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Guerra biológica: por que mongóis catapultavam cadáveres onde hoje é a Crimeia?

Por| Editado por Luciana Zaramela | 23 de Março de 2022 às 13h30

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Qypchak/Domínio Público
Qypchak/Domínio Público

Táticas de guerra raramente raramente são práticas humanizadas, mas algumas delas são especialmente degradantes. É o caso do cerco de Caffa, atual Teodósia, na Crimeia (Ucrânia), que à época pertencia aos genoveses e estava sendo atacada por tártaro-mongóis. Em 1346, a cidade era um posto comercial importante para o comércio no leste europeu, e contava com 16 mil habitantes. Após sofrer com um surto de peste bubônica, o exército tártaro começou a atirar seus mortos por cima das muralhas.

O relato é do contemporâneo genovês Gabriele de' Mussi, que, vale notar, não estava presente no cerco. Segundo ele, os invasores estavam perdendo soldados na casa dos milhares. Já perdendo as esperanças de vencer, imaginou-se que seria uma boa ideia jogar os cadáveres muralha acima, acreditando que o fedor espalharia a praga e mataria os sitiados. À época, não se sabia bem o que transmitia as doenças.

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Estudos sobre o relato

A análise do texto de época foi feita pelo microbiologista Mark Wheelis, que a publicou em um estudo na revista Emerging Infectious Diseases. Segundo ele, é plausível que a peste tenha entrado na cidade da forma relatada por de' Mussi: a outra possibilidade seria a da entrada de ratos no local, trazidos pelos atacantes de forma não-intencional, e causadores da doença em seu próprio exército.

Os roedores eram vetores da doença, já que carregavam pulgas infectadas, mas é mais improvável que as tenham espalhado — os cercos eram montados a pelo menos 1 km das cidades, e os ratos não se afastariam tanto de seus ninhos, então as chances das populações roedoras de dentro das muralhas terem encontrado as de fora são ínfimas. Corpos infectados atirados por catapultas, como nos relatos do autor genovês, representam uma probabilidade muito maior ao espalhamento da praga.

Wheelis afirma que a crença de que os cadáveres estariam espalhando a doença é consistente com o pensamento da época, além de ser uma maneira efetiva de lidar com os corpos dos mortos. Há pouco que a cidade citiada podia fazer quanto a isso além de atirar os corpos no mar, e, segundo o relato, eles acabaram por envenenar a água de Caffa e encher o ar de fedor pestilento, espalhando a peste. Há, no entanto, aspectos inconsistentes no relato.

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Enquanto de' Mussi afirma que a tática acabou por espalhar a chamada Peste Negra por toda a Europa, o microbiologista é cético quanto a isso. A doença se espalhou pela cidade, de fato, e alguns refugiados do ataque foram até outras partes do continente, mas outros métodos de infecção foram os responsáveis por levá-la à Europa em larga escala, como os ratos que abordavam os navios dos comerciantes venezianos e genoveses.

Wheelis ainda comenta que o relato representa um dos primeiros ataques biológicos registrados na história humana, que também fica entre os mais bem-sucedidos de todos os tempos. Apesar disso, os tártaro-mongóis acabaram por abandonar o cerco, deixando os genoveses com a cidade. A transmissão da peste, no final das contas, foi mais efetiva como terror psicológico ao inimigo, com pouco valor tático.

O microbiologista conclui seu artigo com um lembrete do quão cruel a guerra biológica pode ser, um alerta aos perigos de esforços militares e terroristas utilizarem táticas como essa em conflitos mais atuais.

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Fonte: Emerging Infectious Diseases