É assim que o cérebro se comporta sob efeito de uma anestesia geral

É assim que o cérebro se comporta sob efeito de uma anestesia geral

Por Fidel Forato | Editado por Luciana Zaramela | 12 de Maio de 2021 às 09h00
twenty20photos/envato

Em partes, o cérebro humano ainda é um mistério para a ciência e entender o seu comportamento é o objetivo de inúmeros cientistas ao redor do mundo. Agora, um grupo de pesquisadores norte-americanos investigou como os neurônios se comportam quando estão sob o efeito de um anestésico. Nestas condições, a atividade cerebral perde sua complexidade e mais se parece com um zumbido uniforme.

Publicado na revista científica eLife, o estudo investigou o cérebro de quatro macacos-rhesus antes e depois de receberem doses de propofol, um popular anestésico usado em todo o mundo. A pesquisa em primatas não-humanos contou com a participação do médico Emery Brown, professor de neurociência computacional no MIT e de anestesia na Harvard Medical School, ambas instituições dos EUA.

Pequisa investiga como o cérebro de macacos funciona quando está anestesiado (Imagem: Reprodução/iLexx/Envato)

Na última década, Borwn investiga a atividade cerebral durante os momentos de inconsciência. Com a nova pesquisa, o objetivo era entender como os anestéticos funcionam e compreender melhor a atuação dos neurônios nestas condições. “Depois de entender como ler esses padrões e entender a neurofisiologia por trás deles, você pode dosar seus medicamentos melhor”, afirma Brown.

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Como o cérebro funciona normalmente?

Curiosamente, cada pensamento que passa pela nossa mente, literalmente, cruzou no cérebro através de um intenso "diálogo" entre os neurônios. Na forma de impulsos elétricos, os sinais são transmitidos de neurônio para neurônio. Em situações normais, eles pulsam para transmitir uma informação e como "estão no mesmo canal, eles podem falar um com o outro”, explicou Earl K. Miller, professor de neurociência do MIT e um dos outros do estudo.

No cérebro, milhões de neurônios se comunicam desse jeito e em muitas frequências diferentes, ou seja, é uma grande confusão de sinais. “Visões, sons e sentimentos estão todos operando juntos para criar essa experiência unificada [a consciência] do que estamos fazendo, como estamos nos sentindo, o que estamos pensando em um determinado momento”, detalha Miller sobre a forma em que os não-primatas conseguem ler o mundo.

Atividade cerebral parece um zumbido único durante o efeito de sedativos (Imagem: Reprodução/Alina Grubnyak/Unsplash)

No entanto, um anestésico reduz todas essas atividades e esses impulsos para um ritmo baixo, inclusive as frequências mais altas vão embora, como as de100 hertz ou mais. Nessa condições, quase todas são iguais e operam em uma mesma e única frequência.

Pesquisa investiga o comportamento de neurônios anestesiados

Pela primeira vez, uma pesquisa conseguiu demonstrar como neurônios individuais, em várias regiões do cérebro, respondem quando são inundados com um sedativo, no caso o propofol. Nesse momento, os impulsos diminuem de 90% até 95%, criando essa frequência única e baixa, o que dificulta as células em dispararem novos impulsos elétricos.

A figura mostra duas sessões: com uso de propofol e com estímulos. Note a diferença entre os gráficos em cinza: quando acordados, os macacos mostraram um padrão ruidoso de estímulos captados pelos eletrodos em diferentes regiões do cérebro. Esse padrão praticamente some quando os macacos estão sedados (Imagem: Reprodução/Bastos et al., 2021/eLife)

Durante o experimento, a equipe usou um exame que mede a atividade elétrica no cérebro e registra os padrões de ondas cerebrais, o EEG (eletroencefalograma). Para isso, o grupo de cientistas implantou mais de 60 microeletrodos em quatro macacos. No cérebro dos primatas, esses eletrodos foram divididos em quatro seções, sendo três regiões do córtex (lobos frontal, temporal e parietal) e uma do tálamo (na parte mais funda do cérebro).

“A droga vai para todo lugar e chega lá em segundos”, conta o pesquisador Brown sobre o processo que reduz a atividade das ondas cerebrais. Quando se está alerta, lendo, dormindo ou meditando, as ondas cerebrais tendem a ser caóticas e difíceis de analisar, mas nenhum sinal é tão claro quanto os emitidos durante uma anestesia. Neste estado, os picos de atividade neural durante a anestesia são mais coordenados do que em qualquer outro estado mental, mesmo que menos frequentes. Para Brown, é essa uniformidade que mina a consciência.

Para conferir o estudo completo, publicado na revista eLife, clique aqui.

Fonte: Wired  

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