COVID-19 | Por que pessoas com obesidade integram o grupo de risco?

Por Nathan Vieira | 08 de Julho de 2020 às 22h20
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De acordo com dados da última Pesquisa de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), mais da metade da população adulta brasileira não tem o peso ideal: são 55,7% com sobrepeso e 19,8% com diagnóstico de obesidade. Esses dados crescentes, somados aos estudos recentes sobre coronavírus, alertam que pessoas com obesidade fazem parte do grupo de risco da COVID-19. A equipe do Canaltech conversou com especialistas na área para entender exatamente o porquê.

Primeiramente, o Dr. Eduardo Grecco, gastrocirurgião do Instituto EndoVitta esclarece que a obesidade é uma doença que se consegue controlar. É possível identificar se está com sobrepeso ou obesidade a partir de uma simples ferramenta de cálculo que se chama índice de massa corpórea (IMC, que é calculada da seguinte forma: peso x altura ao quadrado).

Ele diz que o ideal é o IMC estar até 24,9. De 25 a 29,9 é sobrepeso, e a partir disso já é considerado obesidade (leve, no caso IMC de 30 até 34,9; moderada, no caso de IMC de 35 até 39,9; severa, no caso de IMC de 40 até 49,9; e, por fim, superobeso, no caso de imc maior que 50).

A obesidade é uma doença que leva ao aparecimento de outras doenças no organismo, sendo que entre as mais comuns há a hipertensão arterial sistêmica, diabetes e as doenças coronarianas. Mas, além destas, o médico aponta a ocorrência de refluxo gastroesofágico, doenças de articulações de joelhos e coluna, excesso de gordura no fígado (esteatose hepática), insônia, distúrbios respiratórios, distúrbios hormonais como alteração dos hormônios femininos dificultando a capacidade de engravidar, por exemplo.

Obesidade e coronavírus

Agora que já ficou um pouco mais claro o que exatamente é obesidade, vem à tona a questão da relação entre a doença e o coronavírus. Segundo Eduardo, a obesidade foi incluída como fator de risco pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e a relação está no fato de que os obesos estão mais sujeitos a apresentar estas comorbidades, além de estarem com sua saúde comprometida e com uma série de exames alterados, fazendo com que, no caso de uma infecção pelo coronavírus, possam apresentar sinais e sintomas mais sérios da doença e, assim, necessitarem de internação hospitalar. Portanto, a obesidade está relacionada com casos mais preocupantes ligados ao coronavírus.

Por sua vez, Rodrigo Bomeny – endocrinologista e diretor científico de medicina da Associação Brasileira LowCarb (ABLC) – relembra que desde os primeiros estudos, já era notório que pacientes com obesidade apresentavam um risco maior de desenvolver quadros graves, e depois, com o avançar da doença na Europa e nos Estados Unidos, foram surgindo novos estudos corroborando a hipótese.

O especialista menciona um estudo francês que apontou que pessoas com obesidade teriam um risco quase oito vezes maior de precisar de ventilação mecânica. No estudo em questão, 50% dos pacientes com IMC acima de 30 precisavam dessa ventilação.

Especialistas na área da endocrinologia dissertam a respeito da relação entre obesidade e coronavírus (Imagem: Unsplash)

Rodrigo acrescenta que, nos Estados Unidos, isso também passou a ser observado. Há um impacto muito significativo por lá, porque 40% da população americana tem excesso de peso ou obesidade. "Isso não é uma novidade, se a gente for pensar da relação de obesidade com outras doenças infecciosas. Estudos do HN1, em 2009, já demonstravam que pessoas com obesidade têm um pior prognóstico nesses quadros infecciosos", aponta o médico.

Ele ainda ressalta que a piora da evolução associada a pacientes com obesidade tem vários fatores, sendo o primeiro a mecânica respiratória, que resulta em menos força muscular para respirar, uma maior resistência a ventilação ou uma piora da oxigenação. "A própria mecânica respiratória já é prejudicada por causa do excesso de peso, e isso, na vigência de uma infecção que compromete o pulmão, acaba sendo extremamente prejudicial".

O especialista reafirma que pessoas com obesidade têm uma inflamação crônica e um prejuízo também no sistema imune: "O tecido adiposo tem um papel na nossa imunidade. Quando infectado pelo coronavírus, há uma resposta inflamatória exacerbada. O sistema imune não funciona de maneira ideal, e isso também favorece o pior prognóstico, a pior evolução desses pacientes".

Já o Dr. Marcos Leão Vilas Boas, presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM), revela que quanto maior é o grau de obesidade, mais as células de defesa do organismo estarão ocupadas com a inflamação, dificultando e tornando menos eficazes ações contra bactérias e vírus. Ele menciona que diversos estudos mostram que pacientes que apresentem perda de 5% a 10% do peso já passam a ter melhora importante do quadro inflamatório e com isso de todo o sistema imunológico.

Como lidar com a obesidade na quarentena

Mas o que fazer num momento como esse? Segundo Eduardo, os pacientes devem permanecer em casa seguindo as orientações dos especialistas, do Ministério da Saúde e da Organização Mundial de Saúde. "Devem procurar contato com seu médico aqueles que já fazem o tratamento para obter orientações em relação à sua medicação e como proceder neste período de isolamento. E, claro, no caso de sintomas mais severos, procurar um atendimento hospitalar", instrui.

Passado este período, as pessoas com obesidade necessitam buscar uma orientação médica para tratamento. "Os tratamentos dependem de uma reeducação alimentar e empenho dos pacientes e que os métodos são grandes aliados neste processo", diz Eduardo.

Pessoas com obesidade devem se submeter a uma quarentena mais rigorosa, assim como os idosos, de acordo com os especialistas (Imagem: Pixabay)

Na consulta com um especialista, o primeiro passo será identificar o grau de obesidade, comorbidades e estilo de vida. Então, serão apresentadas alternativas que partem de simplesmente dieta e atividades físicas, para alguns o uso de medicação. "Nos casos de obesidade leve e moderada detectada e dificuldade de perda de peso, os métodos endoscópicos através do balão intragástrico e da gastroplastia endoscópica possuem grande eficácia e segurança, atingindo uma perda de peso total de cerca de vinte a vinte e cinco por cento! Para obesos severos, as técnicas endoscópicas também podem ser empregadas, porém, a princípio, existe a indicação de cirurgia bariátrica", relembra. Vale apontar que a gastroplastia endoscópica só pode ser feita no Brasil em caráter experimental, segundo o CRM.

Enquanto isso, Rodrigo alerta que o cuidado principal é não abandonar o tratamento. A vantagem é que a nossa casa é um ambiente relativamente controlado, então a pessoa é que define o tipo de alimento que entra e o que está disposta a comer. "As pessoas precisam usar esse trunfo a seu favor. Se o seu ambiente estiver ajustado para que você tenha uma alimentação adequada, o seu comportamento seguirá o que seu ambiente já determinou — é mais fácil você deixar de comer doces e alimentos ultra processados se você não tiver esses alimentos em casa a todo momento, por exemplo".

Uma pesquisa conduzida na França aponta que após o isolamento social, cerca de 57% da população ganhou uma média de 2,5 quilos. "Os hábitos alimentares lá e aqui são completamente diferentes, mas não é incomum que nossa população apresente um aumento de peso nos últimos meses e enquanto houver restrições pela pandemia. A mudança de hábitos, de rotina de trabalho, fechamento de academias, parques e praças e até mesmo o estresse podem influenciar no aumento de peso", expõe Marcos.

As pessoas com obesidade precisam passar por uma quarentena mais rigorosa, da mesma forma que os idosos, para evitar o contágio. "Aqueles que são portadores do diabetes tem que tentar ter um controle mais rigoroso, uma atenção maior às suas medicações, ao controle alimentar e, se possível, algum tipo de atividade física para tentar diminuir a descompensação diabética e o impacto da insuficiência insulínica", orienta.

Cirurgia bariátrica é eletiva?

Especialistas contam que o recomendado foi continuar a fazer cirurgias bariátricas durante esse tempo de pandemia (Imagem: Unsplash)

A cirurgia bariátrica é uma medida intervencionista, e há vários tipos: desde cirurgias restritivas — que limitam o tamanho do estômago —, até cirurgias desabsortivas — que também mexem na parte intestinal. Rodrigo enfatiza a importância do paciente ter em mente que a mudança do estilo de vida se faz necessária em todas essas situações. "Se você for optar pela cirurgia bariátrica, a sua mudança de estilo de vida continua sendo necessária, porque existe o risco de ganhar peso novamente. A mesma coisa vale em relação ao uso de medicamentos que inibem o apetite".

Só que, no caso de cirurgia bariátrica em plena pandemia, é necessário atender aos critérios de indicação, que incluem a relação de Índice de Massa Corporal (IMC), histórico e tempo da doença e avaliação de presença de comorbidades. Então é necessário um amplo acompanhamento pré-operatório com uma equipe multidisciplinar que inclui, além do cirurgião, nutricionista, endocrinologista, psicólogo e outras especialidades.

Nesses casos, segundo Marcos, o Conselho Federal de Medicina (CFM) recomendou a continuidade dos serviços de cirurgia bariátrica e metabólica diante da pandemia.

"Quando nós tratamos pacientes obesos ou diabéticos, estamos minimizando o risco de morrer não só das causas que já sabíamos, como infarto, derrame e câncer, mas hoje, no contexto de uma pandemia, nós precisamos minimizar os fatores de risco. Postergar a cirurgia pode resultar em aumento da mortalidade decorrente do COVID-19 caso estes pacientes venham a contrair o vírus", explica.

O presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM) acrescenta que o paciente que passa pela cirurgia perde peso, reduz as doenças associadas e teoricamente está com mais saúde. Sua respiração, sistema fisiológico e metabolismo estão melhores do que se estivesse ainda com a obesidade. "Estar hoje com diabetes e com obesidade representa um risco muito elevado e a cirurgia bariátrica e metabólica são ferramentas mais potentes para minimizar essas doenças e importantes no enfrentamento de qualquer epidemia".

Enquanto isso, Eduardo aponta que os pacientes que estão em tratamento endoscópico através do balão intragástrico ou da gastroplastia endoscópica não precisam se alertar, devem manter suas orientações médicas e nutricionais e manter a rotina de atendimento com sua equipe. Ele ainda relembra que, nestes procedimentos não existe anemia ou perda de vitaminas, o que favorece a imunidade do organismo.

O especialista ainda declara que ter passado por uma bariátrica não é considerado fator de risco, mas os pacientes devem seguir as orientações médicas e manter sua suplementação vitamínica, além de ter um contato mais frequente com sua equipe.

O psicológico

Compulsão e ansiedade são fatores que podem resultar na obesidade (Imagem: Pexels)

Quando se fala de obesidade, muito se aponta em relação ao físico e ao corpo, mas o psicológico/emocional também é um aspecto muito importante. Foi com isso em mente que conversamos com a Luciana Mescolin, psicóloga da Rede Silvestre de Saúde. Luciana faz um alerta principalmente para a compulsão alimentar.

"A compulsão caracteriza-se pela repetição de determinados comportamentos. Inicialmente o indivíduo tem como objetivo a busca de prazer, mas, logo em seguida, sente mal-estar e culpa pelo descontrole. Dessa forma, a compulsão se torna parte de um diagnóstico de saúde mental, pois cria angústia e interfere negativamente no dia a dia da pessoa", explica a profissional. Com a quarentena, a pessoa tem mais disponibilidade de acessar os meios de comunicação, porém as notícias não são promissoras e o cenário é desconhecido, o que contribui para a sequência de pensamentos negativos e repetitivos. Outro fator importante que afeta negativamente a saúde mental é o isolamento social.

Nessas condições, as pessoas estão sujeitas à compulsão alimentar com mais facilidade, pois a pessoa fica mais frágil diante de todo o contexto atual. "Como a compulsão se manifesta com comportamentos respectivos para aliviar a angústia, a pessoa come excessivamente, pois apresenta dificuldades em diferenciar a saciedade, com produzir bem-estar por meio de emoções positivas".

A ansiedade é um dos gatilhos para deflagrar a compulsão alimentar. Segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde), o Brasil é o país mais ansioso do mundo. Sofremos uma epidemia de ansiedade, e que é imprescindível cuidar da nossa saúde mental (inclusive, falando em ansiedade, já fizemos uma matéria sobre como a tecnologia pode te ajudar).

"A compulsão alimentar é um transtorno psicológico: a pessoa sente a necessidade de comer, mesmo sem estar com fome. Ficar em quarentena pode despertar o tédio e a dificuldade de planejar uma nova rotina, o que poderá contribuir para o indivíduo comer de uma forma descontrolada. É importante, para lidar com essa compulsão, que a pessoa pare de agir por impulso quando se alimenta. É relevante destacar que a compulsão alimentar causa obesidade em 75% dos casos, o que contribui para o indivíduo desenvolver várias doenças decorrentes desse aumento de peso", argumenta a psicóloga.

Portanto, as formas de tratamento abrangem várias áreas do conhecimento: a Psicologia, a Psiquiatria, a Educação física e a Nutrição. "De uma forma integrada, o indivíduo, ao sofrer com esse transtorno, terá mais instrumentos para que a sua relação com o alimento e com as emoções seja saudável".

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