Tecnologia pode quebrar um galhão para quem está grávida ou já é mãe

Por Nathan Vieira | 08 de Dezembro de 2019 às 15h03

A tecnologia tem proporcionado a facilidade ao ser humano em diversos setores do cotidiano, e também tem se concentrado — seja por meio de aplicativos, redes sociais, gadgets, plataformas on-line ou até mesmo equipamentos — em públicos específicos, como os idosos, por exemplo. Com a ascensão dessa inovação que a tecnologia traz, as gestantes e as mulheres que deram à luz recentemente também estão passando a usufruir desses elementos.

Mais do que ajudar as gestantes diretamente, a tecnologia trouxe avanços significativos para a obstetrícia ao longo dos anos. O obstetra Alexandre Pupo, do Hospital Sírio Libanês e Hospital Albert Einstein, conta que a ultrassonografia, desde a década de 1970 para cá, evoluiu muito com o sistema de processamento, tanto de imagens quanto de dados, e que hoje a qualidade de imagem de um ultrassom de ponta é praticamente a de uma imagem perfeita. Em primeiro lugar, segundo o médico, a área da saúde teve o avanço do ultrassom. “A ultrassonografia é fundamental na obstetrícia de hoje em dia para identificar a própria gravidez, se ela está dentro do útero ou fora, para avaliar seu tempo, para definir se o bebê está se desenvolvendo de forma adequada, para identificar possíveis más formações, nos ajuda a averiguar riscos para pré-eclâmpsia, que é a doença hipertensiva específica da gravidez, conseguimos analisar sinais e sintomas de diabetes gestacional, e no final da gestação, até o peso do bebê e a vitalidade para definir eventualmente a via de parto”, explica.

Em segundo lugar, o especialista enfatiza a questão do avanço na tecnologia de análise de dados da frequência cardíaca fetal, que é chamada de cardiotocografia. Atualmente, ela é computadorizada, e pode indicar, por exemplo, sinal de sofrimento durante o trabalho de parto. “E temos, ainda, a questão hoje em dia das mídias, dos programas de computador que ajudam as gestantes a descobrirem em que momento da gravidez elas estão, e podem ajudar inclusive mostrando alertas e mostrando para as pacientes os momentos que elas devem retornar à consulta médica e o momento que devem fazer os exames para averiguação do desenvolvimento natural da gravidez”, acrescenta.

Tecnologia e a saúde da gestante

A curitibiana Danielle Blaskievicz tem dois filhos: Rafael, de oito anos, e Augusto, de cinco, e utilizou aplicativos nas duas gravidez, mais precisamente o do Babycenter, intitulado Minha gravidez e meu bebê hoje. Ele é conhecido por permitir que a mulher acompanhe a sua gravidez, sendo necessário apenas informar a data prevista de parto, ou até mesmo usar a própria calculadora da gravidez. O aplicativo orienta ao longo da gestação semana a semana e dia a dia, com dicas, ideias, informações e vídeos de desenvolvimento fetal sob medida para cada etapa. O app conta com galeria de fotos da barriga, um fórum e uma pesquisa de nomes. Quando o bebê chegar, o aplicativo automaticamente se transformará num guia diário com ferramentas para apoiar a mãe ao longo do primeiro ano de vida da criança. A usuária conta que gostava muito de acompanhar a sua gravidez, semana após semana, e a evolução dos bebês.

Danielle conta, também, que os aplicativos ajudaram muito para organizar os horários em relação à sua amamentação, e qual seio deveria usar para amamentar naquela determinada ocasião. “Toda mãe de primeira viagem precisa de muita orientação. É muita dúvida, muito medo, muita insegurança”, relata. Alexandre Pupo explica que, em relação à amamentação, há dois padrões básicos seguidos pelas pacientes: amamentação considerada livre demanda em que a paciente amamenta o filho conforme ele requisita, e amamentação em horários pré-determinados, que é onde entram os aplicativos de saúde, auxiliando a identificar o momento de amamentar e qual a mama deve ser utilizada.

“O pós-parto é um momento bastante conturbado na vida da mulher já não mais gestante, porque existe uma demanda muito grande da criança e isso muitas vezes dificulta a memória de detalhes”, afirma o obstetra. Alexandre ainda explica que a amamentação em horários pré definidos determina na criança um relógio biológico que define horário de amamentação e de dormir, o que leva a um certo grau de conforto, mas que a mãe acaba dependendo muito desses horários, e se postergar ou adiantar uma mamada, quebra o relógio da criança e leva a uma dificuldade de reorganização. Então a livre demanda permite que a criança mame quando bem entender, é o método mais natural, mas então a mãe tem que estar o tempo todo prestando atenção nos sinais. “O aplicativo seria mais para o primeiro cenário e isso ajudaria ela a fazer o esvaziamento adequado da mama, impedindo o risco de 'empedrar'”, afirma.

Outro aplicativo focado na saúde da gestante e da mulher que deu à luz recentemente é o Canguru, que traz orientação desde os primeiros sintomas da gestação, o teste de gravidez positivo, o primeiro ultrassom, na hora do parto, na hora de decidir como vai dar a luz, ao pensar em nomes de bebê e até na última contração antes do nascimento do bebê. O app também se concentra nos sintomas de gravidez, enjoo, pré-natal, peso do bebê na gestação, plano de parto normal, evolução do bebê. Assim, a mulher acompanha o desenvolvimento do bebê fase a fase e informa tudo com mais segurança nas consultas.

Além disso, o Canguru permite organizar a agenda de exames, consultas e vacinas. "A importância de fazer os exames no tempo certo é que é dessa maneira que conseguimos avaliar se a gravidez está transcorrendo de forma normal ou não. Se for tarde demais, a gente vai ter dificuldade de avaliar pequenos defeitos, pequenas deformações nesse bebê. Os exames de sangue, se realizados em momentos impróprios, podem impedir a detecção de doenças relacionadas à gravidez que podem complicar o momento do parto, e eventualmente provocar algum tipo de agravo à saúde do bebê", explica Pupo.

Redes sociais

O Canguru também fornece uma rede social que permite que gestantes conversem com outras que estão passando pela mesma experiência ou que passaram recentemente, para trocar conselhos, tirar dúvidas e coisas do tipo. "A formação de uma rede de apoio entre mães e futuras mães é umas das principais formas de empoderamento para a gestante. Essa conexão permite uma rica troca de experiências, oferecendo à ela a oportunidade de conhecer outras mulheres em situações semelhantes à sua, compartilhando experiências, tirando dúvidas e recebendo dicas úteis. Toda essa troca favorece a autoconfiança", conta o CEO da plataforma, Gustavo Landsberg.

Alexandre declara que as mídias sociais permitiram várias situações: os médicos acessam hoje para informar o público em geral sobre avanços da medicina e sobre cuidados. Como esses alertas têm uma alta frequência nas mídias sociais, isso acaba repercutindo nas pacientes de forma a lembrá-las e alertá-las das necessidades que o acompanhamento pré-natal exige, tanto o processo de educação quanto o processo de mantê-las alertas ao longo de toda a gravidez. E também existe o lado das gestantes que conversam entre si, principalmente em relação a doenças da gravidez, que ajuda tanto na compreensão do que está acontecendo, quanto buscar conforto na experiência de outras mulheres que passaram ou estão passando pelos mesmos problemas que elas, o que facilita do ponto de vista tanto emocional quanto prático no acompanhamento e no segmento dessas gestações eventualmente mais complicadas.

Danielle conta que, em suas duas gravidezes, também usou as redes sociais para entrar em contato com outras gestantes e tirar dúvidas que vão desde o melhor tipo de fralda, como deve ser o parto ideal, ao jeito certo de amamentar. “Foi muito importante. Mas eu cheguei à conclusão que não existe fórmula e que tudo precisa ser filtrado, colocado na balança, porque quando você passa uma dica "maravilhosa", ela é maravilhosa do seu ponto de vista, e para outra mãe pode ser uma loucura”. A curitibana enfatiza: “A regra é: quer participar, vá com fé. Mas tenha bom senso e na hora de tomar alguma decisão, converse com o médico de confiança, porque tem muito médico que não passa a segurança que a gestante necessita — e aí ela recorre a esses espaços".

Vida profissional

A HerForce, que é uma plataforma de divulgação de vagas e avaliação de empresas voltada para mulheres no Brasil, ouviu mais de 1.200 mulheres de diversas áreas de atuação profissional pelo Brasil e percebeu que 97% das mulheres entrevistadas querem encontrar empresas que se preocupam com a diversidade de gênero para se candidatarem às vagas de trabalho, e 72% sentem que a maternidade pode ameaçar ou já ameaçou o seu crescimento profissional. Pensando nisso e por meio das próprias experiências, Silaine Stüpp, atualmente grávida de 36 semanas, fundou a HerForce. "Queria que as mulheres não precisassem mais passar pelo que passei, como, por exemplo, me perguntarem em uma entrevista de trabalho sobre situações pessoais, como meus planos de engravidar ou se meu marido permitia que eu trabalhasse", comenta Silaine.

De acordo com a legislação da maior parte dos países, inclusive no Brasil, é proibido perguntar sobre os planos para engravidar numa entrevista de emprego, já que isso é discriminatório. Porém, a realidade é bem diferente — além de serem invasivas, as entrevistas não valorizam o potencial profissional das candidatas. Na HerForce é possível avaliar empresas em quesitos como flexibilidade do horário de trabalho e suporte familiar, que incluem o apoio à maternidade, auxílio creche, sala de lactação para as mães que estão em período de amamentação, licença paternidade mais igualitária e estabilidade de emprego ao retornar da licença maternidade.

A HerForce também já registrou casos positivos e avaliações de empresas que estão valorizando a diversidade em suas equipes e dando suportes às mulheres grávidas. "Fui contratada grávida de 3 meses, e a empresa fez questão de arcar com todos os custos de carência do convênio, para exames, consultas e parto. A licença maternidade é de 180 dias", diz outro depoimento encontrado na plataforma. "Fui contratada grávida de cinco meses. Durante todo o processo seletivo ,não me senti, em nenhum momento, insegura de que minha gravidez seria um fator prejudicial. Fui avaliada pelas pelas minhas competências. E desde o começo, a atenção às minhas necessidades e a tranquilidade com que estamos tratando a minha licença está sendo excelente. Além disso, a todo momento encontro exemplo de respeito à diversidade, com todos os funcionários", afirma mais uma usuária da HerForce.

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