Valeria a pena tomar todas as vacinas contra a COVID-19? Infectologista explica

Por Fidel Forato | 11 de Agosto de 2020 às 18h46
Tania Rego\Agencia Brasil

Muito tem se falado sobre as possíveis vacinas contra a COVID-19, inclusive três imunizantes estão em testes no Brasil e, provavelmente, a vacina russa também será testada em humanos no país. Enquanto essas diferentes possibilidades de imunização contra o novo coronavírus (SARS-CoV-2) ainda finalizam suas fases de testes, viraliza nas redes sociais o desejo dos internautas de tomar todas vacinas possíveis contra a doença.

Mesmo que a história não passe de brincadeira do Twitter, a infectologista e professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Nancy Bellei, explica que tomar mais de um tipo de imunizante contra a COVID-19 não significa que a pessoa estará mais protegida contra o coronavírus. Ou seja, a resposta é não, não faz diferença para a imunidade das pessoas tomar todas as vacinas contra o coronavírus, se um dia isso for possível.

“A pessoa vai tomar uma vacina, vamos aguardar os estudos [as vacinas ainda estão na fase 3 de testes] e ver depois se há uma vacina melhor que a outra", comenta Bellei sobre o estágio de testes clínicos, em que voluntários tomam uma única vacina, enquanto pesquisadores avaliam segurança e eficácia do produto.

Além disso, sem os resultados finais e sem se saber quantas doses são necessárias para se tomar uma potencial vacina contra a COVID-19, não faz sentido pensar em receber diferentes imunizantes. "A pessoa toma uma vacina só, não tem nenhuma que a gente recomenda tomar uma e outra. Ninguém sabe isso ainda sobre a vacina contra a COVID-19 e pode ser até pior”, avisa a infectologista da Unifesp.

O que esperar das vacinas?

Se hoje não faz sentido pensar em mesclar diferentes vacinas para se obter uma proteção maior contra o coronavírus, um dia pode fazer, desde que a vacina tomada só garanta a imunidade por um tempo limitado. Sobre isso, Bellei explica que há dois importantes cenários a serem considerados sobre os efeitos das vacinas em médio e a longo prazo. Ou seja, é preciso entender por quanto tempo dura a imunidade, após cada vacina.

Necessidade de se tomar diferentes vacinas contra a COVID-19 depende do prazo de imunidade da fórmula (Foto: Welcomia/Freepik)

“A saída, em médio prazo, parece possível, porque essas vacinas induzem produção de anticorpos e, aí, boa parte das pessoas vacinadas estaria protegida. Você diminui a cadeia de transmissão. Em longo prazo, o ideal é que essas vacinas pudessem ativar a imunidade celular, que seria a imunidade de memória, porque os títulos de anticorpos [quantidade presente dessas células no organismo] caem [após a infecção], então precisamos ter imunidade celular”, esclarece a infectologista.

Quanto a essas previsões, o que se sabe até o momento é que as pessoas que contraíram a COVID-19 perdem os anticorpos ao longo das semanas. “Há estudos mostrando que, em torno de 100 dias, perdemos o nível de anticorpos, só que não sabemos o quanto resta de imunidade celular que permite responder à nova infecção, se encontrarmos o vírus dali a algum tempo. Nós não sabemos isso ainda”, afirma a médica.

“Quem já teve infecção, não sabe se vai ter uma proteção em longo prazo, então muito menos ainda conseguimos antever se as vacinas vão ter esse papel e, se tiverem, por quanto tempo. Porque se elas não tiverem, vai ser como uma vacina de gripe, que você tem que dar toda hora de novo”, complementa a professora.

Imunidade celular x anticorpos

Agora, se as potenciais vacinas não tiverem capacidade para ativar a imunidade celular, o problema não será resolvido em longo prazo. “É totalmente diferente, imunidade celular não é anticorpo, ela é a memória imunitária que a gente faz com algumas doenças: sarampo, caxumba, rubéola, catapora, que nunca mais a pessoa pega, porque tem imunidade", orienta Bellei sobre os desafios da pandemia da COVID-19.

De forma simples, a imunidade humoral é composta pelos anticorpos e é a primeira resposta do organismo a uma infecção — incluindo uma vacina —, mas é transitória, ou seja, dura enquanto houver anticorpos. Já a imunidade celular é mais permanente, porque mesmo sem anticorpos, o corpo humano pode rapidamente produzir defesas contra um agente infeccioso com que já teve contato.

No entanto, ainda será preciso aguardar alguns meses para compreender, de forma satisfatória, quais respostas imunológicas cada vacina contra a COVID-19 pode oferecer e por quanto tempo essa resposta permanecerá no organismo. Enquanto isso, os testes de fase 3 para a potencial vacina seguem, em plena atividade, no país.

Entre as apostas "nacionais", estão a fórmula da Universidade de Oxford, no Reino Unido, com participação da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo); da farmacêutica norte-americana Pfizer com a empresa de biotecnologia alemã BioNTech; e da empresa chinesa Sinovac, em parceria com o Instituto Butantan.

Fonte: Agência Brasil  

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