mas, quando perguntado se isso significava que a Apple fazia algumas concessões sobre a proteção das informações dos usuários, Cook foi taxativo ao afirmar que não.

De acordo com o CEO, não é porque o governo chinês possui uma necessidade de vigiar todas as atividades de seus cidadãos que a privacidade das informações deixa de ser um direito humano básico na visão da companhia, e por isso todos os iPhones vendidos no país possuem as mesmas proteções de qualquer outro iPhone no mundo.

Apesar dessa posição, uma escolha de negócios da Apple fez com que as pessoas começassem a duvidar da importância que a empresa dá para a proteção dos dados dos usuários chineses. No começo deste ano, a empresa enviou para sua subsidiária chinesa a chave de encriptação do iCloud, o que na prática significa que o governo chinês pode forçar a empresa a fornecer informações sobre seus usuários, do mesmo modo que o FBI tem poder para fazer durante suas investigações.

Questionado sobre o assunto, Cook defende que essa mudança não interfere em nada o modo como a empresa trata o sigilo das informações de seus usuários, e que irá fazer jogo duro caso o governo chinês queira ter acesso a elas. Apesar das palavras fortes do CEO, é bom lembrar que o mercado chinês corresponde a 20% das vendas mundiais da Apple, o que pode significar que esse “jogo duro” para com o governo do país pode não ser tão duro assim, já que perder esse mercado seria um baque enorme para a receita da empresa.

O caso Alex Jones

Conhecido teórico da conspiração dos Estados Unidos, Alex Jones foi banido nos últimos meses de praticamente todas as plataformas de conteúdo da internet (como o Facebook, Twitter, YouTube, MailChimp e Spotify) devido a seus discursos de ódio e disseminação de informações falsas. E, como era de se esperar, os conteúdos de Jones também foram retirados de todas as plataformas de conteúdo da Apple.

Apesar de muitos seguidores de Jones considerarem os banimentos como uma conspiração de todas as principais empresas de mídia na internet para silenciar o autor, Cook afirma que, pelo menos no que concerne a Apple, a decisão foi tomada de forma independente, e nenhum representante da empresa conversou sobre o assunto com ninguém de fora dela para decidir sobre o banimento.

Cook ainda afirma que sua companhia não escolhe partidos, e garante em suas plataformas conteúdos de produtores ligados a todos os espectros da política, mas explica que o banimento de Jones das plataformas não foi por causa de nenhuma ação específica dele, mas sim de uma carreira que nos últimos anos estava cada vez mais focada em espalhar teorias da conspiração e fake news. Entre os conteúdos mais recentes de Jones, estava a defesa de que os massacres ocorridos em escolas dos Estados Unidos eram invenções da mídia, e que os sobreviventes desses incidentes eram atores contratados pelo partido Democrata para forçar uma agenda de maior regulação dos armamentos no país.

Fonte: Tech Crunch

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