Você é um superprovador? Gene do "supergosto" teria a ver com gravidade da COVID

Por Fidel Forato | Editado por Luciana Zaramela | 18 de Junho de 2021 às 14h10
asierromero/Freepik

Quando o assunto é o coronavírus SARS-CoV-2, muitas questões ainda são um mistério para a ciência. Talvez, uma das principais perguntas seja: o que leva algumas pessoas a terem casos graves da COVID-19 e outras a passarem pela doença de forma assintomática? Em busca de respostas para a questão, o especialista Henry Barham, do centro médico Baton Rouge General, nos Estados Unidos, aposta que, em partes, a evolução da doença pode ser explicada pela capacidade que a pessoa tem em sentir gosto amargo.

Durante o período de formação, Barham começou a estudar o gene T2R38, também conhecido por afetar a capacidade do paladar dos indivíduos. Este gene não se reflete em um maior número de papilas gustativas, mas, sim, em uma percepção melhorada dos sabores, especialmente do amargo. De acordo com o preprint — artigo sem revisão por pares — publicado na renomada revista científica JAMA, o médico sugere que há uma relação entre o gene e a gravidade da COVID-19.

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Pequisa sugere ligação entre sentir o gosto amargo e a gravidade da COVID-19 (Imagem: Reprodução/Twenty20photos/Envato)

O gene do "supergosto"

Para entender, o gene T2R38 confere a capacidade de saborear, mais intensamente, o amargor dos alimentos na hora de ingerir. Pessoas com o gene do "supergosto" — e Barham é um dos que o possuem — experimentam o amargor do café ou do brócolis de forma melhorada. Nesse caso, a pessoa deve herdar o gene T2R38 de ambos os pais. Além disso, o mesmo gene desempenha um papel no sistema imunológico, que, em meio à pandemia da COVID-19, parecia relevante para Barham.

Primeiro, o médico observou a hipótese de que é improvável que as pessoas com esse gene — recebido pelos dois pais (superprovadores) —, desenvolvam sintomas graves da COVID-19. Agora, aqueles que herdaram o gene de apenas um dos pais (provadores), provavelmente, experimentariam sintomas leves ou moderados da infecção do coronavírus. Por fim, os que não possuem o gene correm um risco maior de apresentarem sintomas graves e hospitalização.

Isso porque a percepção do gosto das pessoas, como o de café muito amargo, ligeiramente amargo ou nada amargo, é conhecida há mais de uma década por estar associada a sua resposta imunológica a infecções respiratórias. Nesse cenário, pesquisas anteriores já observaram que gene do "supergosto" é parte do sistema imunológico inato.

Nesses casos, as principais funções do T2R38 são: criar filamentos semelhantes a cabelos, como cílios, para varrer rapidamente os patógenos; aumentar a produção de muco e, às vezes, expulsando os invasores; e produzir óxido nítrico capaz de eliminar os patógenos. No entanto, esses benefícios nunca foram investigados, especificamente, contra os vírus. Foi o que motivou Barham a iniciar sua pesquisa.

Gosto amargo, pesquisa positiva

Entre o primeiro dia de julho e o dia 30 de setembro de 2020, uma equipe de pesquisadores acompanharam 1.935 pacientes e profissionais de saúde que foram, potencialmente, expostos ao coronavírus, mas não foram infectados. Por exemplo, enfermeiros que trabalham na linha de frente do atendimento. Para a pesquisa, cada um dos voluntários recebeu uma tira de papel com sabor para que fossem capazes de avaliar o amargor da amostra. Cerca de metade dos participantes foram classificados como provadores, um quarto como não provadores e um quarto como superprovadores.

Gene que regula a percepção do gosto amargo pode ter ligação com a gravidade da COVID-19 (Imagem: Reprodução/Halfpoint/Envato)

Durante o mesmo período de acompanhamento, 266 das 1.935 pessoas testaram positivo para a COVID-19. Segundo a análise, os indivíduos que não apresentavam o gene T2R38 tinham muito mais probabilidade de contrair a doença e de seus sintomas durarem mais. Para esse grupo, a média de sintomas era de 23,5 dias. Agora, para os provadores, a média caia para 13,5 dias. Por fim, os superprovadores relataram apenas 5 dias de sintomas.

A relação também apontava para o maior risco de hospitalização. Dos 55 voluntários que precisaram de internação, 47 não apresentavam o gene do "supergosto". Segundo os pesquisadores, "este estudo sugere que as variantes alélicas do receptor do sabor amargo estão associadas à aptidão imunológica inata em relação ao SARS-CoV-2 e podem ser usadas para correlacionar com o curso clínico e o prognóstico de COVID-19". No entanto, mais estudos são necessários para confirmar essa relação.

Para conferir o preprint completo sobre a percepção do gosto amargo e a COVID-19, publicado na JAMA, clique aqui.

Fonte: Washington Post  

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