Entenda os diferentes tipos de transtorno alimentar e saiba como combatê-los

Por Natalie Rosa | Editado por Luciana Zaramela | 30 de Maio de 2021 às 15h00
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O ato de se alimentar é uma das funções essenciais para a sobrevivência de seres humanos e animais. Porém, na sociedade em que vivemos e que foi construída ao longo de milhares de anos, existem questões que acabam complicando esse processo, como a desigualdade social e a busca por padrões de beleza muitas vezes inalcançáveis, além de condições psicológicas que são resultado do ambiente de vida de cada pessoa, desde a infância até a fase adulta.

Quando surgem esses tipos de complicação relacionados à comida, os chamamos de transtornos alimentares, que acabam provocando problemas que seguem uma linha entre os extremos da obesidade e da desnutrição, com chances de até mesmo resultar em morte. Além disso, os transtornos acarretam em consequências psicológicas ainda mais graves e difíceis de tratar. Para entender melhor o que são essas doenças relacionadas à alimentação, como diagnosticar e tratar, conversamos com alguns profissionais do assunto.

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O que é um distúrbio alimentar e quais são os tipos?

Um distúrbio alimentar é caracterizado pela relação da sanidade com a alimentação, com pensamentos negativos que levam a uma distorção da aparência física ou a uma falta de controle na hora de comer, levando à compulsão. No primeiro caso, na busca por uma aparência que se encaixe nas normas da sociedade, a pessoa que sofre de distúrbios evita comer ao longo de um dia, faz jejuns prolongados de de vários dias seguidos, ou ainda induzem o vômito antes que o corpo comece a absorver os nutrientes do alimento.

No segundo caso, a pessoa acaba enxergando na comida uma válvula de escape e uma recompensa, e acaba não conseguindo entender quando é o momento de parar. Quando isso acontece, além do ganho de peso rápido e exacerbado, a pessoa pode sofrer de danos ao sistema digestivo, ficando mais vulnerável a adquirir outras doenças.

Tchayla Menezes, nutricionista da DaVita Serviços Médicos, explicou ao Canaltech que existem vários tipos de transtornos alimentares, desde os mais comuns até os que acabam passando por despercebidos. A profissional destaca os mais comuns, como a anorexia, bulimia, ortorexia, compulsão alimentar, e os mais discretos, como a ortorexia e a pregorexia. 

Vamos conhecer os principais deles abaixo.

Anorexia nervosa (AN)

Segundo a nutricionista, a anorexia nervosa é um distúrbio em que a pessoa sempre se enxerga com peso acima do desejado, mesmo que ela já esteja visivelmente magra, ou até mesmo desnutrida. Como há uma obsessão pela magreza, essa pessoa acaba recusando a alimentação diária.

Bulimia nervosa (BN)

Pessoas que sofrem de bulimia nervosa também têm a necessidade de emagrecer, mas em vez de a característica principal ser recusar a comida, ela se alimenta de forma compulsiva. Na sequência, ela induz o vômito, faz o uso de laxantes e diuréticos, para depois ficar mais tempo sem comer;

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Transtorno da Compulsão Alimentar (TCA)

O paciente come de forma exagerada, mesmo sem sentir fome, perdendo o controle de quantidades.

Anorexia nervosa atípica

Preenche todos os sintomas da anorexia, mas a pessoa continua com um peso adequado.

Bulimia nervosa de baixa frequência ou com duração limitada

Corresponde aos mesmos sintomas da bulimia, mas acontece eventualmente, seja uma vez por semana ou durante menos de três meses.

Transtorno de compulsão alimentar de baixa frequência ou de duração limitada

A pessoa come de forma compulsiva, mas os episódios acontecem uma vez por semana ou duram menos de três meses.

Transtorno de purgação

Para não engordar, a pessoa faz uso excessivo de laxantes, diuréticos e induz o vômito com frequência.

Pica

As pessoas se alimentam de qualquer coisa que não é considerada comestível, como terra, carvão, argila, moedas, ou ainda escolhe se alimentar vegetais crus e até farinhas.

Ruminação

A ruminação acontece quando o alimento já engolido retorna à boca, e enquanto algumas pessoas cospem, outras mastigam e engolem de novo. Não está conectado a qualquer problema de saúde gástrico e costuma acontecer ao longo do dia.

Transtorno Alimentar Evitativo/Restritivo (TARE)

Acontece quando crianças se recusam a comer determinados alimentos devido à aparência, textura, temperatura e cheiro. Por exemplo, a criança pode se recusar a comer alimentos da cor verde ou de consistências pastosas. Pode provocar problemas graves de saúde devido à deficiência de vitaminas e nutrientes, afetando o desenvolvimento.

Ortorexia

Pessoas com ortorexia se preocupam exageradamente com a qualidade da alimentação e acabam comendo apenas alimentos saudáveis, pesando quantidades e calculando calorias.

Pregorexia

Transtorno alimentar que acontece durante a gestação e pode ser qualquer um dos citados acima, como anorexia, bulimia ou compulsão alimentar, por exemplo. A condição pode afetar o desenvolvimento do bebê.

Diabulimia

Resultado da combinação de diabetes com bulimia. A nutricionista explica como funciona:

"O diabético apresenta uma falha na ação da insulina, hormônio secretado pelo pâncreas, e por vários motivos a substância não consegue mais fazer a glicose virar combustível para as células. Resumindo, sobra açúcar na circulação sanguínea, e para equilibrar esse defeitinho alguns pacientes precisam fazer aplicação de insulina. Porém, quem tem bulimia deixa de tomar de propósito para emagrecer. Claro que essa decisão é muito arriscada, pois esse desbalanço na taxa de açúcar pode ocasionar vários problemas graves como consequências, como hipoglicemia, comprometimentos nos rins, olhos e no coração", diz.

Vigorexia

Conhecido também como transtorno dismórfico muscular, ou Síndrome de Adônis, é o resultado da obsessão pelo corpo perfeito, fazendo com que a pessoa faça exercícios físicos de forma exagerada.

Síndrome de Gourmet

Paciente se preocupa excessivamente com a qualidade do alimento preparado, desde a seleção dos ingredientes até a forma de ele ser servido.

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A comida não pode ser uma inimiga

Tchayla Menezes conta que diversos fatores podem influenciar na relação da pessoa com a comida, fazendo com que o alimento se torne um inimigo. A profissional conta que esses fatores envolvem a insatisfação com a aparência física e idealização do corpo perfeito, a existência de um ambiente familiar negativo e com pouca comunicação, questões genéticas, bullying, assédio sexual e outras experiências traumáticas, além de outros transtornos psiquiátricos, de personalidade e temperamento.

Conversamos também com Yuri Busin, psicólogo, mestre e doutor em neurociência do comportamento pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, e diretor do Centro de Atenção à Saúde Mental - Equilíbrio (CASME). O profissional contou que muitos distúrbios precisam ser tratados com psicologia ou psiquiatria, e que é preciso sempre estar atento aos sintomas dos distúrbios citados acima para buscar ajuda o quanto antes.

Em longo prazo, os transtornos alimentares podem provocar danos ainda maiores à autoestima, segundo o psicólogo, além de danos à saúde mental como um todo. "Muitas vezes, o ato de ela comer compulsivamente, por exemplo, é o reflexo de uma questão psicológica mais do que qualquer outra coisa. Então, ela vai acabar consumindo a comida porque está sofrendo com algo", conta Busin.

Edvânia Soares, nutricionista da Estima Nutrição, pós-Graduada em Nutrição Clinica Esportiva e Vigilância Sanitária, e especialista em nutrição clínica, geral e nutrição esportiva, também nos revelou alguns sintomas sofridos por pessoas que sofrem com distúrbios alimentares. A profissional diz que pessoas que estão sofrendo algum tipo de transtorno costumam se alimentar longe de familiares e amigos para que eles não se atentem ao que ela está consumindo. Elas também acabam se isolando socialmente por se sentirem acima do peso, exagerando em exercícios físicos, entre outras questões citadas acima. Ao menor desses sintomas, segundo a nutricionista, é preciso buscar um tratamento multidisciplinar com um psiquiatra, um psicólogo e um nutricionista. "Todos os profissionais envolvidos tentam melhorar a relação do paciente com a alimentação", pontua.

Existem duas fases de terapia médica nutricional, como conta Edvânia. A primeira é a fase educacional, quando a pessoa recebe informações nutricionais, e a segunda é a experimental, quando o nutricionista se comunica com o restante da equipe do tratamento e faz um aconselhamento de recuperação. Em casos mais graves, o paciente precisa ser internado em um hospital para observação.

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Pós-tratamento

Mesmo depois do tratamento adequado para um distúrbio alimentar, o paciente ainda precisa de acompanhamento para que o problema não apareça novamente, como conta Soares. "O pós-tratamento é um processo difícil e que necessita de muitos cuidados, como psicofarmacológicos, nutricionais, clínicos e psicoterápicos. É necessário realizar acompanhamento com psicólogo e psiquiatra, e usar estratégias como diário alimentar e registro alimentar. Com isso, o paciente conseguirá registrar a emoção de comer ou de deixar de comer, e servirá também para monitorar a quantidade de comida para evitar a compulsão alimentar", revela.

A psicóloga Marcia Ruas Gonçalvez, do Fleury Medicina em Saúde, conversou com o Canaltech e ressaltou que mesmo após um tratamento eficaz contra essas doenças, o paciente sempre vai precisar ter cuidados psicológicos, psiquiátricos e nutritivos. "O processo de manutenção e prevenção de recaída tem como objetivo retomar o desenvolvimento do paciente em todos os aspectos possíveis, fazendo com que ele entenda que deve manter não apenas o peso, mas um padrão alimentar saudável e uma vida mais plena", completa.

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Os profissionais afirmam que mesmo durante o período de pandemia é possível buscar ajuda, graças à telemedicina, e que isso não pode ser um empecilho por se tratar de um problema grave de saúde pública, que pode resultar em desnutrição, falência múltipla dos órgãos e o óbito. "Hoje em dia, a telemedicina está sendo bastante utilizada, mas cabe a preferência do paciente ter o cuidado de saber se ele ficará à vontade em ter esse tipo de atendimento. Os exames requisitados são esses: hemograma, no qual deve ter um cuidado ao avaliar a hemoconcentração e a respostas fisiológicas a desnutrição, endoscopia e densitometria óssea", conta Menezes.

Gonçalvez ressaltou algumas questões importantes para o momento de identificar um distúrbio alimentar e buscar ajuda. "Mesmo com muita divulgação nos meios de comunicação, homens e mulheres que apresentam tal diagnóstico não sabem ou têm vergonha de seus comportamentos e, consequentemente, não procuram ajuda. Em muitos casos, são os familiares que buscam tratamento para aqueles que custam aceitar ou acreditar que têm algum problema", pontua a profissional.

Um tratamento eficaz consegue recuperar o estado nutricional do paciente, criar uma boa reeducação alimentar, projetada para cada caso e de forma lenta, acabar com as crises de induçâo de vômito, jejum e alimentação compulsiva, e ajudar a pessoa a seguir o resto da vida com uma alimentação saudável e não ver mais a comida como uma vilã.

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