Nervo vago | Tudo o que a ciência já descobriu sobre sua estimulação

Nervo vago | Tudo o que a ciência já descobriu sobre sua estimulação

Por Fidel Forato | Editado por Luciana Zaramela | 09 de Junho de 2022 às 12h40
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Composto por fibras nervosas que vão do cérebro ao abdômen, o nervo vago é realmente popular nas redes sociais. Centenas de milhares de posts sobre a sua capacidade de regular o sistema nervoso ou ainda a ansiedade e depressão são compartilhados entre os usuários do Instagram e do TikTok.

Apesar do recente fascínio digital, a ciência investiga possíveis terapias envolvendo o nervo vago há mais de 200 anos. Em 1800, a principal ideia era estimulá-lo para controlar os efeitos da epilepsia. Mais tarde, pesquisidores descobriram os seus potenciais efeitos sobre o humor. Mais especificamente, na melhora do humor.

Nervo vago pode ser estimulado para a melhora de diferentes quadros médicos, como depressão (Imagem: Girl with red hat/Unsplash)

No entanto, as formas de estimulação e o uso eficaz em tratamentos médicos ainda estão em investigação ou em fase de aprimoramento. Inclusive, vale o conselho de que nem tudo o que está nas redes sociais é verdade, ainda mais quando o assunto é saúde. A seguir, confira tudo o que já sabemos sobre o funcionamento do nervo vago:

Afinal, o que é nervo vago?

Por nervo vago, entende-se a soma de milhares de fibras nervosas, que nascem no tronco cerebral —uma região que está localizada atrás das orelhas. Este é o principal nervo do sistema nervoso parassimpático, ou seja, sua atividade está diretamente relacionada com o descansar, o digerir e o acalmar.

Para ilustrar a extensão das suas atividades, o neurocirurgião e um dos principais especialistas do mundo sobre o assunto, Kevin J. Tracey, explica que ele pode ser encarado como uma árvore, já que seus galhos se estendem por quase todos os sistemas do corpo. Também há quem o encare como uma estrada, já que passa por pontos centrais do organismo.

Como parte de suas atividades, o nervo vago capta informações sobre o funcionamento dos órgãos, através de sensores, e envia estes "relatórios" para o cérebro. Com isso, ajuda a controlar diferentes mecanismos do corpo, como a digestão, a frequência cardíaca, o humor, a voz e o sistema imunológico.

O que a ciência já descobriu sobre ele?

Atualmente, evidências científicas indicam que o estímulo do nervo vago pode melhorar o quadro de pessoas com epilepsia, diabetes, depressão resistente ao tratamento e transtorno de estresse pós-traumático. Além disso, efeitos positivos já foram associados com a melhora de condições autoimunes, como artrite reumatoide.

A princípio, “pode soar meio mágico todas as coisas que faz”, comenta Eric Porges, da Universidade da Flórida, nos EUA, para o jornal The New York Times. No entanto, Porges explica que o número de potenciais benefícios está associado com as regiões do corpo com as quais está conectado. Ainda hoje, o conhecimento sobre o nervo vago “continua a crescer em riqueza e profundidade”, acrescenta.

Dispositivos médicos

Quando a depressão não é solucionada com os remédios tradicionais, terapias que envolvem a estimulação do nervo vago podem ser adotadas (Imagem: Jakob Rosen/Unsplash)

A principal questão ainda é entender como é possível obter todos os potenciais benefícios. Nesse sentido, um dos principais caminhos de pesquisa é o estímulo elétrico. Em 2005, a agência Food and Drug Administration (FDA) aprovou os primeiros dispositivos geradores de pulso implantáveis para o nervo vago. A autorização de uso era direcionada para o tratamento de pacientes com depressão resistente ao tratamento. Passados quase 20 anos, o uso ainda é bastante limitado, já que os custos envolvidos no implante são bastante altos.

Para comprovar a eficácia da técnica, um estudo clínico randomizado, liderado pela fabricante de dispositivos médicos LivaNova, está em andamento. No total, cerca 6,8 mil participantes devem ser recrutados na pesquisa que avalia os efeitos da terapia contra a depressão. Este é o maior ensaio do tipo e foi iniciado em 2019. A conclusão é prevista para o ano de 2030.

Opções semelhantes de eletroestimulação também existem para obesidade e epilepsia. No caso da epilepsia, "o aparelho envia um estímulo elétrico suave e regulação ao longo do nervo vago. De alguma forma, isso acalma a atividade cerebral irregular que leva às convulsões. Portanto, pode ser que essa ativação faça com que o cérebro libere neurotransmissores que reduzem a atividade convulsiva", detalha o médico Xand van Tulleken para o canal BBC.

Dá para estimular em casa?

“Para o bem-estar, tente manter a atividade do nervo vago alta por meio de atenção plena, exercícios e respiração acelerada”, resume o neurocirurgião Tracey sobre medidas que podem estimular o bom funcionamento desta estrutura tão importante para o corpo.

Apesar de algumas postagens irem ao extremo e sugerirem, por exemplo, mergulhar o rosto em água fria para tratar a depressão, a realidade não é bem assim. Este estímulo com água gelada pode ter um efeito calmante, mas não foi analisado por estudos científicos que comprovassem o tratamento do distúrbio psiquiátrico. Aqui, estamos falando de quadros de saúde sérios. Se for feito em casa, a prática deve ser encarada apenas como uma medida relaxante.

Fonte: Com informações de: NYT, NIH e BBC    

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