COVID | Estudo que desencoraja uso de hidroxicloroquina é alvo de investigações

Por Luciana Zaramela | 03 de Junho de 2020 às 19h24
Pixabay

ATUALIZAÇÃO (4/6/2020): artigo foi retirado do ar nesta quinta-feira. Saiba mais aqui.

Nesta quarta-feira (3), a Organização Mundial da Saúde anunciou que vai retomar os testes com o medicamento hidroxicloroquina, um dos mais cotados atualmente como possível auxiliar na luta contra a COVID-19. A notícia pegou muita gente de surpresa: desde membros da sociedade médica até civis interessados nos desdobramentos da medicina em busca de um remédio para neutralizar o novo coronavírus (SARS-CoV-2).

Em seu perfil oficial no Twitter, Tedros Adhanom Ghebreysus, diretor da OMS, informou que o Conselho Executivo de Testes de Solidariedade da COVID-19 analisou os dados disponíveis e chegou à conclusão de que não há motivo para descontinuar os ensaios. "O grupo executivo recebeu essa recomendação e endossou a continuidade de todos os testes, incluindo os da hidroxicloroquina", tuitou.

No entanto, a decisão, praticamente súbita aos olhos da web, fez com que muitos se perguntassem: o que teria levado o Conselho a rever esses dados? Por que a OMS teria suspendido os testes? E, ainda, por que retomá-los cerca de um mês depois?

Da publicação na Lancet aos misteriosos autores

No mês passado, um estudo gigantesco envolvendo cerca de 96 mil pacientes de vários países do globo foi publicado na renomada revista médica The Lancet, da Inglaterra. Pelo fato de a revista ser referência internacional em assuntos de saúde, o artigo imediatamente chamou a atenção de todo o mundo.

O estudo afirmava que a hidroxicloroquina, usada normalmente contra malária e prescrita, em situação de testes, contra o coronavírus, estaria relacionada a um aumento do risco de morte em pacientes com COVID-19. Os resultados foram tão impactantes que, muito provavelmente, influenciaram na decisão da OMS a suspender os testes com a droga — e, consequentemente, desencorajaram médicos dos quatro cantos do mundo a suspender testes locais.

No cerne da questão está a polêmica droga antimalariana: funciona ou não funciona contra COVID-19? (Imagem: Reprodução/Sanofi)

O que veio à tona, no entanto, foi uma carta aberta assinada por dezenas de médicos e pesquisadores, publicada no final de abril. Com participação de profissionais do mundo todo, o texto aponta que existem vários problemas envolvendo o estudo e seus dados. Inclusive, como relata a revista Science, questionando a veracidade do estudo publicado na revista inglesa.

Dentre os pontos levantados pelos que questionaram o estudo estão:

  • A falta de controle de pacientes que ingeriram hidroxicloroquina: os que estavam recebendo o medicamento, provavelmente, estariam muito mais doentes do que os que compuseram o grupo controle (que não receberam dosagem alguma);
  • A quantidade exorbitante de pacientes envolvidos no estudo — quase cem mil;
  • Irregularidades como a dos três pacientes africanos, listados no início de março, que compuseram a amostragem: à época, apenas dois casos de COVID-19 existiam em toda a África;
  • O número de mortos na Austrália teria sido superenfatizado no estudo, de acordo com o The Guardian.

Em linhas gerais, a carta questiona a veracidade do conteúdo publicado e coloca em xeque seus resultados.

Quem estaria, então, por trás da pesquisa?

De acordo com uma investigação do jornal inglês The Guardian, uma empresa misteriosa, sediada nos EUA, seria a responsável por repassar os dados para a pesquisa científica. O co-autor do estudo é o CEO da chamada Surgisphere, uma companhia focada em análise de dados de saúde. Pequena e praticamente invisível no ambiente online, essa empresa possui uma lista de funcionários bem restrita, contando com um escritor de ficção científica e um modelo de conteúdo adulto. Na sua página oficial, o link para contato redireciona para um site de criptomoedas.

Após toda essa movimentação, a própria Lancet publicou nesta quarta-feira (3), em seu site oficial, uma nota de esclarecimento, afirmando o seguinte:

Questões científicas importantes foram levantadas sobre os dados relatados no artigo assinado por Mandeep Mehra et al. — Hydroxychloroquine or chloroquine with or without a macrolide for treatment of COVID-19: a multinational registry analysis [Hidroxicloroquina ou cloroquina com ou sem macrolídeo no tratamento da COVID-19: uma análise multinacional de registros, em tradução livre] — publicados na Lancet em 22 de maio de 2020. Embora uma auditoria independente da procedência e da validade dos dados tenha sido encomendada pelos autores não afiliados à Surgisphere e esteja em andamento, com resultados que devem sair muito em breve, estamos publicando uma Nota de Esclarecimento para alertar nossos leitores para o fato de que questões científicas seríssimas nos foram trazidas. Vamos atualizar esse aviso assim que tivermos mais informações.

Investigações

Por que a Lancet publicou essa nota hoje? Por que a OMS também resolveu retomar os testes no mesmo dia? Toda essa polêmica tomou corpo quando o Guardian investigou o caso, no final do mês passado, suspeitando dos números relacionados a pacientes australianos ao cruzar os dados com o mapa da COVID-19 no mundo, fornecido pela Universidade Johns Hopkins.

Em contato com os departamentos de saúde do país, o jornal coletou os números de casos confirmados e mortes reportadas em Victoria e New South Wales, ambos estados do país da Oceania: foram 14 e 26 mortos em cada um, respectivamente, até o dia 21 de abril. O estudo informava 73 mortes até a data na Austrália. As secretarias de saúde dos estados negaram ter enviado dados referentes ao coronavírus aos autores do estudo, segundo o jornal, que prosseguiu sua investigação questionando a Lancet.

Dr. Mandeep Mehra, autor principal do artigo publicado na Lancet

"Já pedimos para que os autores do estudo esclareçam [a questão], sabemos que estão investigando com urgência, e estamos esperando uma resposta", disse a Lancet em resposta ao Guardian. O autor principal da pesquisa, Dr. Mandeep Mehra, informou que entrou em contato com a Surgisphere (que teria providenciado todos os dados, para entender as discrepâncias encontradas) para questionar o motivo do erro. Posteriormente, o fundador da Surgisphere, Dr. Sepan Desai (co-autor do estudo), informou que dados de um hospital da Ásia foram erroneamente incluídos nos da Austrália.

"Revisamos toda a base de dados da Surgisphere e descobrimos que um novo hospital foi adicionado aos registros em 1º de abril, e se auto-designou como pertencente à Australásia", disse um porta-voz da empresa ao Guardian. "Ao revisar os dados de cada um dos hospitais nos registros, observamos que este, em específico, tinha uma composição de quase 100% dos pacientes de raça asiática e um uso relativamente alto de cloroquina em comparação com o não-uso na Austrália", justificou, afirmando que o erro não afeta os resultados finais do estudo.

O outro lado da moeda: Surgisphere se posiciona publicamente

Na página oficial da Surgisphere há um comunicado em resposta à repercussão, que afirma, entre outras questões, o seguinte:

Na nossa análise com hidroxicloroquina, avaliamos um grupo muito específico de pacientes hospitalizados com COVID-19 e afirmamos claramente que nossos resultados não deveriam ser "superinterpretados" por aqueles que ainda não desenvolveram a doença ou que não foram hospitalizados. Também deixamos claras as limitações de um estudo observacional que não pode controlar por completo dados que poderiam gerar confusão, e concluímos que o uso off-label dos medicamentos, fora do contexto de um ensaio clínico, não deve ser recomendado.

A empresa ainda completa com agradecimentos e esclarecimentos à comunidade científica:

Agradecemos à comunidade científica pelo seu compromisso com a integridade dos dados e por nos mostrar que podemos revisar e clarear o conteúdo do nosso artigo. Desde que a publicação original na revista The Lancet saiu, descobrimos que um hospital nos registros da Surgisphere em 1º de Abril (no meio do período de auditoria) se designou como pertencente à Australasia. Ao revisar os dados de cada um dos hospitais, notamos que ele deveria ter sido designado ao continente Asiático. O hospital foi realocado no nosso banco de dados. Os resultados do estudo não foram afetados por isso. [Também] descobrimos que, na publicação original, uma de nossas tabelas trouxe dados superestimados que foram interpretados erroneamente como dados brutos. Se fossem brutos, tornariam os números excessivamente homogêneos. Embora sejam dados precisos, estamos fornecendo à Lancet a tabela atualizada com os dados não ajustados, para ajudar a esclarecer a confusão. Não houve erro na análise e nenhum dos resultados do trabalho foi afetado.

De qualquer maneira, são vários os indícios de que os dados do estudo precisam de revisão urgentemente, em nome da ciência e das vítimas do coronavírus em todo o mundo. Apesar de toda a reviravolta por trás do artigo publicado na Lancet, ainda não está claro, porém, se isso foi o que influenciou a OMS a rever os testes com a hidroxicloroquina e retomá-los.

Apesar de toda a polêmica, tanto a cloroquina quanto a hidroxicloroquina, até o momento, não são drogas comprovadas, cientificamente, para tratamento de COVID-19, vale dizer. As investigações quanto à administração desses fármacos seguem em curso por pesquisadores de todo o mundo — e agora também pela OMS.

Para ler a carta aberta (em inglês) de dezenas de pesquisadores do mundo inteiro aos autores do estudo, clique aqui. E para ler o posicionamento da Surgisphere, na íntegra (também em inglês), clique aqui.

Fonte: The Lancet, Science, The Guardian, Surgisphere

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