Aplicativos de dieta podem trazer prejuízo para sua saúde física e mental

Por Natalie Rosa | 27 de Fevereiro de 2020 às 18h25
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A quantidade de aplicativos existentes atualmente é praticamente incontável, e eles foram criados para os mais diferentes objetivos, inclusive relacionados à perda de peso e saúde. Basta uma rápida busca pelas lojas de apps, como o Google Play e App Store, para encontrar, por exemplo, uma infinidade de recursos relacionados ao corpo, dieta, exercícios físicos e até jejum.

Aplicativos que surgem com base na meta do corpo "perfeito", geralmente têm títulos como "perder peso" e "emagrecer", o que acaba atraindo a atenção não só de adultos, mas de crianças e adolescentes que já têm problemas com o seu peso e sua aparência.

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Esses apps costumam oferecer recursos de contagem de calorias, monitoramento do que é comido, entre outras funções que, de fato, podem ser úteis para balancear uma boa alimentação com o exercício físico e, futuramente, alcançar a meta desejada. No entanto, sem o acompanhamento profissional, o seu uso pode trazer riscos à saúde e danos psicológicos, como os distúrbios alimentares.

Imagem: Captura de tela/Natalie Rosa
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Entendendo o problema

O Canaltech conversou com a nutricionista Chrissy França Covatti, que contou que os aplicativos de dieta, por mais que tenham boas intenções, podem trazer consequências ao corpo, como falta de conhecimento sobre quantidades de energia, falta de conscientização sobre o corpo de cada indivíduo, além do desconhecimento nutritivo que, consequentemente, pode provocar o consumo excessivo de nutrientes e não informar sobre quais são os perigos desse excesso. Além disso, o usuário pode acabar não ficando atento às patologias que podem ter ou desencadear, muito menos sabendo como prevenir ou tratar.

Os apps de dieta também chamam a atenção do usuário que acredita estar precisando perder peso, conquistado pelas promessas e pela aparência colorida e divertida, parecendo ser algo inovador e que vai funcionar de imediato, mas informações sobre restrição de uso ficam em falta. Com isso, os jovens, principalmente, pré-dispostos a desenvolverem distúrbios alimentares, como bulimia e anorexia, por exemplo, podem acabar piorando seus quadros.

Sendo uma tendência relativamente nova, o assunto ainda não é muito debatido, pelo menos fora do circuito de profissionais que trabalham com o problema. Mas um estudo publicado em 2017, pela Universidade de Louisville, nos Estados Unidos, mostrou que 73% dos participantes da pesquisa que usavam o aplicativo MyFitnessPal, um dos mais populares do segmento, sentiram que o serviço contribuiu para potencializar seus distúrbios alimentares. A maioria deles são estudantes de ensino médio.

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Adolescentes são os mais propensos a adquirirem a doença, de acordo com informações obtidas pela NEDA (National Eating Disorders Association), organização não-governamental norte-americana de prevenção a distúrbios alimentares. O estudo notou que adolescentes são mais favoráveis a provocar vômito, pular refeições e até a fumar, provendo uma satisfação que não seja a alimentação, do que adultos. No ano passado, um grande estudo realizado por mais de 100 pesquisadores em 17 países da América do Norte, Austrália, Ásia e Europa, mostrou que quase 17 mil pessoas tiveram mutações genéticas causadas pela anorexia, provando que a doença é um problema real que precisa de mais atenção.

Somente no Brasil, de acordo com informações do G1, mais de 150 mil casos de anorexia são registrados anualmente. A doença é caracterizada pela perda de apetite, mas também pode surgir em forma de anorexia nervosa, em que a pessoa recusa se alimentar mesmo estando com fome. Já na bulimia, outra disfunção alimentar bastante comum, a pessoa induz o vômito com medo de engordar.

O perigo existe e o cuidado é essencial

Além de condições como bulimia e anorexia, o controle excessivo da alimentação sem o acompanhamento profissional pode trazer outros danos psicológicos, como conta a psicóloga Mariana Galesi Bueno (CRP 08/13.324), especialista em transtornos alimentares, afirmando que é preciso prestar bastante atenção em mudanças de vida que essa tendência pode causar.

"Independente de parâmetros diagnósticos, se uma pessoa passa muito tempo por dia pensando sobre sua alimentação ou forma física, se sente angústia em relação a esse tema, se impacta de alguma forma em sua vida, seja pessoal, familiar, profissional ou amorosa, é um sinal de alerta bastante significativo sobre a saúde mental, e vale muito procurar atendimento profissional. Relações disfuncionais com a comida e a autoimagem são bastante comuns na atualidade, e acabam sendo banalizadas", conta.

Chrissy ressalta ainda que não só os aplicativos de dieta, como relógios inteligentes e outros apps que fazem o monitoramento constante do corpo podem ser prejudiciais, pois o conhecimento em nutrição vai muito além de apenas contar calorias gastas e consumidas. "Precisamos de nutrientes, fibras e alimentos densos nutricionalmente", ressalta.

Galesi afirma que, apesar de ser um alerta que precisa de atenção, os aplicativos de dieta não trarão problemas para pessoas que não apresentam questões psicológicas relacionadas, mas sim com quem possui características de ansiedade ou obsessão, encontrando nessas tecnologias o "combustível" capaz de gerar um círculo vicioso.

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"É importante que cada usuário tente ser o mais criterioso possível sobre a análise de risco e benefício no uso dessas tecnologias, e sempre que possível ser orientado por um profissional, tanto para ter um parâmetro real sobre alimentação e atividades físicas, quanto se esse tipo de monitoramento realmente contribui ou acaba sendo somente mais uma fonte de ansiedade", diz a psicóloga.

Esses aplicativos costumam ser encorajadores, provocando ainda mais as crises de ansiedade de quem já sofre da doença, e muitos desses incentivos vem de apps de jejum. Esta categoria de apps, inclusive, costuma "gamificar" o ato de jejuar, fazendo com que a prática se torne uma competição do usuário com ele mesmo, sempre aumentando o sentimento de que nas próximas vezes o jejum será maior, batendo seu próprio recorde a cada vez.

Para Mariana, as relações disfuncionais com a comida e a autoimagem são bastante comuns na sociedade, atual, fazendo com que esses serviços sejam banalizados.

"O sofrimento não pode ser naturalizado. Os marcadores de saúde física podem demorar um pouco mais para se fazerem presentes, mas os mais imediatos são fraqueza, desânimo ou falta de energia para desempenhar as tarefas cotidianas, e a um prazo mais longo podem ocorrer quadros de desnutrição e todas as consequências decorrentes e outros potenciais problemas decorrentes dos desequilíbrios alimentares que as dietas sem acompanhamento podem gerar à saúde", alerta.

Qual a solução?

A psicóloga acredita que seria difícil existir uma regulamentação desses aplicativos de dieta, visto que eles são, na verdade, uma representação tecnológica de recursos que já eram usados antes de toda essa modernidade, como registros, anotações, receitas e combinações de alimentos feitas no modo offline. Por isso, os alertas podem e devem partir das próprias empresas desenvolvedoras desses apps. "Creio que a conscientização seria um caminho mais viável, ou talvez alguma medida de segurança, como o próprio aplicativo sinalizar condutas excessivas ou danosas, como por exemplo uma grande meta de redução de peso em pouco tempo", conta a profissional.

Embora o acompanhamento profissional seja indicado, muitas vezes os distúrbios psicológicos e alimentares podem acontecer com pessoas que já tenham um histórico prévio de dietas supervisionadas. Galesi conta que isso acontece quando os aspectos psicológicos do paciente não são levados em conta no momento de fazer a prescrição de uma dieta ou de adotar um determinado tipo de protocolo. Porém, dietas sem acompanhamento são as que mais vão apresentar riscos.

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É ideal, ainda, que os aplicativos comecem a ensinar seus usuários, principalmente os mais jovens, que há diferenças entre uma dieta e uma alimentação saudável, e também que corpos são diferentes e podem ser encontrados em diversos tamanhos e formatos. Em relação aos exerícios físicos, que são de extrema importância para um corpo saudável, é preciso ter a responsabilidade de que essas atividades não funcionem como punição por, talvez, ter comido o que "não devia", mas sim como um processo diário que só traz benefícios à saúde e que seja divertido.

Tudo isso não significa, no entanto, que o uso dos aplicativos de dieta, contadores de calorias, jejum ou exercício físico devem ser extintos, mas sim que haja uma conscientização maior sobre os riscos de controlar a alimentação por conta própria. É ideal que sempre seja contratada a ajuda de um profissional de nutrição e paralelo com o uso dos aplicativos, além de uma avaliação da saúde mental, para tentar entender se há condições pré-existentes que podem liberar problemas psicológicos mais graves e, consequentemente, distúrbios alimentares seríssimos.

Com informações de: HealthiNation, Refinery29, Science Direct, G1

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