O que são autoanticorpos? E por que eles podem piorar casos da COVID-19?

O que são autoanticorpos? E por que eles podem piorar casos da COVID-19?

Por Fidel Forato | Editado por Luciana Zaramela | 01 de Junho de 2021 às 16h20
iLexx/Envato Elements

Em casos graves de pacientes infectados pelo coronavírus SARS-CoV-2, uma das preocupações é a tempestade de citocinas. O "evento" biológico acontece quando o próprio corpo do indivíduo passa a produzir uma quantidade exagerada de defesas, conhecidas como citocinas — uma proteína que regula a resposta imunológica —, e que atacam partes saudáveis do organismo. Além disso, há o risco dos autoanticorpos, segundo novo estudo, do qual falaremos a seguir.

Contra a COVID-19, os autoanticorpos podem atacar tecidos saudáveis ​​do cérebro, do fígado e do trato gastrointestinal, além das próprias plaquetas do sangue. Nesses casos, este tipo de anticorpo age, de forma semelhante, aos que causam doenças autoimunes, como lúpus ou artrite reumatoide.

Nível de autoanticorpos pode apontar para gravidade da COVID-19 (Imagem: Reprodução/Swiftsciencewriting/Pixabay)

Anticorpos não são sempre aliados?

Segundo pesquisadores da Universidade de Yale, nos Estados Unidos, quanto mais autoanticorpos forem detectados, maior tende a ser a gravidade da infecção pelo coronavírus nos doentes. Isso porque os autoanticorpos têm como alvo e interferem com muitas proteínas do sistema imunológico, que são projetadas, naturalmente, para evitar infecções, segundo o preprint — estudo não revisado por pares — publicado pela revista científica Nature.

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Por outro lado, o desenvolvimento de anticorpos sintéticos em resposta ao vírus da COVID-19 é uma das grandes apostas farmacológicas contra a pandemia. No entanto, os pesquisadores alertam que a resposta pode não ser tão simples. “É uma faca de dois gumes”, explica Aaron Ring, professor da Universidade de Yale e principal autor do artigo. 

“Os anticorpos são cruciais para evitar a infecção, mas alguns pacientes com COVID-19 também desenvolvem anticorpos que danificam suas próprias células e tecidos”, detalha. Para entender a relação destes autoanticorpos, o estudo examinou amostras de sangue de 194 pacientes que contraíram o vírus, com diferentes níveis de gravidade.

Casos graves da COVID-19 e a ação dos autoanticorpos

"Descobrimos que os pacientes com COVID-19 revelam aumentos dramáticos nas reatividades de autoanticorpos em comparação com [pacientes] controle não infectados, com uma alta prevalência de autoanticorpos contra proteínas imunomoduladoras, incluindo citocinas, quimiocinas, componentes do complemento e proteínas da superfície celular", destacam os pesquisadores sobre as descobertas do estudo.

Infecções do coronavírus podem desencadear a produção de autoanticorpos (Imagem: Reprodução/Photocreo/Envato Elements)

Em outras palavras, estes anticorpos atacam uma parcela significativa dos sistemas de defesa do corpo contra agentes infecciosos. Nesses casos, o coronavírus pode se proliferar mais facilmente.  "Estabelecemos que esses autoanticorpos perturbam a função imunológica e prejudicam o controle virológico, inibindo a sinalização de imunorreceptores e alterando a composição de células imunológicas periféricas", completam, sobre a possibilidade de piora do quadro.

Origem dos autoanticorpos

Em muitos casos, a principal explicação é de que a infecção do coronavírus desencadeou a produção desse tipo de anticorpo prejudicial, explica o pesquisador Ring. No entanto, é provável que alguns pacientes já tivessem autoanticorpos pré-existentes e isso os torne mais suscetíveis à infecção na forma grave, comenta. Em teste com camundongos, os animais que carregavam esses autoanticorpos eram mais suscetíveis à infecção pelo vírus e mais propensos a morrer.

Além disso, a existência desses autoanticorpos pode ajudar a explicar o porquê de alguns pacientes  desenvolverem sintomas duradouros da doença, também conhecida como COVID-19 de longa duração, mesmo que a infecção tenha sido assintomática em um primeiro momento. Diante desse cenário, “nossas descobertas reforçam a importância de se vacinar”, defende outra autora do estudo, Akiko Iwasaki. “O fato de que até mesmo infecções leves estão associadas à produção de autoanticorpos ressalta o potencial para consequências de longo prazo da COVID-19 para a saúde.”

Para acessar o artigo completo sobre os autoanticorpos na COVID-19, publicado pela revista científica Nature, clique aqui.

Fonte: Futurity  

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