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Mifepristona: o que sabemos sobre a pílula do aborto nos EUA

Por  • Editado por  Luciana Zaramela  | 

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Sharon McCutcheon/Unsplash
Sharon McCutcheon/Unsplash

Passados mais de 20 anos da primeira autorização para as pílulas abortivas nos Estados Unidos, o sistema judiciário do país entra na questão de saúde pública, questionando o acesso aos medicamentos mifepristona e misoprostol. Quando combinados, interrompem a gravidez, o que pode ser feito, legalmente, até a décima semana da gestação (70 dias).

As ações contra o acesso ao medicamento mifepristona e as primeiras decisões favoráveis para limitar o uso vieram do estado do Texas. Diante do conflito entre os juízes texanos e as entidades médicas norte-americanas, como a agência Food and Drug Administration (FDA), a questão deve ser analisada pela Suprema Corte. Inicialmente, o maior tribunal do país emitiu parecer favorável ao amplo uso da medicação abortiva.

E o Brasil? Aqui, vale destacar que, no Brasil, o mifepristona não é aprovado para uso de mulheres que desejam interromper uma gravidez. Enquanto isso, o misoprostol pode ser usado em ambientes hospitalares.

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Entenda a futura batalha jurídica pelo uso da pílula com mifepristona

No Texas, um grupo de médicos defende que o processo de análise e autorização da FDA foi acelerado demais para o medicamento mifepristona, já que pode apresentar sérias complicações para a saúde dos pacientes — o que segundo especialistas e estudos científicos não é verdade. Com esse argumento, o grupo conseguiu suspender temporariamente o acesso ao remédio, taxado de “aborto químico”, mas a medida está temporariamente suspensa.

"A decisão judicial sem precedentes emitida em 7 de abril por um juiz do tribunal distrital federal do Texas para suspender o uso de mifepristona — uma medicação extremamente segura e eficaz, apoiada por centenas de estudos e usada por milhões de mulheres — favorece a ideologia e a pseudociência sobre os fatos, prejudica os pacientes, interfere na relação médico-paciente e compromete a saúde pública em todo o país”, pontua Jack Resneck, presidente da Associação Médica Americana (AMA), em comunicado.

Entenda o que faz a dupla de remédios mifepristona e misoprostol

Antes de seguirmos, é importante entender a função dos dois medicamentos na interrupção de uma gravidez. A medicação mifepristona vai bloquear a produção do hormônio progesterona, conectado diretamente com o endométrio — a camada que reveste a parte interna do útero, onde o embrião irá se desenvolver. De forma resumida, é ela que vai interromper a gravidez, enquanto o misoprostol tem a função de “esvaziar” o útero. Esta última fórmula, aparentemente, não está no alvo das atuais discussões.

Desde quando a medicação é liberada nos EUA?

Nos EUA, a FDA aprovou, pela primeira vez, o mifepristona em setembro de 2000, ou seja, há mais de 22 anos. Naquele momento, o limite máximo de uso era até a sétima semana da gestação — hoje, é até a décima. Em abril de 2019, versões genéricas do medicamento entraram no mercado.

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Quem não pode usar o medicamento abortivo?

Segundo a FDA, quem passou do uso limite está proibido de tomar mifepristona. Além disso, em alguns casos, a medicação não é indicada por envolver riscos já conhecidos, como:

  • Mulheres com gravidez ectópica (fora do útero);
  • Pacientes com alterações nas glândulas supra-renais (próximas aos rins);
  • Quem faz uso contínuo de corticóides (medicamento);
  • Quem tem alergia a algum componente das fórmulas;
  • Quem tem problemas de coagulação ou está tomando anticoagulantes;
  • Pessoas com diagnóstico de porfiria hereditária (um grupo de doenças raras associadas com a disfunção da hemoglobina);
  • Quem usa o dispositivo intrauterino (DIU).

Afinal, a medicação é segura para mulheres?

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No atual entendimento da FDA, “o [remédio] mifepristona é seguro quando usado conforme indicado”. Em paralelo, a agência norte-americana afirma que continua a monitorar os dados de segurança da fórmula usada na interrupção médica da gravidez, “como acontece com todos os medicamentos [aprovados]”.

Quais são os efeitos colaterais da pílula abortiva?

Para entender as questões de segurança envolvendo o uso da pílula abortiva, é interessante entender a opinião de especialistas, como a AMA e a FDA. Em outra frente, é válido buscar grandes estudos e relatórios que investiguem a situação. Neste ponto, vale considerar uma revisão sistemática sobre abortos, elaborada por um comitê de pesquisadores da National Academies of Sciences, Engineering, and Medicine, em 2018.

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No documento, os autores afirmam que, como outros medicamentos, o uso de mifepristona pode ter alguns diferentes efeitos adversos, sendo a maioria leves ou moderados, como:

  • Cólicas, dor e sangramento, semelhantes aos sintomas de um aborto espontâneo;
  • Náusea e vômito;
  • Fraqueza;
  • Diarreia;
  • Dor de cabeça;
  • Tontura;
  • Febre e/ou calafrios.

No entanto, as reações graves que levam a mulher a ser hospitalizada não são comuns. "As complicações após o aborto medicamentoso, como hemorragia, hospitalização, dor persistente, infecção ou sangramento intenso prolongado, são raras, ocorrendo em não mais do que uma fração de 1% dos pacientes”, afirma o relatório.

Além disso, casos de infecção grave raramente ocorrem após o aborto medicamentoso. Segundo os autores, “relatos de sepse fatal são extremamente raros (menor que 1 em 100.000)”. Além disso, "não há evidência de uma relação causal entre o uso de mifepristona e misoprostol e risco aumentado de infecção ou morte”, acrescentam. Por outro lado, os riscos são muito maiores quando não há acesso à medicação e a mulher recorre a espaços clandestinos para realizar o procedimento.

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Como a OMS encara o uso da mifepristona por mulheres?

Para além da questão nos EUA, a Organização Mundial da Saúde (OMS) também considera como seguro o uso de misoprostol e mifepristona, conforme orientado, para interromper a gravidez. Inclusive, as duas medicações integram a lista de medicamentos essenciais da organização, ou seja, há recomendação do acesso ser facilitado.

"Quando usamos esses comprimidos, o aborto ocorre em algumas horas ou alguns dias. Nas primeiras 12 semanas de gravidez [84 dias], esse processo pode ser autogerenciado”, pontua Bela Ganatra, da OMS, em comunicado. Diferente das normas da FDA, o entendimento de uso da organização é ainda mais abrangente.

Fonte: OMS, FDAAMA e National Academies