Como o Google Trends pode ajudar especialistas a prever focos de COVID-19?

Por Fidel Forato | 18 de Novembro de 2020 às 13h45
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Já imaginou o que seu histórico de buscas no Google pode dizer sobre você? Agora, pense no que uma ferramenta que analisa tendências dos buscadores, como o Google Trends, pode informar sobre um grupo de pessoas. A partir desses dados de pesquisa, estudo da Mayo Clinic — uma organização norte-americana sem fins lucrativos e de pesquisa na área da saúde — verificou a possibilidade de prever a disseminação da COVID-19 em regiões dos Estados Unidos. Dessa forma, esta seria mais uma ferramenta para a saúde pública.

Segundo o estudo publicado na Mayo Clinic Proceedings, fortes correlações foram encontradas entre pesquisas por palavras-chave no Google Trends e os surtos de COVID-19 em partes dos EUA. O mais curioso é que essas correlações foram observadas até 16 dias antes dos primeiros casos relatados no novo coronavírus (SASR-CoV-2) em alguns estados, durante o início da epidemia entre os meses de janeiro e abril deste ano.

Análise do Google Trends pode ser ferramenta de saúde pública (Imagem: Reprodução/ PhotoMIX Company/ Pexels)

“O nosso estudo demonstra que há informações no Google Trends que precedem surtos, e, com as análises preditivas, esses dados podem ser usados para alocar melhor os recursos dedicados a testes, equipamentos de proteção individual, medicamentos e muito mais”, afirma o Dr. Mohamad Bydon, neurocirurgião da Mayo Clinic e envolvido no projeto de análise de tendências.

Google Trends e histórico de doenças

“A equipe de neuroinformática foca [em períodos "normais"] nas análises de doenças neurais e neurociência. Porém, quando o novo coronavírus surgiu, minha equipe e eu direcionamos os recursos visando entender melhor e monitorar a disseminação da pandemia”, comenta Bydon. “Ao analisar os dados do Google Trends, descobrimos que éramos capazes de identificar preditores de pontos de foco através de palavras-chave que apareciam no decorrer de um período de seis semanas”, explica o médico.

Além desse caso relacionado ao coronavírus, outros estudos já identificaram o papel da análise de buscas em navegadores para a previsão precoce de surtos. Análises como essa foram buscadas durante a pandemia da H1N1 e a epidemia da Síndrome Respiratória do Oriente Médio (SARS). No entanto, sistemas públicos de saúde ainda não adotam essa forma de vigilância em massa, mesmo que possa salvar vidas.

Pesquisas sobre a COVID-19 no Google

Para entender como a COVID-19 chegava a regiões nos EUA, o grupo pesquisou 10 palavras-chave que foram escolhidas com base em sua frequência de uso e padrões emergentes tanto na Internet quanto no Google Notícias. Entre elas, estavam: sintomas da COVID-19; sintomas de coronavírus; Dor de garganta+falta de ar+fadiga+tosse; centro de testes de coronavírus; perda do olfato; Lysol (famosa marca de produtos de limpeza e desinfecção); anticorpo; máscara facial; vacina do coronavírus; e subsídio para COVID-19.

Para prever um surto da COVID-19, vale estudar buscas sobre máscaras no Google (Imagem: Reprodução/ Laura Dewilde/ Unsplash)

A maioria das palavras-chave apresentou correlações — no estudo de probabilidades, são entendidas como relações estatísticas — em níveis moderados ou fortes dias antes de os primeiros casos da COVID-19 serem relatados na região. Após o primeiro caso, foi observado uma redução nas correlações com estes termos. Isso só foi possível porque o estudo também analisou o número diário de novos casos e óbitos, durante o mesmo período.

“Cada uma dessas palavras-chave teve um nível diferente de correlação com o número de casos”, aponta Bydon. “Se tivéssemos analisado 100 palavras-chave, talvez teríamos encontrado correlações ainda mais fortes com os casos. À medida que a pandemia progride, as pessoas vão pesquisando informações novas e diferentes e, portanto, os termos de pesquisa também precisam evoluir”, completa.

De olho no histórico de buscas

De acordo com as evidências encontradas, a vigilância de pesquisas em buscadores pode ser uma importante ferramenta para as equipes de ciência dos dados que tentam prever surtos e novos pontos de foco durante uma pandemia. “Qualquer atraso das informações pode levar a uma perda de oportunidades de aprimorar o preparo para um surto em um certo local”, defende Bydon.

A aposta é que essa análise seja usada de forma complementar à vigilância tradicional, como testagem em massa e relatórios de saúde pública. Afinal, entender tendências é importante, mas elas precisam ser confirmadas com os testes, de forma rápida. Além disso, relatórios de saúde atrasados ou incompletos podem levar a resultados insatisfatórios no combate a uma doença, como a COVID-19.

“Se esperarmos os pontos de foco surgirem na cobertura da imprensa, será tarde demais para responder de maneira eficaz”, lembra Bydon. Nesse sentido, o caminho para o controle eficiente da COVID-19 é agrupar elementos que apontam para a necessidade de mais recursos de testagem, como o resultado de buscas. “Em termos de prontidão nacional, essa é uma ótima forma de ajudar a entender onde os futuros pontos de foco surgirão”, explica o médico sobre o uso do Google Trends.

Para além desta pesquisa inicial, também foi desenvolvido um mapa para o monitoramento da COVID-19 que mostra os últimos casos e óbitos de todos os municípios norte-americanos. “A adição de variáveis, como os dados do Google Trends da equipe do Dr. Bydon, bem como outros indicadores principais, aumentaram bastante a nossa capacidade de prever surtos, platôs e declínios dos casos nas diversas regiões do país”, afirma o Dr. Henry Ting, diretor de valor da Mayo Clinic.

Para acessar o estudo sobre correlações entre casos da COVID-19 e dados do Google Trends, clique aqui.

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