Especial | Como a pandemia afetou a indústria musical [parte 1]

Por Luciana Zaramela | 28 de Setembro de 2020 às 14h20
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Desde que começou a pandemia do novo coronavírus, declarada como tal pela Organização Mundial da Saúde em 11 de março de 2020, muita gente se viu em uma situação de enfrentamento particular — cada um no seu mundo, cada qual com seus desafios. E nesse turbilhão de notícias ruins, readaptação de rotinas, isolamento social e quarentena, algo que já era comum no dia a dia das pessoas se tornou praticamente essencial: a música. É incrível perceber como ela tem ajudado as pessoas a cuidarem de sua saúde mental, seja servindo de remédio para a alma, seja como uma nova descoberta na vida muita gente.

Sem expectativas concretas sobre uma possível vacina e a tão sonhada volta à normalidade, o movimento da indústria começou com velocidade de avalanche: cancelamentos de shows começaram no início do ano na Ásia (já que estava lá o primeiro epicentro da, então, epidemia do novo coronavírus). Poucas semanas depois, foi a vez da Europa, com Itália, Espanha e Alemanha sofrendo consequências drásticas do vírus. E, dali em diante, o mundo inteiro assistiu a um quadro gravíssimo de transmissão da COVID-19, junto a suspensões (por tempo indeterminado) e cancelamentos de grandes eventos musicais, como Coachella e Lolapalooza, bem como apresentações de expoentes da música internacional, a exemplo de Metallica, Pearl Jam, The Who, Bob Dylan e Madonna, só para citar alguns.

Diante das restrições impostas pelo coronavírus e do prejuízo que pegou a indústria da música desprevenida, foi preciso encontrar uma saída. Ou várias. Só no Brasil, a COVID-19 já causou prejuízo de mais de R$ 480 milhões, segundo levantamento do Data Sim — núcleo de pesquisa da Semana Internacional de Música de São Paulo —, em abril. Foram entrevistadas 536 empresas, indicando cancelamento de 8.141 eventos musicais, cuja projeção de público chegava a 8 milhões de pessoas.

O adeus temporário aos shows com plateia: o que está acontecendo com a indústria da música (Imagem: NeONBRAND/Unsplash)

O Canaltech conversou com algumas pessoas inseridas na indústria musical para entender como a pandemia impactou a humanidade não apenas no sentido de estar em casa e consumir mais conteúdo voltado aos sons, como lives, serviços de streaming e até mesmo resgatar mídias antigas, como o bom e velho disco de vinil. Buscamos também entender a rotina de quem está do outro lado, trabalhando com música e sentindo os efeitos do isolamento em época em que não se pode mais fazer shows e nem eventos físicos.

E em um storytelling de três matérias e separado em nove capítulos, detalhado e descontraído, porém repleto de informações e dicas, a gente só comprova algo que já suspeitávamos: o áudio é muito mais importante em nossas vidas do que imaginávamos. E pela música, somos capazes de transformar muito mais do que imaginávamos.

Capítulo 1: os impactos na indústria 

Trocamos uma ideia com Alexandro Azevedo, head de Business Development da Audio-Technica para o Brasil, para termos uma ideia da dimensão dos impactos negativos da pandemia na vida de músicos, produtores de eventos, roadies, empresas e equipe técnica. O setor voltado à música profissional, de modo geral, foi o primeiro a sentir o baque. "Não há dúvidas que o setor de áudio profissional e eventos foi um dos primeiros a ser afetado e seguramente será o último a retomar à plena atividade. É realmente um impacto brutal nos negócios do setor e na vida de muitas famílias que sobrevivem deste mercado", conta o executivo.

Os eventos não minguaram; eles simplesmente desapareceram. Foram cancelados de uma hora para outra. Datas, agendas, ingressos, reservas de locais… toda aquela preparação que acontece para um evento teve de ser revertida. O clima era de desespero; afinal, quem vive de música precisa de espaço e de público para trabalhar. "Houve passeatas em vários estados do Brasil e também em outros países, bem como criaram um movimento chamado #WeMakeEvents de forma a apoiar os trabalhadores deste mercado", lembra Alexandro.

Além dos eventos, outra dificuldade era reunir o pessoal para ensaios e composições. Diogo Machado, baixista e integrante da banda Sulco, contou ao Canaltech que era difícil fazer um ensaio com poucas pessoas acontecer, por conta do isolamento social. "A primeira limitação que a pandemia trouxe foi para nós mesmos nos encontrarmos presencialmente e produzir os arranjos, etc. Tivemos que esperar um tempo e nos preparar. Chegamos a produzir vídeo collab, cada uma da sua casa, mas não foi suficiente", relata.

No mundo, a COVID-19 pegou a indústria da música de forma avassaladora: segundo dados do Fórum Econômico Mundial, um shutdown de seis meses nos eventos já custa mais de US$ 10 bilhões apenas em patrocínio. E o cenário não apresenta sinais de melhoras, embora esteja constantemente se transformando: as coisas devem se arrastar ainda mais, enquanto uma vacina eficaz e segura contra o coronavírus não for aplicada em massa na população.

Feita de casa, para quem está em casa: assim começaram as lives (Imagem: Wes Hicks/Unsplash)

Capítulo 2: depois da queda, o coice

Cercados por uma ameaça invisível e onipresente, os profissionais do mercado musical se viram em um desafio inédito: sobreviver sem poder sair para tocar, organizar ou manter os shows em dia. Apesar de hoje — com nove meses de pandemia no mundo e sete aqui no Brasil — as lives já fazerem parte da nossa cultura, não foi fácil encontrar nesse nicho digital uma saída.

Muita gente não tinha familiaridade com a tecnologia. Muitos músicos e equipes técnicas não sabiam sequer por onde começar. Era preciso aprender algo novo para manter a renda, ou então partir para outras atividades que pudessem complementar. Até hoje, muita gente ainda luta para se manter ativa na internet, divulgando seu trabalho e tentando conseguir ganhar uma grana através de shows online.

"Atualmente, os músicos lutam pela retomada dos eventos e muitos voltaram a fazer atividades paralelas que eventualmente faziam antes de se tornarem músicos de forma a sobreviver. Há amigos, donos de locadoras de áudio, que estão utilizando a mão de obra e caminhões para realizar e transportar mudanças, outros se converteram em eletricistas e alguns mais ousados investiram um pouco mais e montaram estúdios completos para Lives, com toda a estrutura de áudio e vídeo (A/V). O momento é difícil e as pessoas precisam sobreviver!", desabafa Alexandro.

Mas e a equipe técnica? E quem está nos bastidores, e vive de eventos? Enquanto uns buscam trabalhar em outros ramos, outros estão vivendo de arrecadações e doações de fãs de artistas. Aí entram as plataformas de crowdfunding ou até mesmo as boas e velhas doações via internet banking. Um exemplo disso é o movimento Salve a Graxa, de Belo Horizonte (MG), que atua em prol do pessoal da área técnica dos eventos, popularmente conhecido como graxa (montadores, carregadores, roadies, técnicos de áudio, vídeo e iluminação). Esse pessoal teve sua fonte de renda cancelada ainda no inicio da pandemia com a suspensão dos eventos, e a grande maioria não tem vínculo empregatício. O projeto já arrecadou mais de duas mil cestas básicas para famílias de profissionais que atuam nos bastidores dos eventos na cidade.

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Mesmo assim, ainda é muita gente — dos palcos aos bastidores. E foi preciso se recriar.

Capítulo 3: o show tem que continuar

No mundo todo, músicos sentiram o baque da pandemia. Até mesmo gigantes do ramo tiveram agendas canceladas por tempo indeterminado. O que restaria, então? Assim como as empresas viram no home office a saída para continuarem seu trabalho, os músicos adaptaram esse novo modelo de negócio às suas rotinas. Era preciso usar a internet de alguma forma. E a partir de então, foram tomando corpo novas formas de se fazer shows: as lives.

Foi com as lives, os eventos online, os vídeos colaborativos e até com a disponibilização de descontos em produtos licenciados que a indústria da música "deu seus pulos". Claro, nada substitui o show, a presença física, a galera na plateia vibrando a cada acorde, a cada verso cantado, aplaudindo. Mas uma movimentação incrível aconteceu no mundo inteiro para não deixar a música morrer, e, parafraseando Milton Nascimento, "o artista tem de ir aonde o povo está".

"Em um primeiro momento começaram com as lives via plataformas digitais, e em seguida em parceria com canais de televisão. Porém isso funcionou bem por um tempo e na maioria das vezes para os músicos renomados", revela Alexandro, já deixando no ar que o modelo não se sustentou tão bem como parecia.

Este é o Sulco, banda que veio para ser digital e conta como é se manter viva na pandemia (Imagem: Divulgação/Sulco)

Deu bastante certo, no início, e até hoje as lives estão aí, bombando, todos os dias. Só que havia alguns limitadores para que as lives acontecessem: equipamentos, conhecimento técnico e conexão de qualidade com a internet. "A pandemia evidenciou algo que já era de conhecimento da indústria do áudio, mas muitas vezes não percebido pelo usuário final, ou seja, em geral, a qualidade de áudio de computadores e celulares é muito limitada. E se em um momento no qual o mais importante é transmitir a mensagem e/ou música de forma a chamar a atenção das pessoas, sem dúvida não será com uma qualidade sonora baixa, com elevadas distorções, que o músico conseguirá 'vender o seu peixe'. Então, bons microfones para captar voz e microfones para instrumentos, bem como um fone para evitar reverberações desnecessárias geradas pelos alto-falantes do seu computador e/ou celular, são fundamentais para que, do outro lado, o ouvinte tenha prazer em curtir a sua música".

Se por um lado a indústria sofria por falta de shows, por outro, o mercado de equipamentos musicais aquecia. Era preciso trazer qualidade às lives — e até mesmo músicos de muitos anos de estrada precisaram "aprender" a se tornar digitais.

Diogo, do Sulco, conta um pouco sobre sua estratégia com a banda, enquanto se consolidou no mercado digital: "Vendo o surgimento das plataformas de streaming e de arrecadação, como o Patreon, percebemos que este modelo de negócio está chegando em um ponto de transformação". O músico conta que o que vem acontecendo na pandemia, principalmente aqui no Brasil, não é exatamente uma novidade: as "bandas digitais", isto é, que se apresentam na internet e vendem músicas por lá, já existiam muito antes do coronavírus.

"Os americanos e europeus já estão vivendo este novo momento, basta ver o que o Scary Pockets, Jacob Collier e Pomplamoose estão fazendo. Isso nos inspirou a ter um projeto relevante com conteúdo veiculado exclusivamente nos nossos canais. Juntamos a isso à nossa vontade de estarmos juntos tocando — e termos outros músicos colaborando", relata, afirmando que desde o início, a ideia do Sulco seria, primordialmente, ser digital.

"Já dominávamos o áudio. E testamos muito sobre vídeo, buscamos parceiros. Então, estamos nos aprofundando no marketing digital para levar a experiência de uma banda para o ambiente virtual da melhor maneira possível. O desafio é a linha editorial, produzir, gerar e testar todas as ideias", conta Diogo, revelando que o caminho não é fácil, dá trabalho, exige aprendizado, mas é perfeitamente factível. E está acontecendo com muitos músicos e bandas neste exato momento.

[Continua na parte 2]

Fonte: Com informações de: BBC, World Economic Forum, G1, WeMakeEvents

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