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Enchentes: quais doenças podem chegar com as chuvas?

Por| Editado por Luciana Zaramela | 03 de Junho de 2022 às 10h30

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Eldelik/Envato Elements
Eldelik/Envato Elements

Após as fortes chuvas e enchentes registradas na Grande Recife, o governo de Pernambuco confirmou mais de 100 mortes diretamente associadas com a tragédia. Neste ano, estes desastres também foram registrados em Minas Gerais, Bahia e Rio de Janeiro (Petrópolis). Para além dos danos imediatos, as águas das chuvas também carregam e ajudam a proliferar inúmeras doenças, como a leptospirose, a hepatite A e a dengue.

Para entender sobre os riscos das doenças que chegam com as enchentes, o Canaltech conversou com a médica Sylvia Lemos Hinrichsen, doutora em Medicina Tropical pela Universidade Federal de Pernambuco (Ufpe) e infectologista do Cerpe — medicina diagnóstica da Dasa.

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Quais doenças se intensificam com as enchentes?

Com as enchentes, muitas pessoas perdem suas casas e passam a viver em situações precárias e, potencialmente, de risco para inúmeros agentes infecciosos por um tempo indeterminado. Nessa situação, estão muito mais vulneráveis a doenças que, normalmente, não deveriam se preocupar.

De acordo com a infectologista Hinrichsen, casos das seguintes doenças tendem a se intensificar em regiões e populações que foram afetadas por enchentes:

  • Diarreias bacterianas, causadas pela Salmonella — um gênero de diferentes tipos de bactérias;
  • Hepatite A, provocada pelo vírus de nome homônimo;
  • Leptospirose, causada pela bactéria Leptospira e transmitida por roedores;
  • Tétano, desencadeado pela toxina do bacilo tetânico (Clostridium tetani);
  • Dengue e outras arboviroses, transmitidas pelo mosquito Aedes aegypti contaminado.
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Além dessas infecções, as pessoas também devem estar expostas a outros dois grupos de vírus:

  • Infecções respiratórias, incluindo a gripe (influenza);
  • Covid-19.

Quando o risco de infecção é maior?

Apesar das doenças serem associadas com as enchentes, isso não significa que todas as infecções devem ocorrer de forma simultânea. Na verdade, existem pelo menos três momentos diferentes de risco. "As pessoas só vão chegar aos hospitais de acordo com o período de incubação das doenças, sejam elas causadas por parasitas, vírus ou bactérias", lembra a infectologista.

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Período agudo da enchente

O primeiro momento é marcado pela elevação do nível da água e, consequentemente, pelos alagamentos. Nesta fase, as pessoas são expostas a uma água que carrega diferentes tipos de bactérias, vírus e parasitas.

De forma geral, se o indivíduo contrair uma diarreia bacteriana, os sintomas irão aparecer em 2 a 3 dias. No entanto, em alguns casos, a pessoa pode descobrir a infecção somente 40 dias depois. Este é o caso da hepatite A, que não se manifesta imediatamente. Caso infectado, é comum sentir fadiga, mal-estar e também sintomas gastrointestinais, como enjoos e diarreias.

Água começando a baixar

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Quando a água começa a baixar e as poças se formam, o maior risco é para a leptospirose. Aqui, Hinrichsen comenta que, com as fortes chuvas, os ratos — o principal vetor da doença — vão "para telhados ou outros lugares altos". Quando a água baixa, eles retornam ao habitat natural e, nesse processo, podem deixar diferentes focos da doença, através da urina contaminada.

De forma natural, muitos roedores convivem com a bactéria leptospira, mas a sua infecção pode ser bastante grave para os humanos. Na maioria dos casos, a contaminação ocorre quando pessoas descalças pisam ou entram em contato com a água de poças infectadas.

“Esta é a hora mais perigosa [do ponto de vista das doenças causadas pelas enchentes], porque a leptospira entra [no organismo] e causa uma infecção sistêmica, atingindo principalmente fígados e rins. O período de incubação desse contato passa a ser de 7 a 14 dias, podendo ser menos", explica a médica. Segundo o Ministério da Saúde, a taxa de letalidade média é de 9%.

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Novamente, há risco de diarreias bacterianas, mas estas estão associadas com os alimentos estragados. Com a baixa da água, as pessoas voltam para suas casas e, por causa da situação de vulnerabilidade, podem consumir alimentos que estragaram e não foram mantidos refrigerados, como leites e seus derivados. Outros tipos de infecção também podem ocorrer pela questão da conservação inadequada.

Momento de reconstrução

Quando as águas realmente baixam, é hora de buscar possíveis focos de criadouros de mosquito, como do Aedes aegypti. “Não se deve deixar entulho e nem águas paradas em pneus ou garrafas por causa das arboviroses", ressalta a médica. Além da dengue, é possível observar casos de zika e chikungunya.

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Outra potencial fonte de risco é quando as pessoas estão reconstruindo suas casas, o que envolve materiais de construção e o maior risco de exposição a algum tipo de metal enferrujado, como pregos. Estes podem estar potencialmente contaminados e desencadear quadros de tétano, em caso de perfurações ou contato com lesões.

Covid-19 e os vírus respiratórios

Além de todas as doenças já mencionadas, é preciso se lembrar que casos do coronavírus SARS-CoV-2 são ainda uma questão de saúde pública. “Estamos com o vírus da covid-19 circulando em um período que as pessoas relaxaram no uso da máscara e das medidas de prevenção. Muita gente voltou a ter covid [reinfecções], mesmo que, em alguns casos, de forma mais leve", alerta a infectologista.

Como a covid-19, o risco de outros vírus respiratórios também existe, como a gripe (influenza). "Se já estávamos vivendo, em Recife e em algumas cidades no Brasil, um período maior de gripe, agora, vamos ter mais predisposição por conta dessa situação e dos choques térmicos. A tosse, os resfriados devem começar a aparecer", comenta.

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Como evitar as infecções causadas pela água contaminada?

Para reduzir os riscos, algumas medidas são importantes, principalmente as de proteção. A seguir, confira quais são as principais recomendações:

  • Se possível, não se deve andar descalço ou com sandálias nos locais de alagamento. Idealmente, deve-se usar sapatos fechados, como botas de plástico;
  • Evitar entrar em contato com a água contaminada e nem pisar em poças;
  • Higienizar frutas e verduras com água sanitária ou hipoclorito;
  • Limpar as caixas d’água e aguardar até que tenha potabilidade;
  • Usar as máscaras
  • Manter a higienização das mãos, com água e sabão.

“O mais importante é não colocar a mão suja nos olhos, na boca ou no nariz. E procurar lavar as mãos com água e sabão. Não só previne a covid, mas está prevenindo as diarreias, as parasitoses, as doenças virais, a leptospirose", reforça a médica.

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Importância da vacinação

Por fim, vale destacar que quatro das doenças mencionadas e associadas ao período de fortes chuvas — tétano, hepatite A, covid-19 e gripe — são preveníveis ou podem ser atenuadas com o uso de vacinas. Inclusive, estas estão disponíveis gratuitamente no Sistema Único de Saúde (SUS).

“Não estamos atingindo as metas de vacinação [para algumas campanhas]. É uma ótima oportunidade para atualizar o calendário vacinal, se a pessoa não estiver doente no momento", completa a infectologista.