Como a Fiocruz vai produzir o IFA nacional da vacina contra a COVID-19?

Por Fidel Forato | Editado por Luciana Zaramela | 03 de Junho de 2021 às 10h11
_Tempus_/Envato

Nesta semana, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) fechou o acordo de transferência de tecnologia com a farmacêutica AstraZeneca para a produção 100% nacional da vacina Covishield (Oxford/AstraZeneca) contra a COVID-19. Neste cenário, novas doses do imunizante contra o coronavírus SARS-CoV-2 não dependerão mais da importação do ingrediente farmacêutico ativo (IFA) da China. 

Como primeira parte do acordo, o Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos da Fundação Oswaldo Cruz (Bio-Manguinhos/Fiocruz) recebeu, na quarta-feira (2), um banco de células e outro de vírus. O carregamento chegou pelo Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro, vindo dos Estados Unidos.

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Na viagem, uma série de medidas de segurança foram adotadas para o transporte. Por exemplo: o banco de células foi enviado em nitrogênio líquido e mantido a uma temperatura de aproximadamente -150ºC, já o banco de vírus é armazenado, em gelo seco, a cerca de -80ºC. Toda a cautela é importante porque esse material biológico representa o início da produção do IFA brasileiro para vacinas contra a COVID-19.

Como será a produção do insumo na Fiocruz?

Agora, o descongelamento do material biológico enviado é a primeira etapa do trabalho da Fiocruz, mas ainda passará por uma série de fases de produção e controle de qualidade que duram, no total, 45 dias. A vacina Oxford/AstraZeneca utiliza um adenovírus de chimpanzé, o ChAdOx1, modificado geneticamente para carregar informações genéticas do coronavírus SARS-CoV-2, pensadas para despertar a resposta imune do corpo humano. Então, o segundo passo será o cultivo de todas as células e vírus envolvidos.

Com transferência de tecnologia, a Fiocruz deve ser responsável por todas as etapas de produção da vacina (Imagem: Reprodução/_Tempus_/Envato)

No caso dos vírus, eles precisam ser multiplicados em biorreatores e, em seguida, filtrados para a produção de um concentrado viral puro. Esse produto será, novamente, congelado para aguardar a formulação da vacina. Isso corre quando o produto refrigerado é diluído em outras substâncias, como termoestabilizadores — o que garante que a vacina possa ser armazenada em refrigeradores comuns.

"No total, ocorrem inúmeros processos, além da expansão celular e da biorreação, como o rompimento celular e o tratamento enzimático, a clarificação, a purificação, a concentração e o condicionamento, a formulação do IFA, a filtração final, o congelamento e o controle de qualidade do insumo da vacina", explica a Fiocruz em nota.

Inicialmente, a fábrica da Bio-Manguinhos produzirá dois lotes para pré-validação de todos os processos da produção e três de validação do IFA, que precisarão ser verificados pela AstraZeneca em um teste de comparabilidade que será feito no exterior. Todas essas etapas são necessárias para garantir que o imunizante contra o coronavírus tenha a mesma eficácia da fórmula já em uso no Brasil.

Mudanças no registro da vacina Covishield

Em paralelo, a Fiocruz também trabalha em um pedido de mudança no registro da vacina contra a COVID-19 para a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Isso porque deve ser autorizada a inclusão do novo local de fabricação do IFA no Rio de Janeiro, o que é considerado um item obrigatório para que as doses da vacina sejam destinadas ao Programa Nacional de Imunizações (PNI), do Ministério da Saúde.

Quanto à segurança dessas instalações, a Bio-Manguinhos já recebeu os certificados de Boas Práticas de Fabricação (cBPF) e de condições técnico-operacionais (CTO) da Anvisa. Essas autorizações permitiriam o início da produção do insumo, mas não são suficientes para autorizar a aplicação das doses, feitas a partir desse material, na população.

Assim que todas essas etapas forem concluídas e milhares de litros do insumo sejam produzidos, é preciso dar continuidade no processo de produção da vacina. Com o IFA, a fábrica deve executar todo o processo de envase, rotulagem, embalagem e rigorosa inspeção dos frascos de imunizantes, garantindo uma padronização. No entanto, essas últimas etapas já eram feitas com o insumo importado da China.

Entrega das vacinas 100% nacionais?

Até agora foram entregues 47,6 milhões de doses da vacina Oxford/AstraZeneca para o Ministério da Saúde, incluindo as fórmulas apenas envasadas nacionalmente e as 4 milhões de doses que vieram prontas do Instituto Serum, na Índia. Com o IFA ainda em estoque na Fiocruz, estão garantidas outras 12 milhões de doses, além de cerca de 6,5 milhões de doses já produzidas e que estão em diferentes estágios do controle de qualidade.

Nesse sentido, a produção da Fiocruz não deve parar e tem entregas semanais garantidas até o começo de julho. Segundo o diretor de Bio-Manguinhos, Maurício Zuma, a transferência de tecnologia da AstraZeneca poderá permitir a fabricação de 15 milhões de doses da Covishield por mês.

Fonte: Agência Brasil e Fiocruz   

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