NeoCoV: tipo diferente de coronavírus chama atenção, mas não chegou em humanos

NeoCoV: tipo diferente de coronavírus chama atenção, mas não chegou em humanos

Por Fidel Forato | Editado por Luciana Zaramela | 28 de Janeiro de 2022 às 16h10
Signe Allerslev/ Pixabay

Pesquisadores chineses alertam para os potenciais riscos de um tipo específico de coronavírus, o NeoCoV, que vive em morcegos na África do Sul. Em tese, esse agente infeccioso pode se tornar mais transmissível e até letal, caso sofra mutações e chegue até os humanos. Atualmente, só foi identificado em animais.

Publicado na plataforma BioRxiv, o preprint — estudo ainda não revisado por pares — foi desenvolvido por pesquisadores da Universidade de Wuhan, na China. Especialistas que não participaram da pesquisa e a Organização Mundial da Saúde (OMS) pedem cautela na interpretação desses dados.

Presente em morcegos, o coronavírus NeoCoV pode ser um risco para os humanos no futuro (Imagem: Reprodução/Jose Miguel Guardeño/Pixabay)

O NeoCoV está ligado ao vírus MERS-CoV, um agente infeccioso identificado pela primeira vez na Arábia Saudita, no ano de 2012. Este é conhecido por causar a MERS (Síndrome respiratória do Oriente Médio), mas novos casos da infecção estão controlados desde então.

Entenda o estudo do NeoCoV

No momento, o NeoCoV é transmitido apenas entre morcegos, mas os pesquisadores de Wuhan sugerem que, eventualmente, poderiam ser transmitido para humanos. Para isso, mutações específicas seriam necessárias, o que não ocorreu até hoje.

Sobre a nova pesquisa, os autores contam: "Descobrimos inesperadamente que o NeoCoV e seu parente próximo, o PDF-2180-CoV, podem usar eficientemente alguns tipos de enzima conversora de angiotensina 2 (ACE2) de morcego" para a entrada em células saudáveis. Eventualmente, poderia usar também a ACE2 humana.

O que é ACE2?

É importante entender o que é a enzima ACE2. Responsável pela pandemia do coronavírus SARS-CoV-2, o vírus da covid-19 usa a proteína spike (S) da sua membrana para invadir células saudáveis do organismo humano. Mais especificamente, a invasão é feita pela área conhecida como Domínio de Ligação ao Receptor (RBD).

Por sua vez, o RBD mira na enzima ACE2, presente nas células humanas, e assim consegue acessar a célula saudável. Inclusive, a variante Ômicron (B.1.1.529) tem inúmeras mutações na proteína spike e este é um dos fatores que a levam a ser mais transmissível.

Agora, podemos voltar ao estudo de Wuhan. Na pesquisa, a equipe observou que a atual versão do NeoCoV usa a mesma porta de entrada do vírus da covid-19 para invadir células, porém, a atual versão não consegue invadir as células humanas. Para isso, novas mutações precisariam ocorrer.

Anticorpos contra a covid-19 não funcionam contra o NeoCoV e não há imunidade cruzada, segundo pesquisadores chineses (Imagem: Reprodução/iLexx/Envato Elements)

Outro ponto apontado pela pesquisa é que os anticorpos, produzidos pelo organismo humano após casos da covid-19 e da MERS, não são eficazes contra o NeoCoV. "A infecção não pôde ser neutralizada de forma cruzada por anticorpos direcionados ao SARS-CoV-2 ou MERS-CoV", afirmam os pesquisadores.

Afinal, isso é um risco?

De acordo com especialistas, as descobertas feitas pelos cientistas de Wuhan não representam um risco para a humanidade. Apenas apontam para a necessidade de se acompanhar mais um tipo de coronavírus e sua evolução. Além disso, este pode ser um alerta sobre a importância de preservação do habitat natural dessas espécies.

De acordo com o médico Shashank Joshi, presidente da divisão do Sudoeste Asiático da Internacional Diabetes Foudation (IDF), o vírus NeoCoV é um conhecido agente infeccioso. Anteriormente, sabia-se que ele usava os receptores DPP4 para invadir as células animais.

"O que há de novo: o NeoCoV pode usar os receptores ACE2 de morcegos", explica Joshi sobre o novo estudo. No entanto, o vírus "não pode usar o receptor ACE2 humano, a menos que ocorra uma nova mutação", completa.

OMS lembra origens dos vírus e pede cautela

A Organização Mundial da Saúde (OMS) também alertou para conclusões precipitadas sobre o estudo preliminar, segundo a agência russa de notícias TASS. "Se o vírus detectado no estudo representará um risco para os seres humanos, isso exigirá mais estudos", afirmou a OMS.

Atualmente, a OMS já trabalha no monitoramento de vírus zoonóticos emergentes. Nesse sentido, a organização lembra que "os animais, particularmente os selvagens, são a fonte de mais de 75% de todas as doenças infecciosas emergentes em humanos, muitas das quais são causadas por novos vírus. Os coronavírus são frequentemente encontrados em animais, inclusive em morcegos que foram identificados como um reservatório natural de muitos desses vírus".

Fonte: BioRxiv e Tass    

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