Estudo propõe ligação entre ter gato na infância e desenvolver psicose no futuro

Estudo propõe ligação entre ter gato na infância e desenvolver psicose no futuro

Por Augusto Dala Costa | Editado por Luciana Zaramela | 03 de Maio de 2022 às 12h20
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Há alguns anos, alguns estudos lançaram evidências — controversas, em grande parte — acerca da relação entre o Toxoplasma gondii e problemas psicológicos em adultos. Esse parasita, causador da toxoplasmose, é transmitido aos humanos através das fezes de gatos infectados, e há até mesmo pesquisas sugerindo que quem contrai o parasita acaba tendo o efeito adverso de gostar mais de gatos.

Um novo estudo, feito por cientistas da McGill University, no Canadá, procurou esclarecer as teorias envolvendo a toxoplasmose e a saúde neurológica dos seres humanos. Em particular, os pesquisadores sondaram a relação entre o contato com gatos ainda na infância e os impactos que isso pode ter na vida adulta. O estudo foi publicado em abril deste ano, na revista Journal of Psychiatric Research.

Os cientistas já deixam claro que o estudo não estabelece causalidade, no entanto: é reforçado que o contato com gatos é associado a ter mais experiências psicóticas na vida adulta, especialmente aos homens, mas não quer dizer que elas são primariamente causadas por isso.

O estudo não estabelece causalidade, e só leva em conta gatos que caçam ratos, então caso seu gato não saia de casa, não há o que temer (Imagem: Freepik/Reprodução)
O estudo não estabelece causalidade, e só leva em conta gatos que caçam ratos, então caso seu gato não saia de casa, não há o que temer (Imagem: Freepik/Reprodução)

Toxoplasmose e psicose

O estudo começou com base em entrevistas com 2000 pessoas em Montreal, no Canadá, que responderam perguntas sobre exposição ambiental a várias coisas, desde gatos a cigarro e ferimentos na cabeça, buscando descobrir fatores de risco para a psicose. Uma das perguntas era se o participante tinha algum gato, e se o animal caçava ratos, o que pode indicar a presença do Toxoplasma gondii, sendo o ciclo de vida do parasita.

Analisando os dados, os pesquisadores Suzanne King e Vincent Paquin viram que a relação entre psicose e a presença de gatos em casa era mais forte quando o animal caçava roedores. Enquanto consideram o achado interessante e digno de receber mais atenção, inclusive acadêmica, os cientistas acreditam que não é algo que deva, no momento, desencorajar ter um gato em casa: pelo contrário, ter um animal doméstico amado e bem cuidado traz inúmeros benefícios, segundo eles.

Toxoplasmose e sexo

E esse estudo não é o único que trata dos efeitos curiosos da toxoplasmose em humanos: uma pesquisa de 2016 notou alguns padrões de comportamento sexuais diferentes em pessoas com maior exposição ao Toxoplasma gondii, especialmente no que tange atração sexual a medo, perigo, dor e submissão.

Os pesquisadores comparam esse estudo ao uso do tabaco — inicialmente, pouco se sabia das influências do consumo na saúde, sendo necessária muita pesquisa para descobrir todas as ramificações em sintomas e riscos possíveis. Ter várias linhas estudando potenciais impactos na saúde humana causados pela toxoplasmose também é importante, mas não quer dizer que todas as correlações serão verdadeiras, e a solução não será, necessariamente, nos livrarmos dos gatos.

Pesquisas futuras podem acabar determinando outras formas de encarar a toxoplasmose, e pode ser que nem tenhamos que fazer nada em relação aos gatos (Imagem: Milada Vigerova/Unsplash)
Pesquisas futuras podem acabar determinando outras formas de encarar a toxoplasmose, e pode ser que nem tenhamos que fazer nada em relação aos gatos (Imagem: Milada Vigerova/Unsplash)

Pesquisas futuras

Agora, os cientistas acreditam que o próximo passo é fazer exames de anticorpo para confirmar a exposição das pessoas ao vírus, já que uma das limitações do último estudo foi a falta dessa medida. Até agora, outros estudos foram capazes de fazer esse exame apenas uma vez, e na vida adulta, com relatos de exposição ao parasita em algum momento da vida. Idealmente, as medidas teriam de ser feitas em vários momentos da vida de um participante.

Como a toxoplasmose também pode ser transmitida de mãe para filho, os pesquisadores gostariam de acompanhar, também, mudanças no risco de psicose e outras condições entre transmissões antes do nascimento, na infância e na vida adulta, procurando entender qual poderia afetar mais ou menos o infectado. O primeiro estudo que encontrou essa ligação foi feito em 1995, mas desde então, não foram feitas muitas pesquisas nesse campo.

A culpa não é dos gatos

Mesmo que estudos mostrem a relação entre o Toxoplasma e os felinos, precisamos nos conscientizar a respeito de que ter um pet em casa não é prejudicial a quem mora nela, desde que o animal seja cuidado com responsabilidade. A principal forma de contágio do protozoário é através de ingestão de carnes cruas, mal cozidas ou sem procedência, hortaliças e frutas mal lavadas. A má higienização não elimina possíveis protozoários que contaminam os alimentos após gatos que os carreiam defecarem no solo.

De acordo com Lisandra Dornelles, presidente do Conselho Regional de Medicina Veterinária do Rio Grande do Sul, “A fama de que os gatos são os grandes culpados da toxoplasmose é injusta, e é preciso esclarecer isso”. As fezes dos gatos são um meio de transmissão, mas vale lembrar que gatos contaminados só eliminam o Toxoplasma gondii uma vez na vida. Após esse evento, ele se torna hospedeiro — mas não transmite mais a doença para outras espécies.

Os gatos não tem culpa na história toda e cuidados mínimos de limpeza já zeram as chances do seu bichinho transmitir a doença, então nada de descontar nele! (Imagem: Reprodução: Patricia Gnipper)
Os gatos não tem culpa na história toda e cuidados mínimos de limpeza já zeram as chances do seu bichinho transmitir a doença, então nada de descontar nele! (Imagem: Patricia Gnipper/Canaltech)

Higiene é essencial

É válido se atentar para a higiene na hora de recolher as fezes dos gatos. A caixa de areia do bichano deve ser limpa pelo menos uma vez por semana, mas o ideal é de uma a duas vezes por dia. As mãos devem ser lavadas logo em seguida. Por mês, é necessário realizar a troca da areia higiênica do animal pelo menos uma vez. 

O protozoário responsável pela toxoplasmose só se desenvolve caso os excrementos felinos fiquem ao ar livre por três dias sem o devido recolhimento — ou seja, cuidados mínimos com a higiene da caixinha de areia já nos livram de problemas. Além disso, quanto ao uso de carnes, é importante congelá-las por quatro dias no freezer, inativando o toxoplasma. Após esse período, a carna pode ser consumida mal-passada sem medo.

Outra boa prática é separar tábuas diferentes para o corte das carnes e dos legumes, frutas e verduras quando consumidos em sua forma natural. Os utensílios utilizados para corte também devem passar por uma boa lavagem. Caso seu gatinho tenha uma alimentação natural bem feita e acompanhada por médico veterinário ou zootecnista, não há risco de contaminação algum.

Cuidados alimentares, principalmente com a carne, também são essenciais para evitar contaminações com o toxoplasma (Imagem: Kyle Mackie/Unsplash)
Cuidados alimentares, principalmente com a carne, também são essenciais para evitar contaminações com o toxoplasma (Imagem: Kyle Mackie/Unsplash)

Além de lavar as mãos e redobrar os cuidados ao limpar fezes de gatos ou manipular terra, nos casos de residências em que o gato tem acesso ao jardim, também é importante lavar e cozinhar bem os alimentos antes de servir. Já as crianças que brincam em parquinhos de areia ou pracinhas devem ter suas mãos bem higienizadas após a brincadeira.

Cuidados veterinários

Quando contraem a toxoplasmose, os gatos podem demorar a apresentar sintomas, como vômito e diarreia, ou mesmo nunca tê-los. Se notar algum deles, procure um médico veterinário. Também é possível detectar a infecção (e quão recente é) com exame sorológico simples. Ele pode ser repetido a cada 6 meses ou anualmente, a depender do estilo de vida do bichano e a avaliação do veterinário.

A recomendação principal é, no entanto, manter seus gatos domiciliados, ou seja, sem acesso à rua, evitando que cacem presas potencialmente contaminadas. É bom não tomar nenhuma decisão precipitada, pois não há motivos para abandonar ou doar seu gato!

 

Fonte: Journal of Psychiatric Research, Evolutionary Psychology, bioRxiv, CRMV-RS

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