Coronavírus: qual a diferença entre vacina injetável, em gota ou via nasal?

Coronavírus: qual a diferença entre vacina injetável, em gota ou via nasal?

Por Fidel Forato | 27 de Agosto de 2020 às 14h11
Reprodução: Freepik

Contra o novo coronavírus (SARS-CoV-2), o mundo vive uma corrida por uma vacina, eficaz e segura, para a imunização, em massa, das pessoas. Pesquisadores e países disputam o pioneirismo na produção do imunizante contra a COVID-19, mas exatamente como ele vai ser? É possível desenvolver vacinas injetáveis, no formato de spray nasal e até mesmo por via oral, como a famosa gotinha para a poliomielite.  

Quando se trata da vacina contra o novo coronavírus, provavelmente, a primeira versão será injetável, ou seja, aplicação deve acontecer através do uso de agulhas descartáveis, com o medicamento sendo aplicado, diretamente, na corrente sanguínea do paciente. "A maioria das vacinas contra a COVID-19, principalmente as que estão na fase 3 [última etapa no processo de desenvolvimento], são injetáveis", explica o Infectologista do hospital Beneficência Portuguesa de São Paulo e doutorando pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), João Prats.

De fato, especificamente na fase 3 de estudos clínicos, todos os modelos são injetáveis. São os casos, por exemplo, da Universidade de Oxford, no Reino Unido, com participação da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo); da farmacêutica norte-americana Pfizer com a empresa de biotecnologia alemã BioNTech; e da empresa chinesa Sinovac, em parceria com o Instituto Butantan. É também o caso da vacina russa, desenvolvida pelo Instituto de Pesquisa Gamaleya.

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Vacinas contra a COVID-19 serão injetáveis, pelo menos as da primeira geração (Imagem: Master1305/Freepik)

Quanto ao futuro, "é possível, sim, que existam vacinas em spray contra a COVID-19. É possível desde que ela se demonstre segura e eficaz", esclarece o infectologista sobre a necessidade de mais estudos. Afinal, entre as mais de 170 vacinas em desenvolvimento contra o coronavírus, está a pesquisa da Universidade de São Paulo (USP) que aposta na imunização através de um spray aplicado, diretamente, nas narinas dos pacientes.

Para isso, a equipe da USP utiliza uma nanopartícula criada pelos próprios pesquisadores e que possui uma propriedade que é muco-adesiva, o que impede que o antígeno seja expelido pelo organismo, através de um espirro, por exemplo. Com esse mecanismo, o modelo não deve ser o primeiro a chegar ao mercado, mas poderá oferecer uma série de vantagens quando estiver pronto para o uso.

Por que estratégias diferentes?

No entanto, o que realmente difere uma vacina injetável de uma em spray? É que diferentes tipos de vacinas acionam diferentes formas de respostas imunológicas no organismo da pessoa. Isso significa que a forma como um imunizante é aplicado depende muito mais da sua eficácia naquela apresentação do que o desejo por uma vacina que não seja dolorida, por exemplo.  

Isso acontece porque o desenvolvimento de vacinas é, primordialmente, baseado em experimentos que apresentam eficácia ou não. "Por exemplo, existe uma vacina intranasal para a influenza [conhecida como a gripe comum]. É mais fácil de ser administrada, mas a vacina foi menos eficaz para alguns casos do que a injetável", comenta Prats sobre a fase de testes. Mesmo com suas limitações, esse modelo pode ser utilizado dependendo do vírus da gripe que está circulando e do quanto de eficácia o imunizante precisa ter, já que pode ativar a imunidade, diretamente, pela absorção nas mucosas do paciente. 

Por outro lado, uma vacina nasal tem um desafio a mais na fase de testes em animais. Camundongos, macacos e coelhos, por exemplo, têm mais dificuldade em inalarem alguma substância, como uma vacina. Pode parecer um detalhe facilmente contornável, mas cada dificuldade na produção de uma vacina impacta o custo de sua produção, afetando até o preço final do imunizante.

A famosa gotinha

Popular entre as crianças, o personagem Zé Gotinha ajudou no estímulo a vacinação contra a polio, em gotas (Imagem: Divulgação/Governo do Estado de São Paulo) 

Quando o assunto são vacinas com diferentes abordagens, é impossível não pensar na vacina contra a poliomielite, conhecida também apenas como polio. Muitos conhecem a vacina pela campanha da gotinha que extrapolou o público alvo, formado por crianças, e conseguiu erradicar a doença que pode afetar os nervos e levar à paralisia. Inclusive, um personagem foi criado para ampliar a adesão ao medicamento em 1986, o Zé Gotinha.   

"A poliomielite é transmitida pela via fecal-oral [pelo trato digestivo], então, a vacina em gota — com o vírus da polio atenuado — simula uma infecção. Se a infecção é adquirida por via oral, nada melhor que uma vacina que é administrada por essa via, simulando a mesma resposta imunológica da doença", explica o infectologista sobre o simples (e indolor) processo de imunização. Sucesso no país, a Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou que o Brasil estava livre da polio em 1994.   

No entanto, a via oral só vale para as vacinas que conseguiram demonstrar, em testes clínicos, uma resposta imunológica eficiente contra o agente infeccioso. Outro fator importante é entender se a porta de entrada do vírus, originalmente, é a mesma para a vacinação. Caso contrário, o imunizante não deve funcionar. Por exemplo: a vacina contra tétano, que é injetável, não funcionaria se fosse administrada por via oral ou nasal. Isso porque o imunizante é feito com uma fração da toxina do tétano que não desencadearia uma resposta imunológica no organismo nesses formatos.

Voltando para a vacina da polio, desde 2011, as campanhas de vacinação nacional contra a doença no país não trabalham somente com a versão oral ± agora, a gotinha só é usada como reforço. Isso porque a versão injetável é considerada mais segura e apresenta menos efeitos colaterais, já que não é feita com o vírus vivo, ou seja, é uma vacina inativada. No entanto, apesar de menos popular, essa abordagem só foi possível após a erradicação da poliomielite no Brasil.

"A desvantagem desse modelo é que ele é injetável, mas a parte boa é que não tem o vírus vivo", pontua Prats. O detalhe pode passar despercebido, mas as vacinas com o vírus atenuado, como a da gotinha, em raras ocasiões, podem desencadear a doença contra a qual se queria imunizar, de forma mais branda. Por isso, são contraindicadas para imunodeprimidos e gestantes.  

A vacina oral também promove a imunidade de rebanho, porque o paciente elimina o vírus por um tempo ainda pelas fezes, por exemplo. Dessa forma, a versão do vírus atenuado pode contaminar outras pessoas, promovendo uma imunidade coletiva contra a polio. Só que como o Brasil já erradicou essa doença, o vírus vivo não é mais interessante pelos riscos de um possível reaparecimento da polio. Assim, a melhor opção, por enquanto, é a versão injetável com o vírus inativado, caindo direto na corrente sanguínea.

Fonte: Com informações: BBC, FiocruzThe New York Times    

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