Postura errada pode custar caro aos usuários de pc e gadgets

Por Nathan Vieira | 27 de Março de 2020 às 16h10

Nesse exato momento você está sentado de qualquer jeito diante de seu notebook ou está todo curvado para frente, para olhar o celular. Acertamos? Pois tome muito cuidado: a má postura pode custar caro. Quando a gente lê por aí que sentar de maneira torta e irresponsável para mexer no computador gera consequências, pode até achar que é exagero. Mas acredite: isso é muito mais sério do que o imaginado.

De acordo com Juliano Fratezi, médico ortopedista e especialista em coluna e dor, membro da Sociedade Brasileira de Coluna (SBC) e da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT), com a má postura, pode ocorrer a sobrecarga dos discos intervertebrais. Na posição sentada, a sobrecarga pode afetar a região lombar e os discos da cervical, por causa da postura entre a cabeça e os ombros.

Juliano conta que, logo no início, a pessoa que está sentada da maneira errada já sente uma sobrecarga na lombar e na cervical, porque quando há a má postura, a distribuição de carga não é a ideal, então os músculos irão sofrer com isso logo de cara. “Na primeira meia hora de má postura já é possível sentir a tensão muscular. Em meses e anos de má postura, identificamos as cifoses – o aumento da curvatura da coluna torácica (a famosa corcunda) —, o pescoço é projetado para a frente, sobrecarregando os ombros e também a coluna lombar”, afirma. O médico aproveita para acrescentar que a má postura frequente pode causar uma deformidade mais permanente e mais difícil de tratar depois.

Em contrapartida, a fisioterapeuta Maraísa Teodoro, da DaVita Serviços Médicos, compartilha um olhar diferente. “Na verdade, não existe postura correta.  Nossa postura sofre influência de diversos fatores como biotipo, genética (características familiares), idade (com o avançar da idade a tendência é ficarmos mais curvados) etc., com isso não podemos dizer que existe uma má postura.  Então, devemos nos preocupar em quanto tempo permanecemos na mesma posição, isso sim é importante”, dispara.

Além disso, Maraísa aponta que outro fator que influencia muito é o nível de atividade física do indivíduo, ou seja, o quanto a pessoa é ativa ou não. Como hoje em dia grande parte da população é sedentária, isso faz muita diferença quando se fala de postura.  “A musculatura de uma pessoa sedentária não consegue sustentar uma postura alongada por muito tempo, gerando compensações e ajustes que irão causar dores e até lesões ao longo do tempo”, conta. 

Segundo a fisioterapeuta, entre os mais acometidos estão os adolescentes devido ao uso excessivo de jogos e redes sociais. Nessa faixa etária é comum o desenvolvimento de escoliose, uma alteração das curvaturas da coluna, e este problema não é causado pelo uso de notebooks ou celulares,  mas para quem já tem esta alteração, manter uma postura por horas pode agravar o problema. Outra faixa etária que também é muito acometida, de acordo com a fisioterapeuta em questão, são os adultos entre 20 e 40 anos, principalmente pelo fator estresse e sedentarismo. “ Normalmente são pessoas sedentárias, com poucas horas de descanso, muitas horas de trabalho e nos momentos de pausa recorrem aos celulares para checar as redes sociais”, explica. 

Entre as lesões mais leves, a fisioterapeuta cita os desconfortos e contraturas musculares, aquela dorzinha que aparece no pescoço que geralmente não damos atenção e que passa sozinha com uma noite de sono ou uso de algum analgésico. Quanto às lesões moderadas, temos as tendinites e tenossinovites, que são “as inflamações dos tendões e algumas articulações que demoram mais para curar, geralmente necessitam de acompanhamento médico e sessões de fisioterapia para o controle da inflamação e recuperação da articulação”.

No grupo de lesões mais graves, há as tendinites crônicas, onde aquela tendinite que inicialmente era moderada, se torna repetitiva e sua recuperação mais demorada, precisando muitas vezes parar completamente com as atividades até a recuperação e, naqueles casos onde a pessoa já apresenta alguma alteração postural isso pode se agravar, levando a piora das alterações, ocasionando dores e até problemas no convívio social.

Celular e riscos à saúde

E se você acha que apenas ficar no computador é que pode ser prejudicial para a saúde, está errado. O celular também tem as suas consequências. “A cada 15 graus de angulação da cabeça em relação ao pescoço, duplicamos o esforço. Como nossa cabeça pesa em torno de 6kg, com uma angulação do pescoço de 60 graus o esforço gerado na coluna seria como se ela pesasse 27 kg. Dessa forma o uso prolongado do celular pode acelerar, em quem tem predisposição, o processo de desgaste da coluna”, explica Dr Enrico Salomão Ioriatti, especialista em coluna e membro da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia.

Por sua vez, Juliano aponta que os cuidados ao usar o celular são necessários assim como no caso do uso do computador. “Esse hábito que se cria dessa má postura da cabeça curvada para a frente, o corpo pode se acostumar a ficar nessa posição e você, literalmente, ficar corcunda. Depois, é necessário fazer R.P.G e outros tratamentos para voltar ao normal. E, além disso, você pode acelerar o desgaste dos discos, que são os amortecedores naturais da coluna”, alerta o especialista em coluna.

Existe uma postura ideal?

Juliano explica que a coluna é como se fosse a pilastra do corpo e os músculos são o que ajudam a segurar essa pilastra no lugar: “Então a prevenção é você ter uma boa postura para auxiliar a distribuição de cargas e uma boa musculatura para ajudar a coluna a ser sustentada. Isso é possível por meio de atividades físicas regulares. Não é preciso ser nenhum atleta, mas uma atividade física bem orientada de duas a três vezes por semana já pode, com certeza, melhorar a qualidade de vida de qualquer indivíduo”.

No entanto, para Enrico, o segredo é mudar constantemente a posição e postura e não ficar sentado, em pé ou deitado na mesma postura por mais do que 30 minutos. “É recomendado que a pessoa faça mudanças constantes de posição, pois quando nos movimentamos, nossas articulações são “lubrificadas” — o que previne o desgaste e o processo de artrose. Alongamentos e exercícios de relaxamento diários também ajudam e prevenir esses problemas”, orienta o profissional. Enrico também destaca que o uso do tabaco deve ser evitado. Atividades físicas regulares e um sono de qualidade também ajudam na prevenção desses problemas. 

Quanto aos computadores, Enrico recomenda manter telas e monitores na altura dos olhos, ter apoios acolchoados para punhos e braços, manter os pés bem apoiados e usar uma cadeira que tenha um bom apoio para a coluna lombar e dorsal, preservando a sua curvatura em lordose. “Dessa maneira o uso de cadeiras, mouses e teclados ergonômicos podem ajudar quem passa por longas horas no computador”, declara. 

Para Juliano, a cadeira ideal é aquela com apoio para os braços e para a lombar, e a mesa vai depender do tamanho da pessoa. “Se a pessoa é muito alta, por exemplo, com dois metros de altura, as mesas convencionais são pequenas para ela. É preciso se ajeitar para não ter a má postura”. Quanto às telas, o ponto de vista de Juliano é o mesmo que o de Enrico. “Agora, a tela do computador é muito importante, pois ela deve ficar na altura dos olhos. Senão a gente fica olhando para baixo e acaba projetando a cabeça para frente. Isso causa a sobrecarga dos discos, a tensão muscular e favorece o surgimento ou agravamento de deformidades como a cifose”, afirma.

Questionado sobre a aplicação de mouses e teclados ergonômicos, Juliano dá uma dica: a altura da mesa e da tela, além da cadeira adequada, são medidas – muitas vezes – mais simples e mais eficazes do que teclados e mouses especiais. “Às vezes, improvisar com uma simples caixa de sapato ou um comprar um suporte simples entre a mesa e o monitor já garantem a altura correta. O ideal é que você se sente à mesa e se sinta confortável, em uma boa postura. Isso é ideal e melhor até do que comprar equipamentos especiais”, indica. O profissional revela que não adianta você ter um mouse ergonômico e estar em uma mesa muito baixa para você, por exemplo, ou um computador que esteja muito baixo.

Tratamento

De acordo com Juliano, o tratamento dessas lesões depende do grau. O profissional aponta que, geralmente, são indicadas sessões de fisioterapia, quiropraxia, RPG e pilates. Em casos mais graves, em que há a hérnia de disco com compressão neural, o tratamento pode ser até cirúrgico. Em sua opinião, a melhor tática seria a prevenção, mesmo.

O analista de negócios Jamil Moura é paciente de Juliano, e teve uma protrusão discal que evoluiu para hérnia de disco, principalmente pelo tempo que passou sentado sem atentar a postura correta em frente ao computador. “Trabalho em frente ao computador o dia inteiro e isso ajudou bastante o agravamento, principalmente a evolução da protrusão para a hérnia. Entre 2017 e 2018 cheguei a trabalhar 20 horas por dia. Esse tempo todo sentado desconfortavelmente e em todas as posições erradas”, conta.

Jamil julgou que precisava ir ao médico quando as dores da lombar não passavam mais com relaxantes musculares e anti-inflamatórios comuns, e elas começaram a irradiar para as pernas, chegando até os calcanhares. “Fui diagnosticado com protrusão discal nos níveis L5-S1. No início, optamos pelo tratamento conservador, que era tomar analgésico para reduzir a dor e em seguida fisioterapia e acupuntura para fortalecimento, fora os exercícios físicos para fortalecimento para que as dores fossem embora”, relembra o analista.

Ele reconhece que seu principal erro, em meio a tudo isso, foi não seguir todas as orientações. “Como o remédio logo fazia efeito e a correria do dia a dia era intensa, ficava sentado em frente ao PC no mínimo oito horas por dia sem levantar e fazer uma pequena caminhada a cada pelo menos 1 hora sentado, sentava 'jogado' na cadeira. Eu fazia as primeiras sessões de fisioterapia e parava. Exercícios? Fazia menos ainda, era aquela pessoa que paga o ano de academia e só vai um mês. Até que chegou o momento que a dor veio e não foi mais embora, nenhum tipo de remédio tirava a dor. Resolvemos fazer a cirurgia de artrodese”.

Por fim, o dr. Enrico diz que, inicialmente, é recomendado que você procure um médico especialista em coluna. Após um diagnóstico preciso, o médico irá decidir com você a melhor estratégia de tratamento. "O segredo de uma boa consulta é você identificar junto com o especialista quais foram os fatores que o levaram ao referido problema. O paciente deve ser o ator principal na promoção de sua saúde. A mudança de hábitos é fundamental independente do tratamento escolhido. E o tratamento, na maioria das vezes, pode ser feito através de fisioterapia e atividades físicas — eventualmente com uso de medicações para alívio momentâneo das dores e inflamações. E. em casos mais graves, são necessários até mesmo procedimentos intervencionistas", conclui.

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