Qual é a relação entre o novo coronavírus, as bactérias e o cobre?

Por Fidel Forato | 17 de Julho de 2020 às 19h45
Pixabay

Há milênios, as civilizações que habitaram nosso planeta utilizavam o cobre para fins medicinais, como aconteceu na sociedade egípcia, por exemplo. E, recentemente, dado o conhecimento milenar das propriedades do metal, pesquisadores começaram a investigar a fundo suas qualidades antimicrobianas, partindo do seguinte pressuposto: será que, diante da emergência sanitária causada pela pandemia do novo coronavírus (SARS-CoV-19), sua função antiviral também é significativa?

Quase como uma bomba atômica, em breve, a humanidade terá que enfrentar os problemas causados pelas bactérias resistentes aos mais potentes antibióticos. Quando esse dia chegar, Gerald Larrouy Maumus, que é pesquisador de doenças infecciosas do Imperial College, de Londres, aposta que as qualidades antimicrobianas do cobre podem vir a ser uma arma também na luta contra o coronavírus.

Pesquisadores investigam o potencial do cobre contra o novo coronavírus (Imagem: reprodução/ Unsplash)

Dos egípcios até hoje

"O primeiro uso medicinal de cobre, para o qual existem registros, está documentado no chamado Papyri Smith, um antigo texto médico egípcio escrito entre os anos de 2600 e 2200 a.C.", comenta Michael Schmidt, que é professor de microbiologia e imunologia da Universidade Médica da Carolina do Sul, nos Estados Unidos, para a BBC.

Atualmente, investigando o uso de cobre em ambientes hospitalares, o professor norte-americano ainda conta que "esses papiros [egípcios] falam sobre o uso de cobre para desinfetar feridas no peito e tornar a água potável". Hoje, a ciência compreende melhor suas aplicações e sabe, inclusive, que metais pesados — ​​como ouro e prata — também são antibacterianos. No entanto, a estrutura atômica do cobre faz dele um material ainda mais interessante para esse fim.

Isso porque o cobre possui um elétron livre, na órbita externa de seus átomos, o que facilita o elemento químico a promover reações. Além de bom condutor, o cobre também consegue atacar patógenos e agentes infecciosos de diferentes formas, já que os seus íons -(as partículas eletricamente carregadas do metal) geram algo similar a um ataque ou golpe contra a membrana mais externa dos micróbios, o que causa rupturas.

Após a quebra dessa membrana, os íons do metal ainda destroem o material genético de dentro do patógeno, explica Maumus, o pesquisador do Imperial College. "Basicamente, o cobre gera radicais livres que danificam o DNA ou o RNA de bactérias ou vírus, impedindo sua replicação", completa sobre a atuação do metal que impede as bactérias de gerar uma resistência e, consequentemente, de se reproduzirem.

Se o cobre tem essas propriedades, por que não é utilizado em larga escala na saúde pública? (Foto: Ra Dragon/Unsplash)

Eficaz contra o novo coronavírus? 

Ainda não há na área estudos específicos para o novo coronavírus, entretanto, o microbiologista Bill Keevil, da Universidade de Southampton, no Reino Unido, acredita, sim, na eficácia do cobre contra o agente infeccioso. Isso porque, ainda em 2015, o pesquisador britânico trabalhou em pesquisa sobre a sobrevivência de um outro coronavírus humano, conhecido por 229E, em diferentes superfícies.

Entre as análises do artigo, Keevil descobriu que o vírus permanecia ativo por vários dias em determinadas superfícies como o vidro e o aço inoxidável, mas "deixou de ser ativo em superfícies de cobre em uma média de cinco a 10 minutos".  Agora, deve publicar um estudo específico sobre o efeito do cobre no novo coronavírus, em breve. "Em nosso trabalho com o SARS-CoV-2, descobrimos que o cobre inativa o vírus em menos de uma hora", adianta.

Um outro estudo, publicado em março pela New England Journal of Medicine, e desenvolvido por cientistas da Universidade de Princeton, do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos EUA e de outros centros de pesquisa, colabora com evidências sobre a eficácia do cobre contra o vírus causador da COVID-19. Nesse estudo, foi analisado quanto tempo o coronavírus resiste em diferentes superfícies. Nas superfícies de cobre, não foram identificadas partículas ativas ​​do SARS-CoV-2 após quatro horas de contato.

É pela comprovada capacidade antibacteriana e, potencialmente, antiviral que o cobre é usado em alguns ambientes hospitalares, como é o caso do Hospital Dr. Salvador Allende, na cidade de Calama, no norte do Chile, por exemplo. No entanto, um dos principais problemas é o seu valor de mercado, que impede muitas aplicações do material.

Fonte: BBC

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